Entrevista

Carla Amado, Coordenadora do Ensino de Português: “Ninguém está isento das propinas”

Esta é a primeira entrevista que o PP faz à actual Coordenadora do Ensino de Português na Alemanha. Carla Sofia Amado. Entre outras questões, quisemos confrontar esta responsável com assuntos referentes ao pagamento da propina e ao número de alunos que frequentam actualmente os cursos de Lingua e Cultura Portuguesas.



PP: Segundo os números constantes no Relatório da Emigração, apresentado na Assembleia em Maio passado, entre o ano de 2012/2013 e o de 2013/2014 deixaram de frequentar os cursos de Português na Alemanha 814 alunos, o que corresponde a uma redução de 20,53%, e foram eliminados 4 horários. Apenas de um ano para o outro, 814 alunos e 4 horários foi uma redução muito forte. Pode esclarecer-nos quanto às causas da mesma?


Carla Amado: Essas informações não são inteiramente verdade.Nos anos letivos de 2012-2013 e 2013-14 foi apenas extinto 1 horário e não 4, ao contrário da informação de que dispõe. De resto, esse horário foi extinto, por o mesmo ter sido absorvido pelo estado alemão, sendo que este horário se referia a uma das escolas do projeto bilingue, i.e., não relacionado com os cursos de português língua de herança.Quanto ao período de inscrições para o ano letivo de 2013/2014 registou-se, de facto, uma diminuição do número de alunos inscritos, mas que foi crescendo durante os meses de verão e, sobretudo, recuperando ao longo dos primeiros meses do ano letivo, entre setembro e dezembro de 2013. A oportunidade de continuar a assegurar a aprendizagem da língua de origem pelos seus educandos continua, pois, a ser prioritária para os pais, que a consideram determinante para o futuro pessoal e profissional dos seus filhos. No entanto, a reestruturação dos horários no sistema escolar alemão, com a introdução da Ganztagsschule, tem dificultado a possibilidade para muitos alunos de frequentarem os cursos de português língua de herança, oferecidos sempre depois das aulas da escola alemã. Com o horário alargado, tornou-se mais difícil para os alunos frequentarem ainda mais um curso extra, sob pena de permanecerem mais de 8h seguidas na escola em atividades letivas o que, sobretudo para as crianças mais jovens, é considerado antipedagógico.Este fator, e a crescente incompatibilidade dos horários da escola alemã em geral, levou a que muitos encarregados de educação se vissem obrigados a optar pela não inscrição no curso de português ou a respetiva anulação da matrícula.


PP: Em números, em que estado se encontra o ensino do português na Alemanha actualmente? Registou-se subida ou descida no número de alunos que frequentam os cursos, relativamente a 2013/2014?


C.A.: No corrente ano letivo de 2014/2015 registou-se uma subida do número de alunos relativamente ao ano letivo passado, sendo que se pode justificar esse aumento também pela flutuação dos novos fluxos migratórios. É importante destacar ainda que há sempre lugar a reajustamento dos totais de alunos ao longo do ano letivo, já que nunca impossibilitamos qualquer aluno de integrar uma turma (a não ser que a mesma não tenha já capacidade para tal e sempre em diálogo com o professor responsável). Neste momento, considerando os cursos integrados (as chamadas AGs – Arbeitsgemeinschaften – ofertas de escola), as turmas do projeto bilingue de Hamburgo e Berlim e todos os cursos de português língua de herança, o Ensino Português (EPE) na Alemanha conta com mais de 3500 alunos inscritos.


PP: Quantos alunos pagam neste momento a propina?


C.A.: Todos. De facto, a propina é paga por todos os alunos que frequentam os cursos de português língua de herança oferecidos pelo Camões, I.P. nas diferentes regiões da Alemanha e em regime de Zusatzunterricht, i.e., os cursos não integrados de alguma forma no currículo do sistema de ensino alemão.



PP: Que solução dão a quem não puder pagar a propina por razões sociais? Ou melhor, quem está isento do pagamento?


