Entrevista:                                                                    ISLÃO NA EUROPA: CONFLITO OU DIÁLOGO PELA PAZ?

Nas sociedades ocidentais muitos muçulmanos sentem-se condenados à partida pelo facto de serem muçulmanos. É-lhes exigido que se distanciem publicamente do terrorismo quando os autores são muçulmanos, embora não se exija o mesmo das outras comunidades religiosas em situações idênticas. E muitas vezes sentem-se tratados injustamente pelos Media.

Poder-se-ia perguntar porque é que um crime familiar passa a crime de “honra” quando os seus actores são muçulmanos ou questionar o facto de os terroristas não-muçulmanos serem apenas designados por terroristas, veja-se os casos de Breivik, na Noruega, dos Budistas que perseguem e assassinam muçulmanos em Myanmar, dos americanos que assassinam outros americanos por eles serem muçulmanos nos EUA, do Ku Klux Klan, da NSU, e muitos outros, enquanto a essa designação, neutral em termos de identidade religiosa, se acrescenta islamista quando os terroristas são muçulmanos. Esta discrepância de bitolas, este “Um peso, Duas medidas” leva a que os muçulmanos se sintam discriminados nas sociedades ocidentais onde nasceram ou escolheram viver. E não é por uma pequena minoria de muçulmanos, delinquentes e terroristas, usurparem a religião para justificar os seus fins criminosos, que podemos condenar toda uma comunidade religiosa, que é ela própria também vítima daquilo que designamos por “terrorismo islamista”.

Mas, afinal, a questão fulcral talvez seja: O diálogo entre as religiões e as culturas é possível? Ou teremos que aceitar como inevitável o conflito entre as culturas e as religiões?

Neste contexto polémico e de muitas tensões, o Portugal Post foi falar com o Imam Kadir Sanci e com Berrin Ileri, presidente do FID, (Fórum para o Diálogo Intercultural), uma associação cujo objectivo é promover o diálogo entre as religiões e as culturas. Na homepage do FID, lê-se uma condenação explícita dos atentados ocorridos em Janeiro deste ano publicada desde a primeira hora.

 

Tanto Kadir Sanci como Berrin Ileri empenham-se em criar condições para uma cultura do diálogo intercultural em Berlim. Deste incansável dialogar surgiu o projecto “The House of One”, um edifício que irá albergar os lugares de culto das três religiões do Livro e ainda uma sala comum, ponto de encontro dos visitantes, no que será também um espaço cultural e de convívio.

Com Kadir Sanci e Berrin Ileri, ambos cidadãos alemães, falámos de várias questões interessantes ligadas ao seu devir como muçulmanos a viver na sociedade ocidental. E, sobretudo, eles perspectivaram a questão do Islão no seio de uma “Leitkultur”, ou sociedade maioritariamente não muçulmana, debruçando-se ainda sobre a questão de os princípios constantes do Alcorão serem ou não compatíveis com a democracia.

 

Christina Dangerfield-Vogt – Berrin Ileri, o que a levou a interceder directamente pelo diálogo intercultural na sociedade, pela aceitação do “outro”, pela tolerância entre as pessoas?

Berrin Ileri -Vamos começar pela dimensão global. Eu digo sempre que neste século se vai decidir se a teoria do conflito das civilizações se vai concretizar ou não e que é neste século que se vai decidir se irá haver paz ou conflito entre as civilizações. E, para podermos participar na decisão sobre o nosso futuro, para influenciarmos a decisão sobre paz ou conflito, há três possibilidades: Ou se trabalha para o conflito entre as civilizações; ou não se faz nada, o que significaria fortalecer o conflito; ou tentamos fazer algo pela paz entre as civilizações! E eu decidi lutar pela paz entre as civilizações e por isso trabalho para o diálogo.

 

CD-V - Como foi para si sair da sua esfera privada como muçulmana óbvia já que coloca o véu islâmico?

BI - Quando se toma essa decisão sabemos que vamos estar expostos em todos os sentidos e que as reacções podem vir de todos os lados. Mas como actuo com a convicção de que a minha escolha é correcta, estou preparada para eventuais ataques. Com o passar do tempo vê-se os frutos do diálogo. E quando se vê isto, o resto é irrelevante. E a motivação principal é religiosa, porque sei que a Allah agradará o que faço.

