Reportagem                                                             Os problemas do mundo bateram-me à porta nas férias do Verão

Pouso o meu saco, estendo a toalha na chaise-longue e olho intrigada aquele monstro de borracha preta que me vai tapar a vista para o ancoradouro, o mar Egeu e a ilha ao fundo, a minha, e só minha, paisagem de todos os Verões ali passados. Alguns cães vadios passam a marcar território.

Algo irritada, desço a escada íngreme e escorregadia do ancoradouro, destruído pela invernia, e refeito rusticamente todos os Verões com pranchas de madeira, e entro naquelas águas serenas como um espelho. A temperatura está agradável, mas ao voltar à superfície, fico rodeada de bolhas transparentes. Garantem-me uns amigos que é das oliveiras à beira-mar enquanto outros afirmam ser as bolhas que faço ao bater com os pés na água. Não me persuadiram.

Depois do duche, seco-me, alongo-me, antecipando o gozo daquela magnífica paisagem com a ilha ao fundo, apesar de o bote lhe cortar um ângulo. A mesma paisagem de todos os anos, há quinze anos. Serena e calma, relaxante e inspiradora. O barco de pesca no ancoradouro baloiça com a pequena ondulação do meio-dia e a suave brisa levanta levemente a bandeira turca. No horizonte a ilha grega parece tão próxima que todos os anos falamos em nadar até lá. Mas é uma ilusão óptica.

Subitamente, ouvem-se passos apressados e eleva-se um burburinho na praia. Levanto-me para ver o que se passa. Do café saem rápido, afunilando na mesma direcção, os mesmos veraneantes de todos os Verões, semblantes preocupados, um deles segurando uns binóculos. Da beira-mar apontam na direcção da baía. O homem do brinco de pérola e binóculos, que é actor de telenovela, diz, “Allah, Allah”, e concentradíssimo, no que só ele vê de perto, revela que acabou de sair um barco com refugiados a uns quilómetros de distância. Vai-se buscar mais binóculos e também os smartphones. “Serão uns cinquenta num insuflável negro” diz uma senhora ainda molhada do mar e binóculos. “Levam coletes salva-vidas”, diz outro. Faço zoom e vejo ao largo um bote que parece soçobrar sob o peso dos seus ocupantes. “Yolları açık olsun. Umarım hayallerine ulaşırlar” dizem uns. O que para nós quer dizer, que os caminhos se lhes abram e encontrem o que sonham. E todos naquela praia participam deste desejo comum.

Seguimos o movimento daquele pequeno bote de coração apertado. É domingo, o mar está ainda relativamente sereno e os passadores aproveitam estes momentos para carregar os refugiados num barco de borracha preta, entregando-lhes o leme nas mãos e yalla “Allah korusun”, que Deus vos proteja. Eles ficam em terra! Não seria bom serem apanhados. A meio caminho, no meio do Egeu, entre países, o bote pára. “Ay Allah, motor calışmıyormus!” Meus Deus, parece que o motor avariou, afirma uma das istambulenses de biquíni de designer. ”Passe-me os binóculos!”.

“Ali vai mais um!” Outro insuflável larga da margem turca. Suspiro geral de alívio quando o primeiro bote continuou viagem. “Já estão quase em águas gregas”, afirma um aldeão que deixara o trabalho na courela para observar a acção com os binóculos e que agora dá ordens rápidas a uns rapazes que por ali andam a trabalhar.

 

Os rapazes saem a correr em direcção ao ancoradouro, soltam a amarra, saltam para o barco, levantam a âncora e partem em direcção da ilha grega no horizonte, com o Crescente e a Estrela sobre a bandeira vermelha flutuando orgulhosamente ao vento. Fico intrigada e a pensar que os turcos da minha aldeia são fantásticos porque vão ajudar os refugiados.

Entretanto, na praia é um alvoroço. Todos estão de pé e seguem preocupados os movimentos dos pequenos botes de borracha, tremendo pela segurança dos refugiados. Se o temperamental vento forte da tarde sopra mais cedo poderão naufragar ou se algum dos navios de grande porte em rota pelo Egeu se aproxima correm perigo de capotar.

O primeiro barco desapareceu no horizonte da ilha e procuraria uma enseada para desembarcar. O que encontraram não sabemos, e o seu destino - perdemos de vista. O segundo avança lento, desacelerado pelo peso. Pelos binóculos distinguem-se os coletes salva-vidas e as pessoas sentadas ombro a ombro na frágil embarcação que mais parece uma fina linha preta. O vento sopra mais forte, a ondulação aumenta e o barco avança penosamente. Na praia todos rezam em silêncio e seguem o movimento do segundo bote na direcção da ilha grega que se avista da praia.