C.A.: Ninguém está isento.


Evidentemente que, porque a CEPE está muito consciente de todas as dificuldades por que passam muitos agregados familiares, tem uma postura de grande flexibilidade e compreensão para com a situação individual e particular de cada família, alertando sempre, por princípio, para a possibilidade de se apresentar um pedido fundamentado de redução da propina (para além das reduções que já estão previstas na Portaria 232/2012, de 6 de agosto).No âmbito destas reduções já previstas, por exemplo, uma família com os dois encarregados de educação desempregados paga apenas 20,00€ pela inscrição para todo o ano letivo. De salientar que o valor de capa do próprio manual escolar é algo superior a este valor. Uma família que tenha um encarregado de educação desempregado paga 60,00€ por educando, assim como as famílias com mais de um filho a aprender português também se veem contempladas com redução da propina. Os montantes para cada situação prevista estão indicados no nosso blogue.As situações específicas a que me referia e que nos são apresentadas são sempre devidamente analisadas, consideradas e encaminhadas para os Serviços em Lisboa por esta CEPE, para que se possa dar a todos os educandos e alunos a possibilidade de frequentarem um curso, independentemente da sua situação social e familiar.


PP: Temos conhecimento de que um dos grandes problemas, em todo o Ensino Português no Estrangeiro, é a existência de turmas com alunos de todos os níveis de escolaridade e com reduzido número de horas letivas semanais, problema este que se tem agravado com o encerramento de vários cursos. Como concilia isto com a aplicação da propina?


C.A.: Problema seria deixar de responder a todos os pedidos de inscrição e abrir apenas turmas onde houvesse um número suficiente de alunos para assegurar a homogeneidade. Disto resultaria então que teríamos de extinguir mais de metade dos cursos e só conseguiríamos assegurar a formação de turmas nos grandes centros e nas localidades com uma maior concentração de lusodescendentes.


Passo a explicar.


A rede do EPE na Alemanha sofreu para este ano letivo de 2014/15 uma reestruturação que implicou a integração de alguns cursos noutras localidades, a abertura de novos cursos em áreas onde se verificou existir essa necessidade e, noutros casos, o encerramento de cursos em localidades onde as inscrições não foram suficientes para constituir turma. A extinção de cursos não se pode, posto isto, avaliar como uma causa para as dificuldades que o EPE na Alemanha eventualmente atravessa.


A realidade dos cursos é algo em constante mutação e que tem implicação direta na distribuição geográfica dos mesmos, já que as comunidades se alteram ao longo do tempo, se deslocam e, nalguns casos extremos, se dissipam e chegam mesmo a extinguir-se. Para além disto, sabemos que a realidade dos novos fluxos migratórios para a Alemanha é a de comunidades muito mais dispersas, fator que tem dificultado bastante o nosso trabalho de identificação das localidades onde se torna necessária e mais pertinente a nossa oferta de cursos. Posto isto, é também a geografia da Alemanha que faz com que o contexto do ensino de português língua de herança na Alemanha seja muito particular e não possa ser comparado com o de outros países destino dos nossos emigrantes portugueses.


É ao esforço notável do nosso corpo docente, e que muito reconhecemos, que se deve a qualidade assegurada nos processos de ensino e aprendizagem do português por cada aluno. Perante realidades tão diversas nas diferentes comunidades, constituídas por um número cada vez mais reduzido de crianças em idade de escolarização, como consequência também da redução do número de imigrantes concentrados em determinada área, como referi, os nosso professores veem-se, pois, confrontados com turmas muito heterogéneas e obrigados a definirem novas metodologias e abordagens pedagógicas para da melhor forma transmitirem os conteúdos linguísticos aos seus alunos.