 

CD-V - A responsabilidade e o empenhamento sociais são deveres do Islão? E, isto, também para as mulheres? São permitidos estes passos fora do lar?

BI - Do ponto de vista pessoal, como eu entendo a minha religião, e como a têm compreendido os eruditos islâmicos, ou os seus “teólogos”, e de acordo com os ensinamentos do Profeta (a Paz esteja com Ele), é, sem qualquer dúvida, um dever muito importante.

 

CD-V – Será possível conhecer melhor “o outro” através da Educação? Se não estou enganada, este é um dos pilares do Movimento Izmet em que está inserida a sua actividade.

BI - As pessoas têm medo do que é diferente mas quando conhecem o “outro”, o estranho, apercebem-se que afinal não há que ter medo. Aquilo de que se tem medo por se sentir que é “estranho” ou “estrangeiro”, no sentido do que é diferente, desconhecido, pode ser ultrapassado através de um melhor conhecimento do “outro”. Há a expressão alemã “Wissen-schaft-vertrauen” – Wissenschaft- vertrauen, que traduz isto muito bem, e é, por isso, que é importante conhecer o outro. E os pequenos passos nesse sentido levam a passos sempre maiores. Nós as duas conhecemo-nos! Conheço os meus vizinhos! E, assim, sucessivamente, desenvolve-se projectos maiores – portanto temos aqui uma boa base de trabalho!

 

CD-V - Disse-me que tinha vivido na Turquia, em Bursa, e que quando veio para a Alemanha estudar engenharia electrotécnica se admirou de ter tão poucas colegas mulheres. Teria sido diferente na Turquia, um país maioritariamente muçulmano?

BI – Na Turquia, tive como disciplinas nucleares no liceu, Matemática e Física e na minha aula havia metade rapazes metade raparigas. Na Turquia isto era normal. Tenho primas que são professoras de matemática, ou que estudaram matemática ou engenharia na Turquia. O que é interessante é que muitos pais incentivavam as filhas a prosseguir estudos na área científica. Provavelmente, e também, porque os pais não viam futuro em cursos da área das humanidades. Quanto entrei para a TU, e me sentei nas, perguntei-me onde estariam as mulheres. Enfim, não esperava isto na Alemanha. Também me surpreendeu a mentalidade de concorrência extrema no curso.

 

CD-V – Foi difícil encontrar emprego, como muçulmana óbvia, portadora do véu?

BI - Não tive problemas no mercado de trabalho porque na altura não cobria a cabeça e nesse tempo a situação económica era muito boa. Como finalistas tivemos inúmeras ofertas de emprego. Só mais tarde decidi colocar o véu.

 

CD-V - Qual foi a reacção dos seus colegas, do seu chefe, da empresa quando pôs o véu?

BI - Já tinha começado a usar o lenço fora do emprego e sentia-me desconfortável, fingida mesmo, e por isso decidi falar com o meu chefe antes de tomar a decisão de me cobrir também no escritório. Os meus colegas e o meu chefe sabiam que eu era religiosa, que rezava cinco vezes por dia, que jejuava no Ramadão e, portanto, isto não foi uma surpresa. O meu chefe era ateísta e disse-me “para mim, é igual como vens vestida, até podias vir de biquíni!”.

 

CD-V - Mas isso aconteceu porque não era uma estranha para ele. Não acha?

BI - E também porque ele estava satisfeito com o meu trabalho e, sim, não era uma estranha. “Mas uma coisa quero...”, disse-me, “quero continuar a ver a tua cara!”

Os meus colegas ficaram surpreendidos, um até me disse, “Olá, hoje estás diferente, mas fica-te bem!” Voltando ao início, o que é diferente faz medo, o que se conhece, não.

 

CD-V - Depois do atentado contra o Charlie Hebdo em Paris, aumentou o medo da islamização da Europa. Mas se olharmos para as estatísticas, entre o medo sentido e a realidade, a discrepância é considerável. O “perigo real” é, segundo os números, mínimo.

