PP_ Como é que o Senhor Embaixador se vai aproximar e dialogar com a comunidade portuguesa na Alemanha?
 

Emb._ Já comecei a fazer isso. Logo na minha primeira semana de funções, fui a Düsseldorf e a Estugarda onde estive com representantes das comunidades portuguesas. Já tinha estado aqui com representantes das comunidades em Berlim logo no dia a seguir à minha chegada. Procurei sobretudo passar a mensagem de que eu estou à inteira disposição da comunidade portuguesa. E eu quero dizer isto não como uma figura de estilo ou uma manifestação simpática mas efectivamente dizer que os consulados, a embaixada estão ao serviço das comunidades portuguesas, ao serviço e com vontade de estar em perfeita sintonia e à escuta daquilo que são as necessidades, as preocupações e os anseios das comunidades portuguesas. Sempre na perspectiva de que vamos passar uma mensagem de que vamos vencer e de que somos capazes de vencer as dificuldades da forma mais honrada e exemplar possível. Não contam comigo para lamúrias. Contam comigo exactamente na perspectiva de poder transmitir uma acção determinada para vencer as dificuldades.


 

PP_ Como vê a questão do ensino do português aos luso-descendentes na Alemanha?
 


Emb._ É evidente que tive ocasião de estar também com os portugueses que ensinam na Alemanha a língua portuguesa. Houve um encontro com os professores em Weilburg e eu tive ocasião de estar com eles, tive ocasião de me aperceber das críticas, das perguntas, das questões que muitos levantam à mudança que está em curso na forma de aplicar regras que permitam, é esse objectivo do governo português, tornar mais eficaz o ensino da língua portuguesa. É evidente que, como acontece sempre, todas as alterações suscitam interrogações e questões. Aquilo que tem que haver é diálogo e pessoas de um lado e do outro que possam compreender exactamente o que é que se pretende fazer e depois fazer ajustamentos, ir ao encontro das dificuldades de uns e de outros, introduzir alterações na perspectiva de que, como somos todos pessoas sérias, vamos encontrar uma forma de obter os melhores resultados.


 

PP_ Como vê a questão da propina?

Emb._ Com toda a franqueza, eu acho que não se trata de uma propina. Trata-se de uma contribuição, sobretudo para a certificação dos diplomas e para melhorar a qualidade do ensino. Estamos a falar de um valor que representa dez euros por mês por aluno. É evidente que dez euros por mês por aluno para uma família que tenha dificuldades financeiras, e que tenha muitos filhos, na qualidade de alunos, isso pode representar uma carga significativa mas, nesses casos, as autoridades portuguesas, a começar pela coordenação do ensino, pela Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas, pelos consulados e pela Embaixada cá estão para ajudar em situações comprovadamente difíceis. Isso faz parte das regras do jogo. Evidentemente que há mecanismos que permitem fazer face as dificuldades. Agora, é evidente também que, do ponto de vista estritamente objectivo, nós pensarmos numa anuidade que representa dez euros por mês, por aluno, para a esmagadora maioria das famílias, não é um encargo financeiro que se possa considerar exagerado tendo em vista os fins que se pretende alcançar. E que fins são esses? É importante ou não a certificação de diplomas? É muito importante. Isso é um processo oneroso. É um processo que o estado português tinha assumido. Sim, quando tinha dinheiro! Agora tem menos e tem de fazer face a esse tipo de responsabilidades. É evidente que a introdução desta anuidade, como todas as medidas novas, sobretudo as medidas que representam encargos, é uma medida que é sujeita, como é normal numa sociedade aberta e democrática como a nossa, a debate e a críticas, mas tem de ser explicada e objecto de diálogo. E devo dizer-lhe que em Weilburg quando tive ocasião de estar com os professores, aquilo que mais senti foi a vontade que as pessoas têm de dialogar, de perceber e de transmitir a sua opinião e encontrar soluções. Encontrei sobretudo uma perspectiva de empenhamento, de seriedade, de vontade. Conheço bem o universo dos professores em Portugal. São uma classe de profissionais que eu respeito muitíssimo, são, absolutamente, indispensáveis para a sociedade portuguesa, para o tecido social português, quer seja em Portugal quer seja no estrangeiro, e são profissionais altamente qualificados e que nos merecem o maior respeito. A forma como eles na sua grande maioria têm contribuído para apoiar os encarregados de educação neste processo de introdução de inovações é extraordinária. Esta disponibilidade, muitas vezes, com sacrifício dos seus próprios tempos livres e do descanso a que têm direito. Há aqui exemplos de solidariedade que devem ser sublinhados. Efectivamente, o objectivo das medidas é melhorar o sistema. Como digo, todas estas questões são discutíveis e todas estas questões são susceptíveis de introdução de alterações que visam melhorar o sistema. O ensino da língua portuguesa é um aspecto fundamental. Há várias formas de o fazer. Há várias teorias em relação a isso. O português integrado no sistema oficial de ensino, o português como língua materna num sistema de ensino paralelo, há muitas ideias e há muitos sistemas em prática. Aquilo que a mim me parece fundamental é que nunca se perca de vista dois aspectos essenciais: no longo prazo, numa perspectiva estratégica mais uma vez. Em primeiro lugar os portugueses. Em países como a Alemanha, e como outros da UE, são cidadãos da UE. Nós somos europeus. Estamos na Europa. E portanto, estamos na Europa, estamos em casa. Estamos na nossa casa comum. A nossa integração nas sociedades que nos acolhem é fundamental e é natural. As comunidades portuguesas cada vez mais, progressivamente, são comunidades cada vez melhor integradas, por todas as razões, a começar pela cultura que partilhamos e que é a cultura europeia. E no fundo, esse desejo de integração é relevantíssimo para que a vida dos portugueses que estão no estrangeiro seja cada vez mais facilitada e cada vez mais posta ao serviço da comunidade. Por outro lado, é muito importante que os portugueses que vivem no estrangeiro não percam as suas raízes nem a sua ligação a Portugal. E isso é obviamente uma preocupação do Estado, uma preocupação do governo português, mas sobretudo uma preocupação dos próprios.
 

