Entrevista exclusiva: Helmut Elfenkämper, Embaixador da Alemanha em Lisboa

“Sei que em Portugal muitas pessoas não gostam do termo 'bom aluno'”.

Helmut Elfenkämper
Helmut Elfenkämper



A Alemanha tem representação diplomática em Portugal desde 1871. Foi nesta data, e após várias tentativas, que Bismarck uniu os vários estados alemães, fundando assim o Império Alemão, cujos princípios fundamentais foram estabelecidos pela primeira constituição nacional. Esta nação jovem e antiga, simultaneamente, foi crescendo em influência internacional, passou por períodos muito conturbados ao longo da sua história e é, actualmente, um dos países mais poderosos da União Europeia, tanto política como economicamente. 
A Alemanha assumiu-se como o salvador e o fiador dos países do sul que atravessam crises económico-financeiras gravíssimas. Porém, e apesar da sua boa vontade, logrou alcançar o lugar de bode expiatório em parte da opinião pública portuguesa, num país em que o consenso social está à prova. Foi neste contexto que o Portugal Post foi entrevistar o Senhor Embaixador Elfenkämper em Lisboa..

 


PP_ Como é ser Embaixador da Alemanha em Portugal no actual contexto?

Helmut Elfenkämper_ Ser embaixador em Portugal é, e sempre foi, um prazer, apesar de todo o trabalho e das dificuldades existentes. É a segunda vez que estou em Portugal, onde já estivera nos anos noventa, e regressei em 2009 com muito gosto. Penso que é necessário esclarecer o público que tem reagido criticamente sobre o que aqui se tem passado e sobre o que se relaciona especificamente com a Alemanha. Queremos que todos os membros da União Europeia incluídos na zona Euro nela continuem e é com este fim que trabalhamos; só com um trabalho em uníssono podemos ser bem-sucedidos. O programa de consolidação implementado desde o início de 2011 resulta de reflexões conjuntas com o antigo governo do Primeiro-Ministro Sócrates, com alguns membros dos dois partidos que se encontram actualmente no governo e com os peritos das três organizações internacionais que constituem a troika. Nestas circunstâncias é completamente falso dizer que este programa foi imposto de fora para dentro. Muitas das receitas que aqui se aplicam resultam de análises autocríticas de peritos portugueses e do trabalho conjunto com a Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional sobre o que correu mal na economia deste país, o que tem de ser corrigido, quais as fraquezas estruturais e os pontos fortes.

O contributo concreto da Alemanha é apoiar Portugal na economia real, isto é, no caso das empresas com capacidade de exportação, contribuir para que a   sua proporção na economia  portuguesa cresça e que este crescimento se reflicta proporcionalmente no crescimento das exportações de  Portugal para a Alemanha - que, aliás, em 2011 foi na ordem dos 16 %. A Alemanha é o segundo maior parceiro económico de Portugal e o facto de a economia portuguesa não “encolher” tem a ver com esta situação. Contudo, as exportações da Alemanha para Portugal diminuíram, especialmente no que concerne aos artigos de consumo e aos bens de investimento. Este ano, muito provavelmente, alcançaremos um balanço comercial quase equilibrado entre os dois países, o que não acontecia há várias décadas.

 

 
PP_ Por ocasião da cerimónia de inauguração do Portugal Road Show, que teve lugar no Ministério da Economia em Berlim no passado mês de Setembro, o Dr. Rösler afirmou na conferência de imprensa conjunta com o Dr. Álvaro dos Santos Pereira que Portugal é um aluno exemplar. Porém, os portugueses estão zangados e vêem os seus filhos sem perspectivas futuras. Insisto em perguntar se será que estamos mesmo no caminho correcto? Embora o Senhor Embaixador já tenha respondido a esta pergunta acima.



H.E._ Posso completar, dizendo que, num programa deste tipo, é possível que se sinta que não há luz no fundo do túnel, mas devemos ver o que já foi bem sucedido – e que neste momento encontra pouco eco - isto é, que o comércio externo melhorou para Portugal. Há, naturalmente, os factos negativos que temos de constatar, como um aumento do desemprego superior ao que estava previsto e uma consolidação orçamental através da contenção da despesa, que ainda não atingiu os seus objectivos, e que, por isso, está a ser feita ao nível da receita. Estamos sempre em contacto com Portugal nestas questões. Mas nesta área não há receitas patenteadas. Por isso, surgem problemas e têm de ser discutidas e negociadas eventuais adaptações. Mas isso é sempre objecto das conversações com a missão da troika e em todos os trimestres se tem constatado que o programa tem estado a funcionar, o que voltou a ser o caso aquando da última visita da troika no fim de Agosto.