 Na sua opinião, Kadir Sanci, porque é que as pessoas reagem com tanto medo? E porque é que os Media alimentam este medo?

Kadir Sanci – Os portugueses e os espanhóis têm outra vivência histórica. Em Portugal e em Espanha há uma história comum ao longo de alguns séculos entre o Islão, o Judaísmo e o Cristianismo. Na Europa Central quase não houve contacto com o Islão até muito recentemente e as pessoas têm medo. Comparados com Portugal e Espanha temos pouca experiência. Em outras sociedades, como por exemplo em Istambul, havia contacto com a diversidade cultural e religiosa. As pessoas aprenderam a viver com a diversidade.

Mas aqui ainda se está no início de um processo de aprendizagem. É importante realçar que os muçulmanos não se aperceberam durante muito tempo que precisamos deste “miteinander” (vivência comum) na Alemanha, na Europa, e por outro lado a “Mehrheit Gesellschaft” (a sociedade maioritária) não se apercebeu que queríamos e devíamos ficar aqui e que, entretanto, passaríamos a fazer parte da Alemanha.

Os alemães não se interessavam pelo diálogo e nós também não. Vivíamos lado a lado, sem comunicar, e, assim, com o passar do tempo, foram-se desenvolvendo preconceitos e os últimos eventos alimentaram esta falta de comunicação. Por isso é preciso ter gente com coragem e motivada como a Berrin Ileri. Pessoas que dizem a si próprias que, seja qual for a reacção, “seja eu atacada ou não por ser muçulmana, vou empenhar-me no diálogo e construir pontes entre as pessoas”.

 

CD-V - E trata-se de integração ou este conceito está ultrapassado?

KS - Para mim, integração é deixar à sociedade algo útil de si próprio, contribuir de alguma forma, e não prejudicar a sociedade. Se prescindirmos do véu muçulmano, se procurarmos uniformizar a sociedade, falamos de assimilação e não de integração. Tentar construir uma sociedade monocultural não é bom. A diversidade, em si, é um enriquecimento. Integração deixou de ser tema para mim porque isso já é o passado.

BI - Também não gosto da palavra integração, mas como é muito utilizada, uso-a para dizer que eu estou integrada. Para mim a palavra importante é – “Participação”. Este sentimento de pertencer à sociedade, isto é que é importante. Integração é mais uma palavra da informática.

 

CD-V - Sobre a “histeria” europeia de alguns relativamente à islamização do continente já falámos. Mas não pensa que, actualmente, há razão para ter medo?

BI - Não quero deixar de dizer que a culpa não está só de um lado!...Há razões para as pessoas terem medo. Eu própria quando vi o que se passou em França, ou quando penso no Boko-Haram, no Al-Shabab, no Isis, etc. também tenho medo. Como podem estas pessoas fazer o que fazem? E nem lhes quero chamar pessoas, quando assassinam brutalmente outras, seja qual for a razão. É compreensível que as pessoas tenham medo quando vêem estas imagens. Por isso é precisar contribuir mais e mais para o diálogo, para o conhecimento do “outro” para que mesmo quando se vê estas imagens não se tenha medo, porque estas imagens fazem medo. Quando oiço o que se passa na Nigéria, na Síria, quando as pessoas são decapitadas, é tão horrível e chocante que é normal ter medo. Por isso penso que temos de manter o equilíbrio. Há motivos para ter medo. Mas o medo não deve ser instrumentalizado para criar slogans racistas e alimentar o racismo.

 

CD-V - Quando falamos de terrorismo, sobre o Boko Haram, sobre os atentados de Paris, ou do Paquistão, em que foram mortos dezenas de alunos de uma escola – estas pessoas fundamentam os seus actos no Alcorão. Estamos perante indivíduos extremamente religiosos ou muito simplesmente perante criminosos?