 

 

PP_ E por outro lado também da política económica! Porque se a segunda e terceira gerações continuarem em contacto com a língua portuguesa, isso resultará automaticamente na manutenção do contacto com a cultura portuguesa, no eventual desejo de viajar para Portugal e de consumir produtos portugueses!
 


Emb._ Absolutamente, esse aspecto também é relevante!
 

 

 

PP_ Senhor Embaixador, não lhe parece que estes 120 euros poderão alienar uma parte dos luso-descendentes do nosso país? Afinal já Fernando Pessoa o tinha reconhecido na frase “a língua portuguesa é a minha pátria”!
 


Emb._ Francamente acho que se a questão fosse, que não é, uma contribuição de dez euros por mês para preservar a qualidade do ensino do português no estrangeiro e a certificação de diplomas, eu acho que estamos a falar de um montante simbólico.
 
PP - Mas o que as pessoas vêem como uma propina, o Senhor Embaixador acabou de explicar de uma forma que não cai nessa classificação!
 
Emb.: Eu não a vejo como uma propina, nem sei de onde veio a terminologia propina, e julgo que tecnicamente não há nada que justifique a utilização dessa palavra.
 

 

 

PP_ Actualmente existe uma petição contra essa “propina” e há mesmo um movimento contra a “propina”, extremamente activo, que se recorre de um direito fundamental da constituição portuguesa - o direito à educação. Este é mesmo um dos argumentos de maior peso daquela luta.
 


Emb._ Esses debates são normais em sociedades democráticas e abertas como a nossa e são bem-vindos. Onde há debate há liberdade e isso é muito importante, isso é o mais importante. Qualquer situação conflitual tem que ser resolvida pelo debate, não há outra solução. Sempre partindo do princípio que as coisas que eu disser e fizer, fá-lo-ei sempre numa perspectiva de seriedade. E, desde que as pessoas aceitem esse princípio, todo o debate é possível e as soluções são encontradas na base do debate e do diálogo.
 
PP - As posições dos actores no movimento parecem ter-se extremado!
 
Emb.: As pessoas vivem estas coisas de uma forma apaixonada porque, no fundo, isto tem a ver com a vida delas, é normal que seja assim. É muito compreensível, é muito natural que em questões que tocam directamente a vida de cada um, a sua profissão, o entendimento que cada um tem da forma como exercer a sua profissão, que estas questões sejam apaixonadamente debatidas. No entanto, devo dizer-lhe o seguinte: não se pode confundir, e isto é uma questão de boa-fé, a maioria com os mais activos. Isto é importante referir-se porque a um grande activismo nem sempre corresponde um sentimento generalizado. Mas é sempre assim e é normal que seja assim. E no fundo, quem não participa mais activamente é muitas vezes prejudicado, justamente porque não participou. Repare que em democracia, se uma pessoa não votar, alheia-se do debate político-partidário e do acto eleitoral, evidentemente, não se pode queixar se a cor política do governo que venha a ser eleito não lhe agradar.
 

 

 

PP_ Está para quando a construção da nova Embaixada?

