REPORTAGEM: Da “vergonha” dos “bidonvilles” ao retrato da emigração em França

As portas da emigração abriram-se duas vezes na vida de Maria da Conceição Tina Melhorado, que aos seis anos viveu em um bairro de lata dos arredores de Paris e em 2014 voltou a trocar Portugal por terras gaulesas devido à crise.

 

A professora de português e francês, de 56 anos, vive hoje nos arredores da capital francesa, depois de ter regressado a Portugal em 1976 e de se ter tornado, graças a uma fotografia, em um dos rostos da emigração portuguesa dos anos 60.

 

"É a ironia da vida. Eu vim para cá com seis anos e passados 49 anos a minha vida mudou e eu tenho de, como boa portuguesa que sou, pegar a vida pela frente e tentar lutar e vencer", explicou a assistente de educação num liceu em Enghien-les-Bains, nos arredores de Paris, há um ano e meio.

 

A fotografia de uma menina a segurar uma boneca no "bidonville" (bairro de lata) de Saint-Denis, nos anos 60, tem figurado em exposições e livros sobre a emigração portuguesa para França, tendo sido a capa da exposição "Por uma vida melhor" do fotógrafo Gérald Bloncourt no Museu Berardo, em Lisboa, em 2008.

 

Foi graças a essa exposição que a imagem foi replicada em várias páginas na internet, acabando também por ir parar ao olhar de Maria da Conceição.

 

"Eu reconheci-me logo. Digo assim: ?Ai meu Deus que vergonha!' É verdade, senti vergonha daquela lama e era uma fase da minha vida que estava guardada numa gaveta e que eu não abria", recordou à Lusa Maria da Conceição, sublinhando que os filhos e o marido sabiam que ela tinha estado "nos bidonvilles", assim como os conterrâneos de Foz Coa porque lá "toda a gente tem alguém que tenha estado nos bidonvilles".

 

Maria foi a quinta pessoa a reconhecer-se no arquivo de mais de 200 mil imagens do repórter haitiano a viver em França Gérald Bloncourt, o qual retratou vários "bidonvilles" dos arredores de Paris e foi contactado, 47 anos depois, pela menina que outrora fotografara.

 

"Quando ela chegou, tive diante de mim meio século de memórias. Vi a minha pequena Maria que estava ali. Fiquei muito maravilhado porque ela não tinha mudado. O seu olhar era o mesmo que na fotografia de criança e o seu sorriso também. Abraçámo-nos, chorámos, foi muito emocionante e reencontrei a Maria que agora faz parte da minha família e eu da família dela", contou o fotógrafo à Lusa.

 

Passaram 51 anos desde que Maria da Conceição viveu a chamada viagem "a salto", um trajeto clandestino para deixar Portugal rumo a França que custou, inicialmente, "dez contos de reis" pela passagem da mãe "e cinco contos" pela de cada filho. Porém, à chegada à fronteira espanhola, o passador ameaçou abandonar o grupo de "cerca de 70 pessoas" se não pagassem ainda mais dinheiro.

 

"A única solução era mandar alguém ir ter novamente com a minha avó e a minha avó conseguir mais esse dinheiro. Para provar que realmente era a minha mãe que pedia esse dinheiro, [ela] mandou-lhe a aliança que a minha avó conheceria", recordou.

 

Em Paris, apanhado de surpresa pela chegada da família, o pai de Maria contou com a solidariedade de outros portugueses para construir uma barraca num bairro de lata de Saint-Denis, nos arredores da capital, onde a sua família ficou dois anos até conseguir um apartamento em Aubervilliers.

 

"Aquilo era pequeníssimo. Era um quadrado que era dividido em quatro, no fundo", descreveu, precisando que na rua é que se encontrava a casa de banho comum mas recordando que foi uma "criança feliz".

 

"Do lado esquerdo [havia] a cozinha com a mesa onde a minha mãe tinha um fogão, uma bacia para lavar a louça e depois, por baixo, uma bacia maior que era onde lavava a roupa e tomávamos banho. Depois tinha uma porta que dava, do lado esquerdo, para o meu quarto e, do lado direito, para outro quarto que era o da minha mãe e do meu pai", lembrou.

 

Maria da Conceição Tina Melhorado está a preparar uma edição em francês do livro "A Menina da Boneca - Emigração dos anos 60" no qual conta algumas das aventuras da viagem clandestina até França, da vida nos bairros de lata nos arredores da capital francesa e do encontro com o fotógrafo que a transformou num dos rostos da emigração dos anos 60. No fundo, resumiu, "um documento sobre a emigração sem floreados".

 

Carina Branco, da agência Lusa