KS - Se eles seguem uma vida de prática religiosa, não lhe posso dizer porque nunca tive contacto com eles. Também tenho curiosidade e pergunto-me sempre isso a mim próprio. Mas o que notei é que, em geral, não são as pessoas que vêm de famílias religiosas ou que tenham tido educação religiosa, e que teriam sensibilidade relativamente à oração, que cometem estes actos, porque estas não são tão permeáveis àqueles perigos. Mais me parecem ser pessoas que são permeáveis por não se sentirem confortáveis na nossa sociedade, pessoas que têm problemas sociológicos, psicológicos e pedagógicos. Tenho a certeza que se pudéssemos fazer uma sondagem junto destas pessoas, surgiriam de certeza aqueles três pontos. Talvez tenham problemas sociológicos porque foram vítimas de violência na família ou problemas psíquicos porque na escola foram vítimas de “bullying”, ou problemas sociológicos porque foram discriminados. São pessoas que se desvinculam da nossa sociedade, lhe viram as costas, e se põe à procura de algo. E, assim, caem nas ratoeiras de outras pessoas, podendo surgir uma radicalização. A minha tese é que não são as pessoas que usufruem de uma boa educação islâmica, muçulmana, e que mostram empenhamento social, em obediência aos princípios do Alcorão, que são permeáveis a extremismos mas sim, aquelas que têm vidas problemáticas. E tenho a certeza que muitos deles já cumpriram penas de prisão; é um potencial que já existia antes, e que se traduz em criminalidade.

 

CD-V - Mas eles têm uma identidade muçulmana!

KS - Uma pessoa não tem apenas uma identidade. Eu sou pai, cientista, e também sou Imam, e sou marido, sou de origem turca, e tenho um passado bávaro; tenho várias identidades e, também, sou muçulmano. Que identidade me fez agir desta ou daquela maneira? Não se deve conduzir a uma identidade especial esta ou aquela forma de agir. Se partimos do princípio que todos os muçulmanos têm a identidade de muçulmano e que tudo o que fazem tem a ver com o Islão, estamos a cometer um erro que conduz a injustiças relativamente ao que outros fazem ou não fazem.

Sem os ter conhecido de perto, penso que é na área criminal que eles se movem e não na religiosa!

 

CD-V - Pensemos no terrorista cristão da Noruega, que matou mais de setenta pessoas. Em quase todos os Media foi designado apenas por terrorista. O que pensa disto, Berrin?

BI - Seria desejável que os islamistas terroristas fossem apenas designados por terroristas! É igual a crença que eles professam. O importante é que eles são terroristas, cometem actos terroristas. No entanto, acho que os órgãos de comunicação têm sido mais responsáveis desta vez, porque se aperceberam que a polarização da sociedade é algo de negativo.

 

CD-V - Poder-se-ia dizer que houve um salto qualitativo desde o 9/11?

KS - Tenho que dizer que nós, os muçulmanos, éramos inexperientes. Muitos dos muçulmanos ficaram surpreendidos com o atentado de 11 de Setembro e não souberam como reagir. Ficaram em estado de choque e esta situação fez com que ficassem sem saber o que fazer. Os Media e os políticos ficaram surpreendidos e todos se atiraram aos muçulmanos. Entretanto passaram quase quinze anos e houve uma mudança. Os muçulmanos aprenderam algo, começaram a trabalhar para o diálogo, e começaram a perguntar-se o que se passa no mundo, e encontraram respostas. Por outro lado, os jornalistas reconheceram a sua responsabilidade, que perderam naquele dia 11 de Setembro, e os políticos também se aperceberam desta realidade. Foi interessante ver como François Hollande e Angela Merkel se pronunciaram logo após os atentados de Paris e como os Média reagiram de forma diferenciada, o que foi uma surpresa.

 

CD-V – Em Berlim os muçulmanos saíram à rua e mostraram a sua condenação dos actos terroristas em Paris. Estamos perante um novo posicionamento dos muçulmanos ocidentais?

KS - A Vigília inter-religiosa de Berlim, organizada por Aiman Mayzek, presidente do Central Rat der Muslimen, (Conselho Central dos Muçulmanos) e pela Comunidade Turca, em que participaram Joachim Gauck, Angela Merkel, representantes das várias religiões, políticos e outros, mostrou, que os muçulmanos ganharam autoconfiança para expressar publicamente a sua total condenação do terrorismo. Aprendemos todos com o passado recente. Esta Vigília, que começou com a recitação de versículos do Alcorão, sinalizou muito claramente a posição dos muçulmanos contra o terrorismo.