É neste sentido que devemos interpretar o que disse o ministro da economia alemão. Sei que em Portugal muitas pessoas não gostam do termo “bom aluno”, mas os resultados até agora alcançados por Portugal, por exemplo, nos mercados financeiros internacionais em que os compromissos têm claramente sido honrados, confirmam que a avaliação tem sido correcta.

 


PP_ Os portugueses na Alemanha, ou os luso-alemães, vêem a questão de forma algo diferenciada dos seus congéneres em Portugal e reflectem sobre a melhor forma de ajudar o país. Eles são os imigrantes (e os seu filhos) de meados dos anos sessenta e início dos anos setenta que deixaram Portugal por motivos de ordem económica ou outros. Na sua opinião, como podem os portugueses na Alemanha ajudar Portugal? E em que difere esta imigração antiga da actual?



H.E._ Primeiro, gostaria de dizer que a sociedade portuguesa se caracteriza por um grande sentimento de pertença à família e de ajuda directa aos familiares. Lembro-me bem da imigração dos anos sessenta e setenta, porque no lugar em que vivi quando era jovem trabalhavam muitos portugueses no sector dos têxteis, um sector que desapareceu. Durante as férias escolares trabalhei com portugueses nas máquinas das fábricas para melhorar a minha mesada. Hoje a estrutura da imigração é diferente porque estamos perante pessoas muito qualificadas. Sei que em Portugal há muitas vezes a preocupação de que estes jovens bem qualificados poderão não voltar, mas eu não tenho a certeza que venha a ser assim. Queremos que os jovens procurem oportunidades onde as há, embora a Alemanha não seja um alvo migratório como os países lusófonos, especialmente Angola e também o Brasil. Em segundo lugar, penso que – aliás, conforme o Presidente da República Cavaco Silva afirmou no seu discurso de 5 de Outubro - estes jovens prosseguem a sua qualificação no estrangeiro, que são um bom potencial para o país e que uma parte deles regressará quando as condições internas o permitirem. Nas empresas em Portugal há muito pessoal luso-alemão, tais como engenheiros, que agora são gestores empresariais, e que conhecem bem as culturas portuguesa e alemã.

 


PP_ Como é que as empresas portuguesas podem atrair os alemães? Como se pode criar interesse pelos produtos portugueses no mercado alemão?



H.E._ Este é o interesse que partilho com o meu colega Almeida Sampaio em Berlim e em que trabalhamos juntos. Existe potencial em vários sectores em Portugal, que tem de ser divulgado na Alemanha. Junto do público alemão em geral não há uma imagem do Portugal contemporâneo moderno no que diz respeito a infra-estruturas, transportes e comunicações. Portugal é um país moderno - por vezes mais moderno do que a Alemanha - e tem empresas que são internacionalmente competitivas em muitas áreas. Posso mencionar as energias renováveis, o desenvolvimento de Portugal nas fibras têxteis de alta tecnologia, as empresas de software competitivas, e na química há vários progressos a registar. Infelizmente, as estruturas industriais portuguesas são pequenas e muitas empresas não estão habituadas a trabalhar sozinhas internacionalmente. Em conjunto com a Embaixada de Portugal, a AICEP e as câmaras de comércio e indústria, criámos o programa Portugal Plus - Road Show, com o fim de aproximar empresas e estabelecer parcerias.

Com a delegação do ministro Rösler, que visitou Portugal em Maio, vieram representantes de várias associações alemãs de compradores de materiais e logística, interessadas, por exemplo, na aquisição de partes e acessórios de máquinas e produtos para a indústria automóvel.

 

 
PP_ Do seu ponto de vista, como se pode apresentar Portugal como um país interessante para a angariação de investimentos e de investidores na Alemanha?



H.E._ Isto leva-me, por exemplo, para o tema do turismo. Portugal sempre foi um país atraente para os alemães do ponto de vista turístico. É um país em que muitos alemães têm a sua segunda residência. E penso que este aspecto se manterá. Para além disto, dever-se-á procurar atrair mais alemães que passem aqui uma boa parte do ano ou que aqui se queiram fixar, o que se insere nos objectivos do governo português. Em geral, os alemães têm simpatia por Portugal e não penso que isto seja afectado pelas discussões sobre a crise da zona Euro. Creio que Portugal poderá continuar nesta linha. É também um país cuja história, literatura e cultura continuam a ser interessantes para os alemães.

