Actriz de "A gaiola dourada"

Emigrantes em França “souberam desenrascar-se sem o Estado”

Os emigrantes portugueses em França “souberam sempre desenrascar-se sem o Estado”, que mantém com eles uma relação baseada num “mal-entendido”, lamenta Jacqueline Corado, atriz do filme “A gaiola dourada”.

O filme do lusodescendente Ruben Alves, um sucesso de bilheteira em França e Portugal, retrata, com humor, a comunidade portuguesa emigrada em França.

“Acho que há um grande mal-entendido entre o Estado português e os emigrantes, é que há anos e anos os emigrantes lá fora conseguem [o que querem] sem ter o mínimo apoio do Estado português”, destaca a atriz luso-francesa.

Há “milionários” entre a diáspora, aponta, sentenciando: “Eles não precisaram do Governo português para nada, a única coisa que querem é que Portugal reconheça os filhos.” Porém, “Portugal rejeita-os”, por “ciúme” ou outra razão qualquer.

“A diáspora traz dinheiro para Portugal”, não vem pedir, ressalva a atriz, recorrendo a uma metáfora. Portugal é como uma mãe que, em dado momento, se viu obrigada a deixar os filhos partir, porque não tinha como os alimentar. “Os filhos deixaram a mãe e foram para outro país e, noutro pais, sem a mãe, conseguiram [os objetivos], muitos conseguiram muito, muito bem”, elogia.

Quando regressam para ver a mãe – dizendo “olha, tu não tinhas dinheiro para me pagar sapatos ou para me dar de comer, mas eu agora tenho uns sapatos brutais, como bem todos os dias, tenho muita carne, e trago-te tudo, olha as prendas todas que eu te trago” –, ela “vira-lhes as costas”, em vez de ficar feliz por eles, ilustra Jacqueline Corado.

Essa é a "dor dos emigrantes”, não a falta de apoio do Estado, que "nunca houve”, mas de uma mãe que os abrace, dê “um miminho” e que os reconheça como filhos.

Os sucessos dos portugueses lá fora “podiam ser uma bênção para Portugal”, se o país soubesse utilizar a sua “energia positiva”, como “uma força viva”, à semelhança do que fazem China e Índia, compara a atriz. “Por que é que Portugal tem vergonha dos emigrantes? Será que os emigrantes mostram a Portugal que foi um país pobre e continua a ser um país pobre?”, questiona.

O filme de Ruben Alves representa a realidade, “sem amarguras nem reivindicações”, diz, reconhecendo que, “tanto em França como em Portugal”, a comunidade portuguesa é vista de forma estereotipada.

A atriz ainda recorda uma infância em que escondia o nome de batismo quando voltava de férias a Portugal. “Dizia que me chamava Isabel, Maria, Cristina, porque se dissesse Jacqueline tinha imediatamente um selo, pelos miúdos portugueses, de ‘franciú’ e isto e aquilo”, conta.

Já em França, era a melhor aluna a matemática, mas o Silva (que não usa como nome artístico, mas é o último apelido) empurrou-a para “as piores turmas”. E havia racismo na escola, que chegou a proibir os professores que “davam aulas gratuitamente aos filhos de emigrantes menos capacitados” de o continuarem a fazer, porque, passado meio ano, eles tinham começado a ter boas notas, lembra.

Jacqueline diz que não duvida, porém, de que já houve mais preconceitos. “A imagem da França em relação aos emigrantes portugueses foi pior do que é hoje, muito pior. Aliás, os novos emigrantes que estão agora a chegar a França estão a beneficiar imenso da fama positiva que desenvolveram as primeiras vagas de imigração”, vinca.

Entre os novos emigrantes, continuam a chegar muitos “sem qualquer qualificação” e não apenas pessoas com estudos superiores, realça a atriz.

Por outro lado, se muitos dos que chegam agarram o primeiro emprego que lhes aparece, como porteiras ou pedreiros, já “não é uma exceção” ver nomes portugueses em cargos de chefia em empresas, por exemplo. “Em Portugal há um desconhecimento, absoluto e total, da posição dos portugueses filhos de emigrantes em França”, critica a atriz, formada em Finanças e com um MBA (mestrado em administração de empresas).

Os emigrantes em França “não se reconhecem no que os portugueses dizem sobre eles, não se identificam com a primeira geração, não têm qualquer vergonha de ser portugueses, mas também não o reivindicam”, e estão “perfeitamente integrados” na comunidade, descreve a mãe de um filho “com bilhete de identidade português”, mas educado à francesa.