Ao longe ouve-se o barulho de um motor rápido a bater seco com o fundo na ondulação. Entreolhamo-nos desapontados. É a guarda costeira turca que patrulha aqueles mares e detectou o pequeno bote de refugiados. Apesar de eles já estarem muito próximos da Grécia, mas provavelmente ainda em águas comuns, têm de cumprir o seu dever.

Fazem círculos cada vez mais próximos da pequena embarcação. Provavelmente ordenando que regressem à Turquia. Os refugiados não querem e saltam para o mar, nadando em direcção à ilha. A guarda-costeira regressa à costa turca. Não há nada a fazer. Já estariam fora da jurisdição turca e não quereriam reacender a polémica das fronteiras marítimas. O bote vazio fica à deriva.

O barco de pesca turco aproxima-se rápido do bote abandonado. Os rapazes prendem-no com uma corda. Alguém me explica que ele será revendido ao dono por um preço compensatório para ambas as partes. Um negócio que satisfaz muitos interesses e se poderia aceitar como um processo de reciclagem nas rotas dos refugiados.

“Todos os dias partem botes de borracha para o outro lado do mar. Quando as águas estão calmas, partem vários por dia. Vejo-os da minha casa todas as manhãs” – afirma uma istambulense que tem vista livre para a baía. De madrugada, no alto da encosta da montanha mitológica, também eu os distingo dos barcos de pescadores da janela do meu quarto. E nunca comecei o dia com tantas preces fervorosas como neste Verão, no seu pico de movimento de veraneantes e de refugiados.

 

Sírios no Terminal de Autocarros da Vila

Na nossa aldeia não há lojas. Vou às compras na vila mais próxima que é longe. No terminal de autocarros da vila, um grupo de trinta homens, mulheres e crianças de pele mais escura do que os turcos da região estão sentados no chão. Tomei-os por ciganos, yürük, nómadas, ou trabalhadores sazonais do Sudeste da Turquia. Um funcionário da agência dos autocarros diz-me que são sírios e olha-os pacientemente entre sentimentos de incómodo e pena. “Isto acontece muito. Estes estão aqui há várias horas e falam muito e não os compreendo”. Aprender a ler o Alcorão em árabe e decorar os seus versículos não chega para compreender conversas reais.

Vou à çayevi, à casa de chá, no terminal e peço vinte chás para os refugiados. O çayı diz-me que não é fácil tirar tantos çay de uma só vez. Surpreendida, porque normalmente os turcos são bons anfitriões e pensara ser só abrir a torneira do samovar de cobre, rapidamente me apercebo da dificuldade da tarefa. Coloca vinte pequenos copos de vidro em forma de túlipa sobre vinte pratinhos também de vidro num tabuleiro. Vinte colheres de chá do tamanho das de café portuguesas são colocadas nos copos. Dois cubos de açúcar por prato. Os vinte copos são escaldados um a um. Depois é colocado chá até meio copo, em todos os copos. Por fim água quente para abrir o chá. Acabada esta cerimónia o çaycı transporta o tabuleiro numa corrida de equilíbrio para não entornar o chá até ao grupo de refugiados. Explico que o chá é para eles e afiyet olsun, bom apetite, şerefe, saúde. Sorrisos largos e a mão direita a bater leve no peito do lado esquerdo, e um leve inclinar de cabeça em sinal de agradecimento, do coração, percorre o grupo. Shukran, elhamdulillah. Quem diria que um chá ligaria corações!

Sento-me na esplanada da çayevi, peço chás para o meu grupo. O caycı traz-me do seu chá que agora sei apreciar melhor. E quando quero pagar, sorri-me um ikram, oferta da casa. “Allah razı olsun”, que Deus fique satisfeito consigo!

Umas senhoras turcas, de cigarro na mão e segurando num gesto habitual e experiente o pequeno copo de chá em forma de túlipa com três dedos, esclarecem que aqueles sírios vão voltar para os campos de refugiados. Um homem da vila diz que não, que vão para Bursa, Istambul, Izmir, tentar ganhar a vida nas grandes cidades! E, se não conseguirem, yalla, para a Europa das Ilusões, para a Europa da União desunida sobre a política comum para os refugiados.

“Bilhete de Identidade” de Mahmud Darvish

Escreve

Sou árabe

Cabelos…pretos

Olhos…castanhos

Sinais particulares

Na cabeça um keffiah seguro por um cordel

A palma da minha mão rugosa como a rocha

Arranha a mão que aperta

O meu endereço:

Sou duma aldeia perdida, sem defesa

E todos os seus homens estão no campo e na pedreira

Ficarás irritado?

Cristina Dangerfield-Vogt

FOTO: REUTERS