 

 
PP_ Como é que a Embaixada apoia os portugueses que querem imigrar para a Alemanha? Existe um programa especial?



H.E._ Muitas destas pessoas tomam iniciativas pessoais, talvez se dirijam às câmaras do comércio e indústria, por vezes obtêm informações da fonte na Alemanha, ou através de família que lá viva. Um elemento importante é a aprendizagem da língua alemã e aqui temos o Goethe Institut, que é nosso vizinho, que regista um acentuado aumento de inscrições, especialmente de jovens que querem aprender alemão. Só no semestre do inverno 2012-2013 registou-se um aumento de inscrições de quase 30%, o que mostra um incremento no interesse pela língua alemã em Portugal, e, aliás, também em Espanha.

 


PP_  Nos últimos tempos o consenso social parece estar a ser posto em causa em Portugal. Como embaixador sente um aumento da animosidade contra os alemães ou os portugueses prosseguem na sua habitual forma suave?



H.E._ Pessoalmente não me posso queixar. É um país com um contacto agradável entre as pessoas. Tem havido um crescendo de protestos sociais e políticos. Esperamos que estes protestos continuem pacíficos em geral. Há uma certa crítica aos alemães na comunicação social. A nossa meta enquanto embaixada é explicar quais são os nossos objectivos e procurar contribuir para o debate, esclarecendo o papel da Alemanha. Nós, como parceiros alemães, tentamos política - e economicamente contribuir para que Portugal seja bem - sucedido, mas, no fundo, é de Portugal que depende o resultado final.

 


PP_  Como vê o futuro para Portugal? Há perigo de Portugal sair da zona do Euro? Será que Portugal, a Espanha e a Grécia acabarão numa espécie de zona de periferia do Euro?



H.E._ Penso que já disse que o nosso objectivo é que a zona Euro se mantenha com os parceiros que acabou de nomear, ou seja, com os actuais parceiros, e se consolide de forma a prosseguirmos com o nosso projecto económico. No início pensou-se na necessidade de um conceito abrangente e que numa cimeira o problema ficaria resolvido, mas, como a Chanceler sempre mencionou, não foi este o caso. O que vivemos neste momento, esta crise, a sua intensidade e a sua duração é mais comparável a uma corrida de maratona do que a um “sprint”. Em Portugal há bons atletas de maratona, e como disse, esta maratona não chegou ao fim. Também não posso dizer se chegámos ao quilómetro 21 ou 32, estamos algures no percurso. Ninguém afirmou que os problemas se resolveriam rapidamente. Naturalmente, considerando os encargos que as pessoas estão a suportar, temos que ter atenção, para que os cidadãos não fiquem pelo caminho. Por isso, actuamos como fiadores, em conjunto com os outros parceiros do Euro, através dos fundos de resgate europeus.

 

 
PP_ Serão tempos de crise, talvez, tempos de reflexão e de mudança?



H.E._ Sem dúvida! Aliás, foi isso que afirmei no início da nossa conversa. Portugal e os portugueses têm que repensar questões de fundo e encontrar novas soluções. A continuação de um sistema económico baseado no crédito, em que foi gasto mais dinheiro do que aquele que foi gerado, não é possível nem sustentável.

E, por último, lembro que o Goethe Institut completa este ano 50 anos de presença em Portugal. Portugal e a Alemanha são países de cultura europeia, algo diferentes, porém, com acentuados interesses mútuos. Estes interesses estão patentes nos cadernos culturais dos jornais portugueses. Como vem de Berlim, lembro que, nos últimos vinte anos, depois da reunificação, Berlim se tornou uma cidade especialmente atraente do ponto de vista cultural, também para os jovens. Estamos sem dúvida no bom caminho.

Termino dizendo aos portugueses que vivem na Alemanha, e que vivem a actualidade portuguesa numa perspectiva dupla, que aqui em Lisboa estamos cientes dos problemas que Portugal atravessa, mas estamos absolutamente optimistas que a situação irá melhorar e que nós podemos dar um bom contributo neste processo.

 

Cristina Dangerfield-Vogt, em Lisboa