Emb._ Como sabe temos um terreno mas julgo que neste momento está fora de causa construir a nova embaixada de Portugal em Berlim. Eu até acho que seria o sinal errado num momento em que Portugal tem o programa de ajustamento que tem e está a cumpri-lo de uma forma determinada - não me parece que a prioridade seja construir uma nova embaixada de Portugal em Berlim. Não é indispensável neste momento como instrumento de transmissão da imagem inovadora e dinâmica que queremos transmitir. E aquilo que é indispensável transmitir é uma imagem de seriedade e de contenção.
 

 

 

PP_ Em que moldes se vai realizar o dia 10 de Junho deste ano?

Emb._ Do ponto de vista oficial vai ser celebrado em vários sítios da Alemanha. Os consulados gerais vão ter as suas festas por ocasião do dia nacional quer em Estugarda, quer em Düsseldorf, quer em Hamburgo e nós aqui vamos também em torno da embaixada organizar um momento de comemoração do dia nacional. Não vamos fazê-lo no dia 10, especificamente, mas no dia 5, vamos antecipar cinco dias, porque vamos aproveitar o facto de a TAP começar a voar directamente de Lisboa para Berlim, o que está garantido a partir de Schönefeld, e apesar do adiamento da inauguração do aeroporto Willy Brand, a TAP mantém o seu compromisso de começar a voar a partir do dia 5 de Junho. Portanto não alterou minimamente esse compromisso. Evidentemente, com uma recepção para a qual serão convidados os portugueses que são representativos ou mais representativos da comunidade portuguesa que está em Berlim. Mas, sobretudo, queremos que a nossa audiência, sejam empresas, sejam pessoas ligadas ao sector económico, sejam decisores económicos e políticos alemães que possam ser veículo deste aprofundamento das nossas relações económicas e comerciais. Vamos ter uma festa bonita, onde não faltará a componente cultura portuguesa, porque vamos ter música e gastronomia portuguesas, vinhos portugueses, vamos ter a oportunidade de fazer um sorteio de bilhetes de avião da TAP para comemorar o voo inaugural. Vamos ter apoios de empresas portuguesas, como a Sogrape, a Caixa Geral de Depósitos e os hotéis de capital português de grande reputação em Berlim, como o hotel Pestana e o hotel Sana, vão ter um papel predominante nesta nossa festa.
 

 

 

PP_ E planeia algumas alterações para os anos seguintes?

Emb._ É a minha intenção, e já tive oportunidade de falar sobre isto com os cônsules gerais, a partir do próximo ano tentar organizar na Alemanha uma festa oficial única e fora de Berlim, ou seja, a minha ideia é descentralizar os festejos do Dia Nacional. Por exemplo, fazer em 2013 em Düsseldorf, 2014 em Estugarda, 2015 em Hamburgo, ou por outra ordem diferente mas a ideia é em vez de termos festas oficiais separadas termos uma festa preparada com muito cuidado por uma comissão organizadora que no fundo simbolize o Dia de Portugal na Alemanha e que seja feita em grande sintonia com as autoridades locais, que certamente ficarão muito honradas pelo facto de o Dia Nacional, os seus festejos terem lugar fora do círculo habitual da capital e não no círculo tradicional e oficial da capital. É uma boa forma de convidarmos empresas locais. 
Como referi a presença da gastronomia e cultura portuguesas, queria dizer umas palavras sobre a importância que atribuo à vertente cultural. Quando falo da dimensão cultural não estou a falar daquilo que a embaixada pode fazer porque aquilo que a embaixada pode fazer é sempre muito pouco e muito limitado, porque os meios também são limitados. Aquilo que a mim me interessa é promover as sinergias e as complementaridades entre aquilo que a embaixada culturalmente pode fazer e todos os agentes que na Alemanha promovem efectivamente a cultura portuguesa. Nós temos aqui em Berlim, como temos pela Alemanha fora, músicos portugueses, cantores, artistas plásticos, artistas de teatro e quantas vezes essas actividades são levadas a cabo de uma forma que não é sinérgica, que não explora o efeito multiplicador que pode resultar das complementaridades. A minha ambição é pôr-me ao serviço dessas iniciativas, como facilitador no sentido de procurar promover essas várias complementaridades, porque assim chegaremos a muitos mais sítios e faremos muito mais do ponto de vista cultural. Insisto que, nesta vontade da embaixada chegar mais depressa aos nossos interlocutores, quer sejam os portugueses quer sejam os alemães, estamos a fazer um uso muito sério das redes sociais e das plataformas informáticas. Vem aí uma Newsletter cultural que é uma coisa muito diferente da agenda cultural que existia até agora. Há portanto vontade de fazer muito, vontade de fazer bem e, sobretudo, vontade de estar ao serviço dos interesses comuns e os interesses comuns são a imagem e o futuro de Portugal.
 

 

 

 

Berlim: de Cristina Dangerfield-Vogt