Ich bin Gastarbeiter

Estou a olhar para uma fotografia enquanto escrevo isto. A imagem, de 1973, mostra seis homens em roupa interior, alinhados numa fila. Em frente a um deles está um médico a fazer uma palpação abdominal enquanto lhe baixa as cuecas. Os homens são turcos, o médico alemão.

 

Na década de 60 e 70 a Alemanha enviou médicos para a Turquia, Portugal, Espanha, Itália para seleccionar homens e mulheres candidatos à emigração. A fotografia recebe-nos à entrada da Haus der Geschichte em Bona (Museu de História alemã) e é o passaporte para uma exposição sobre um tema actual e controverso na Alemanha.

 

O discurso político alemão desliza, de alguns meses para cá, para o plano dos valores. Patriotismo, identidade nacional, “Leitkultur”, são discutidos, dissecados, nas páginas dos jornais e na televisão, nos cafés, à esquerda e à direita. Angústia face à vulnerabilidade das sociedades ocidentais às ameaças sem precedentes colocadas pelo terrorismo islâmico? Medo das “células adormecidas” que os serviços secretos dizem existir no país ou dos salafistas? Receio dos refugiados que têm chegado às centenas de milhar? Sejam quais forem as razões é palpável uma radicalização e não apenas ao nível das palavras.

 

A mais recente onda de choque foi causada pelo movimento de extrema-direita PEGIDA ( Patriotas Europeus contra a Islamização do Ocidente) que tem reunido milhares de pessoas em manifestações contra emigrantes e refugiados e pelo incêndio de um abrigo de refugiados (ainda não em funcionamento) em Nuremberga. Os alemães acreditam que esta gentinha está mais ou menos controlada e que bastam umas contra-manifestações ou vigílias bem intencionadas de organizações dos direitos humanos, de igrejas e cidadãos para os deter. Alguns pensam mesmo que a extrema-direita (e os radicalismos islâmicos) é um mero exibicionismo sem motivos para preocupação ou um jogo de ilusionismo ideológico. Não é.?Uma das últimas reportagens que realizei como jornalista foi uma manifestação da extrema-direita (onde estavam presentes quadros com as caricaturas de Maomé, embora veladas por ordem do tribunal). Mais do que todo o aparato policial – unidades anti-terroristas, helicópteros, canhões de água, unidades caninas, barreiras de betão – o que me perturbou profundamente foi ver velhinhas que podiam ser minhas vizinhas, mulheres e homens absolutamente normais, sem tatuagens, botas cardadas ou cabeça rapada.

 

Existem duas maneiras de contar a história da imigração na Alemanha: usando os números ou as palavras para expressar sentimentos. Seja qual for a opção o resultado é o mesmo: mixed feelings. Um monte de contradições.

 

Apesar da emigração para a Alemanha se ter iniciado há mais de meio século, e da Alemanha ser o país europeu com maior número de imigrantes e refugiados, só em 2005 teve a primeira de Lei de Imigração (e só com coligação SPD-Verdes se alterou o direito de sangue para direito de solo, facilitando a obtenção da nacionalidade por estrangeiros). A isto se soma uma desconfiança particular face à comunidade turca e aos muçulmanos em geral e a dificuldade em aceitar que os “Gastarbeiter”, os “trabalhadores convidados” (uma palavra que me causa calafrios) se radicaram no país, tornando-o um país de “imigração”. Vinte por cento dos homens e mulheres que vivem na Alemanha têm origem estrangeira, mas foi preciso o Mundial de 2006 para que houvesse uma mudança de paradigma do Wir (nós) – Ihr (vocês) para o Ihr sind Wir (vocês são nós). Mudança incompleta no entanto.

 

Sinal inequívoco desta preocupação transversal na sociedade germânica é a proposta recente dos democratas-cristãos da Baviera (CSU) que os estrangeiros residentes na Alemanha falassem em casa apenas alemão (como se fosse possível aplicar tal medida ou fiscalizá-la). Dando mostras de vicejante bom senso a opinião publicada e os cartoonistas reduziram-na àquilo que é: ridícula.

 

O real défice europeu e alemão não é o financeiro. É o humano. Por vezes o de humanidade.

 

A exposição em Bona sobre a história da Emigração na Alemanha acaba com uma escultura feita de destroços de navios que transportavam africanos para Lampedusa. A realidade da qual se foge no século XXI é muito mais brutal. A história não chegou ao fim. Quer os alemães queiram ou não.

 

Helena Ferro de Gouveia