"Alemanha ensanguentada" de Aquilino regressa às livrarias 80 anos após a 1.ª edição

Uma nova edição da obra "Alemanha ensanguentada", de Aquilino Ribeiro, originalmente publicada há 80 anos, é apresentada pelo escritor Pedro Mexia, que assina o prefácio, na quarta-feira, no Goethe-Institut, em Lisboa.

 

A obra é o diário de uma viagem realizada por Aquilino, na década de 1920, após a I Grande Guerra, à Alemanha, país pelo qual o escritor tinha "apego", por ser uma "nação de inquestionável grandeza material, intelectual e anímica", como escreve Mexia no prefácio, recordando que Aquilino se casou em 1913 com uma alemã, Grete Tiedemann, que conhecera na Universidade Sorbonne, em Paris.

Numa carta dirigida a Francisco Pulido Valente, datada de 1935, quando publicou a obra, e que acompanha a nova edição, Aquilino Ribeiro afirma, que há nela o "propósito de esclarecer o fenómeno estupendo da Alemanha hitleriana".

"A Alemanha que perpassa nestas páginas fui surpreendê-la no momento mais trágico e porventura singular da sua história: ao sair da guerra, rota, faminta, desiludida de Deus e de César, heroica, sempre", escreve na missiva dirigida a Pulido Valente.

 

Considera Aquilino Ribeiro que o Tratado de Paz de Versalhes, assinado pelos países beligerantes, entre eles Portugal, após o conflito de 1914-18, foi "a ‘cilindração’ de um povo, valentona e com meticulosidade de chinesa, como se faz brita das estradas", e alerta para o crescimento do nacionalismo, fortemente aproveitado por Adolfo Hitler, já na década de 1930.

Aquilino Ribeiro descreve, na década de 1920, uma Alemanha "exangue, sem fôlego, governada por fantasmas", que "só um cego a não veria a tomar-se daquela febre que devia conduzir Hitler e ao estado de exaltação patriótica que apavora o mundo".

 

Acrescenta o autor, que, em 1935, quando publicou pela primeira vez este caderno de viagem, a Alemanha, "enferma e revoltando-se no desespero", erguia "a espada com o trémulo e sensual regozijo duma tribo de hunos, chamada às armas".

A II Grande Guerra iniciou-se quatro anos depois, quando as tropas alemãs invadiram a Polónia, mas Aquilino lamenta já, nesta missiva a Pulido Valente, os "autos-de-fé que reduziram a cinzas livros menos ortodoxos" e "o êxodo dos sábios e escritores que não comungavam no credo novo", o nazismo, o que, no seu entender, correspondem aos "piores atentados contra a inteligência".

 

Para Pedro Mexia, esta obra "desfaz duas imagens habituais: a de um Aquilino Ribeiro estritamente 'regionalista' e a do 'germanófilo' enquanto fascista", e argumenta Mexia que a germanofilia do autor de "Quando os lobos uivam" não é um "fascínio bélico ou imperial" e este caderno de viagem demonstra antes o "apego" sentimental pela Alemanha - é "um modelo de cosmopolitismo, ou seja, de compreensão de uma outra cultura, de uma outra circunstância".

Pedro Mexia destaca que "a viagem [de Aquilino] se confunde com a reportagem, porque cada encontro é um diagnóstico, cada conversa uma entrevista, cada descrição um instantâneo fotográfico".

 

A obra "Alemanha ensanguentada" é apresentada por Pedro Mexia, na quarta-feira, às 18:30, na biblioteca do Goethe-Institut, em Lisboa, ao Campo dos Mártires da Pátria, numa sessão que conta com a presença do neto do escritor Aquilino Machado.

 

Lusa