Para além disto, e na nossa opinião, os pais e encarregados de educação compreenderam que o pagamento de uma propina representava, sim, um investimento justificável por tudo o que a mesma garante agora aos aprendentes e que passo a enumerar:


1) material e métodos de ensino incluídos;


2) extensão e multiplicação dos diversos apoios da Coordenação de Ensino (CEPE) para atividades extracurriculares no âmbito dos cursos, tal como visitas de estudo;


3) reconhecimento das aprendizagens dos alunos através de um exame final de certificação por nível de proficiência e que constitui, pois, uma mais-valia não só para o futuro profissional dos aprendentes, mas enquanto elemento facilitador da mobilidade dos alunos para outros países – nomeadamente lusófonos, seja no âmbito de um intercâmbio, estágio ou de uma outra formação académica e/ou profissional. A certificação permite ainda a compatibilização com as certificações e o sistema de avaliação alemão, algo que temos vindo a desenvolver e que sofrerá novas integrações ao longo do presente ano letivo;


4) extensão dos apoios do Camões, I.P..


A CEPE está, por tudo isto, comprometida em acompanhar de muito perto a evolução desta realidade que é nova e em contribuir para um incremento da qualidade dos processos de ensino e aprendizagem dos alunos lusodescendentes em território alemão.


PP: No respeitante aos manuais, sabemos que são apenas para o ensino do Português como língua estrangeira e que muitos professores e pais os consideram inadequados. Tivemos até conhecimento de que se registaram casos de professores que pediram aos pais para pagarem outros manuais, devido a ser impossível trabalhar com aqueles impostos pelo Instituto Camões. O que nos pode dizer a esse respeito?


C.A.: Não há, nem houve, imposição de quaisquer manuais escolares.


Repito: não há este ano letivo, nem houve no ano letivo passado, uma imposição de quaisquer manuais escolares por parte dos Serviços ou da CEPE. No que a este ano letivo de 2014/2015 diz respeito, foi aprovado pelos Serviços em Lisboa, por proposta da CEPE aqui na Alemanha, que, durante este ano letivo, todos os professores teriam a possibilidade de optar pelo método que considerassem adequado a cada nível de aprendizagem. No ano letivo anterior os manuais foram escolhidos por inquérito de preferências pelos próprios professores. Visto que, nalguns casos, os mesmos não agradaram didaticamente, foi-lhes dada então a possibilidade de este ano identificarem diferentes manuais e de os testarem em contexto na sala de aula e de assim os conhecerem melhor aplicados à realidade heterogénea das suas turmas e não apenas de nome para que, para o próximo ano letivo, possamos cumprir e colocar em prática aquelas que são as normas enviadas pelo Camões, I.P.: a seleção dos manuais não pode depender do professor individualmente a cada ano, mas deve, sim, resultar da escolha de uma comissão científico-pedagógica que, reunida, analisa a qualidade e adequação dos manuais, mediante preenchimento de grelha de análise. Essa comissão é, naturalmente, composta pelos nossos professores. Desta feita, estou certa de que, no próximo ano letivo, os nossos professores serão conhecedores de todos os manuais existentes no mercado e experientes acerca da sua aplicação em aula para, desse modo, estarem aptos a definir, em comissão científico-pedagógica, aqueles que serão os métodos a aplicar a longo prazo em cada nível.


É importante ressalvar ainda que nós, no EPE na Alemanha, não ensinamos nem podemos ensinar língua materna, mas sim português língua de herança. Muito menos ensinamos português língua estrangeira às crianças e jovens que frequentam os nossos cursos, na sua larga maioria lusodescendentes. A dificuldade reside no seguinte aspeto: a área científico-pedagógica do português língua de herança é muito nova, só de há poucos anos para cá se começou a fazer investigação nesta área e, como tal, são muito poucos os manuais já publicados que estão diretamente vocacionados e direcionados para o público que não é considerado materno nem absolutamente estrangeiro.


É este, pois, o grande desafio dos nossos docentes e aquele que, sabemo-lo bem, abraçam de forma muito empenhada: adequar os materiais e os métodos aos alunos e ao contexto que tem perante si em cada turma e ter a perfeita noção de que o manual é apenas mais uma ferramenta entre muitos recursos a que deve recorrer.


Mário dos Santos