Nathalie de Oliveira, a mulher que abraçou a política francesa por ser “filha do salto”

A socialista luso-descendente Nathalie de Oliveira concorre nas eleições regionais francesas de 22 e 29 de março, reivindicando ser "uma mulher política por ser portuguesa da emigração e por ser filha do salto".

"Portugal tem uma história tão singular e única no mundo, com seis milhões e tantos mais fora. Isso despertou-me, à medida que fui avançando na minha vida profissional e em algumas reuniões políticas, ajudou a afirmar-me como política desde a primeira eleição", contou à Lusa, acrescentando que os portugueses a têm ajudado também nesta campanha eleitoral.

Aos 37 anos, a vereadora socialista na Câmara Municipal de Metz, no nordeste de França, candidata-se ao lugar de conselheira no departamento de Moselle pelo cantão Le Pays Messin.

Nathalie de Oliveira está confiante que vai chegar à segunda volta e até que vai "ganhar uma batalha impossível" apesar dos "avisos pessimistas" a anunciarem uma derrota previsível, os mesmos que diz ter ouvido durante as eleições autárquicas de 2008.

"Em março de 2008 foi a primeira vez que a cidade de Metz, em mais de 220 anos de sufrágio, foi socialista, porque estou em terras democratas-cristãs. Depois de um ano e meio a militar pelo PS, conquistámos a câmara com um homem que já tinha tido 28 anos de oposição e uma história enorme de militância política. A novidade, passados 18 anos, é que estou a fazer campanha no meu nome", descreveu.

Depois de um curso de Relações Internacionais em Metz, e de uma pós-graduação em Direito Internacional Público na Universidade da Sorbonne, Nathalie de Oliveira trabalhou para as instituições europeias. Há oito anos anima uma secção do Partido Socialista português em Metz e continua a fazer assessoria política para o Partido Socialista Europeu, paralelamente à atividade camarária.

A vereadora nasceu em Metz a 16 de Novembro de 1977, "no mesmo dia do nascimento de José Saramago», fala um português fluente com sotaque de Celorico de Basto - de onde os pais emigraram em 1969 e 1977 - e considera que a ligação a Portugal "é por amor", lembrando a sua "filiação com Miguel Torga, com Manuel Alegre, com Fernando Pessoa e com Camões" e, claro, a história do pai, "um homem do salto".

"O meu pai viveu aquela história do salto. Ainda não conheço exatamente a história por inteiro porque de certeza que a viagem tocou na própria dignidade e ele não conta. Foi um momento, de certeza, dramático. Há zonas sombrias que ele nunca contou", relembrou, acrescentando que o pai chegou a Nantes, passou por Paris e só depois foi parar a Metz, onde "teve de mentir e dizer que tinha 18 anos para começar a trabalhar".

A história do viagem clandestina do pai de Portugal até França, em 1969, está ligada à militância de Nathalie de Oliveira que vê "o povo português como um dos mais europeus antes da hora, mais europeu do que qualquer outro povo da Europa" porque "quem anda a viver num país e noutro e a dar a um país e a outro são eles".

Herdeira de um passado recente de emigração, manifesta-se "preocupada" com a popularidade do partido de extrema-direita Frente Naciona (FN), que, na sua opinião, "está completamente fora dos valores republicanos", defendendo que "o rosto de França é o de Marianne [símbolo da República] e não o de Marine Le Pen [líder da FN]".

Comentando uma frase que ouviu durante a campanha segundo a qual "os franceses é que estão a sofrer com a imigração", Nathalie de Oliveira sublinha que "nunca houve tão poucos imigrantes desde o início dos anos 2000 e 2010" e que está a acompanhar várias famílias portuguesas desde a crise do euro, que se não trabalharem "também não têm fundo de desemprego".

Quanto ao descontentamento da população contra o governo do Partido Socialista, Nathalie de Oliveira explica que "a vitória de 2012 de François Hollande tocou imenso e levava muita esperança", mas houve "dificuldades da realidade económica e talvez alguns erros", admitindo que "nenhum governo é ideal".

"Essa vontade de castigar quem governa já é muito antiga. Não é uma coisa que tem de ser relacionada de forma estreita com a governação do Partido Socialista neste momento. Aliás, acredito que François Hollande, depois das eleições, possa nomear outras pessoas que não sejam socialistas para o governo", concluiu.

 

CAYB // APN

 

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