“Fado? Que horror!”

Ivo Guedes
Ivo Guedes

Hoje, Ivo Guedes ri-se desta sua exclamação, quando, há muitos anos, foi desafiado a tocar guitarra portuguesa para o conjunto de fado “Gerações”, fundado por portugueses na Alemanha. Tal como a grande maioria dos jovens, era o rock que o inspirava.

Em casa, revirava os olhos e fechava a porta do quarto quando a mãe, grande amadora de fado, punha o gira-discos a tocar.
Ivo tinha onze anos quando chegou a Dortmund com a família. Uma idade em que já não é fácil largar ao amigos, escola e todo o ambiente familiar da sua cidade natal, o Porto. O guitarrista reconhece que teve algumas dificuldades em adaptar-se, sobretudo por estranhar a língua. A sua história podia ter acabado mal: sem escola, sem profissão e sem rumo, como não raras vezes acontece em circunstâncias semelhantes.



Mas, tal como mais tarde, quando o desafiaram para tocar uma música que, pensava, também lhe era estranha e desconhecida, Ivo Guedes decidiu-se a conquistar todas as dificuldades, terminando a escola e aprendendo a profissão de técnico de calefacção. À pergunta, até que ponto a música serviu de amparo e constante para superar os obstáculos na vida, Ivo não responde directamente. Há coisas de foro demasiado pessoal que este jovem de 32 anos, só à primeira vista extrovertido, não partilha com qualquer um. Mas a resposta fica dada ainda assim, quando conta que começou a tocar órgão electrónico aos 15 anos, num processo autodidacta moroso e inventado por ele: “Numerava as teclas e identificava os sons por ouvido, acabando por aprender as melodias pelos números”.



Em Unna formava-se, entretanto, a banda Conquistadores, precursora dos Sina Nossa, hoje talvez o grupo português de maior sucesso na Alemanha. Ivo Guedes foi convidado a participar. No dia em que os Conquistadores se viram sem guitarrista, agarrou a oportunidade e na guitarra eléctrica, paixão antiga despertada por músicos como Slash, do conjunto de hard rock Guns N'Roses. Dali à guitarra acústica foi um passo relativamente pequeno, diz. Embora, nessa altura, o fado ainda não tivesse papel relevante na sua vida: “Comecei por uma brincadeira”, diz o Ivo, contando o episódio Gerações, um conjunto que ele mesmo acabou por manter durante anos e até hoje, à medida que foram entrando e saindo outros membros. “Ocorreu-me que talvez tocar fado fosse diferente de ouvi-lo”, diz agora, quando a guitarra portuguesa se tornou já parte integrante da sua vida. Embora começasse por acompanhar fadistas com uma viola, o instrumento que então possuía. A vez da guitarra portuguesa só chegou, quando recebeu uma de oferta do fundador do conjunto, Ciro da Silva.



Mais uma vez, Ivo Guedes aceitou o desafio e partiu à descoberta de um mundo desconhecido. Os seus professores de guitarra portuguesa foram programas de fado na RTP, gravações e CDs. O autodidacta mantém que, dadas as suas influências alemãs e por causa da distância de Portugal, o fado que sai da sua guitarra tem um som diferente daquele que se toca em Lisboa.



Quando lhe perguntam pelas suas composições, é com modéstia característica que responde, e minimiza o seu contributo para bandas como o Sina Nossa. Apenas para ser imediatamente contrariado por um outro elemento desse conjunto, Armindo Ribeiro, que realça trechos da autoria do guitarrista, como “Naufrágio” e “Amor perdido”. Armindo Ribeiro, que não poupa elogios à musicalidade e criatividade de Ivo Guedes, não tem dúvida: “É um bom profissional e com a ambição de evoluir sempre”.



A aprendizagem autónoma, que se estendeu à composição, foi talvez um factor determinante para a grande versatilidade que caracteriza a execução. O que permite a Ivo Guedes tocar em inúmeros conjuntos de orientação diversa e faz dele um acompanhante muito solicitado por artistas de várias proveniências e géneros. Uma média de dez noites de espectáculos por mês, para além das gravações, fala por si.



De “horror”, o fado passou a estar entranhado na sua música e na sua vida. Serviu-lhe de inspiração a renascença e reformulação do género em Portugal pelas novas gerações de fadistas. Para Ivo Guedes, o fado é um processo de permanente descoberta e aperfeiçoamento. Por isso, acha, ainda tem muito para aprender. Mas com o que já sabe, conseguiu ganhar o respeito de artistas como Telmo Pires: “O Ivo tem tudo o que caracteriza um excelente músico. Tudo o que faz é sempre feito pela música, é ela que está em primeiro lugar. O Ivo traz música no coração e fado na alma."



É este empenho profundo mas sem alarido que lhe tem valido numerosos convites para gravações e espectáculos na Alemanha e nos países vizinhos. Aliás, se alguma queixa sai da boca do guitarrista, é que se “faz muito mais pela música na França e na Holanda, do que na Alemanha”, onde só uma minoria se interessa por algo tão exótico como música portuguesa. Mas Ivo Guedes não desanima. O passo para a profissionalização completa já esteve mais longe, embora admita que largar o emprego para viver só da música implique renunciar a um certo nível de vida a que se habituou. Mas é um passo que hoje lhe parece inevitável, se quiser continuar a desenvolver a sua arte. Para já, continuará a divulgá-la na Alemanha. Em Novembro acompanhará Ana Laíns, durante a digressão da fadista portuguesa neste país. Mais uma vez com modéstia, Ivo conta que conheceu Ana Laíns no Luxemburgo.

 
Entenderam-se bem e ela terá apreciado as suas qualidades germânicas como “pontualidade e sentido de responsabilidade”. Talvez essas qualidades tenham jogado um papel no convite para a digressão. Mas não terão sido decerto a única razão. Para citar o músico Armindo Ribeiro, que trabalha com Ivo Guedes há mais de uma dúzia de anos: “Deve ser o melhor guitarrista desta segunda geração emigrante, pelo menos que eu conheça, na Alemanha”.

 

Cristina Krippahl