Vivemos numa sociedade em que se regista uma certa polarização. De um lado a sociedade da maioria, do outro os muçulmanos, o que quer dizer, eles e nós. Isto coloca os muçulmanos e os terroristas de um lado, o que torna a situação muito complicada. Mas desta vez houve uma constelação muito diferente. Desta vez a maioria dos muçulmanos, que é pacífica, os políticos, os Media, e a sociedade maioritária estiveram todos do mesmo lado, e os terroristas ficaram sós - como um pequeníssimo grupo que não se pode esconder por detrás dos muçulmanos. É um novo desenvolvimento, que se deve observar e valorizar. Deve manter-se esta solidariedade entre cristãos, judeus e muçulmanos, budistas, hinduístas, não religiosos, outras religiões, ateístas, que agora estão todos do mesmo lado, e os terroristas isolados do outro lado - esta é a posição certa! Isto dá-nos esperança.

 

CD-V - Importante para os nossos leitores é saber o que é um imam? É uma vocação, um emprego, uma profissão, o que é? Como se pode ser imam?

KS - Historicamente o imam não era pago e não era uma profissão. Se for remunerado é uma profissão e perde-se a motivação e a verdadeira intenção inicial, trabalha-se pelo dinheiro. Por isso não era institucionalizado. As pessoas apenas aprendiam o que era necessário nas orações e os melhores entre eles iam para a frente e dirigiam as orações. Alguns decidiram-se pelos estudos religiosos e assumiram as tarefas religiosas na comunidade. Mas o que era importante era que o imam fosse reconhecido pela comunidade. Independentemente do que se faz, estuda-se e estuda-se, mas para ser imam tinha de haver o reconhecimento pela comunidade muçulmana. Era uma profissão muito livre e honesta.

Hoje é institucionalizado e diferente de país para país. Na Alemanha ainda não há legislação aplicável. As comunidades podem escolher o seu imam, mas apenas são seleccionados os que trazem as competências necessárias ao ofício.

Eu fiz estudos islâmicos em Frankfurte e, em Istambul dediquei-me aos estudos dos textos clássicos do Islão. O FID perguntou-me se eu queria ser imam na “House of One”. Eu não tenho um certificado de imam, nem fiz um curso para imam, mas completei estudos teológicos. Espero encontrar o reconhecimento dos muçulmanos, ou seja, serei imam enquanto este reconhecimento existir, faltando este não posso continuar a ser imam, independentemente das minhas qualificações.

No Islão sunita não há uma hierarquia ao nível religioso e o imam é quem dirige as orações. Ele não tem responsabilidade jurídica: é responsável por liderar a oração, pregar e fazer as lavagens dos mortos.

O casamento religioso, que não é obrigatório, caso seja pedido, é feito pelo imam, e também o aconselhamento e o apoio dos crentes, e o acompanhamento psicológico e pedagógico. E a comunidade segue muito atentamente a actividade do imam.

 

CD-V - É imam por vocação? Sentiu-se como que “chamado”?

KS - Pode haver várias razões para se ser imam. Na Turquia são funcionários públicos. Têm remuneração garantida e também flexibilidade para fazer outras coisas. O aspecto material também pode ser uma motivação.

Para mim é diferente, porque não sou remunerado actualmente. Quando era miúdo queria ser imam e também ourives. Entretanto, quis ser muitas outras coisas. Quis ser professor, queria estudar na Bundeswehr, depois estudei física, andei muito tempo à procura. Foi na 5ª ou 6ª classe que soube o que queria ser mais tarde. Procurei muito e, finalmente, encontrei, umas das coisas que tinha querido ser quando era miúdo.

Para mim a religião foi sempre muito importante e tinha muito respeito pelos imam. Mas naquela idade queria ser ourives porque pensava que me traria segurança financeira.

Fiquei-me pela ciência e por imam com todo o gosto. Não sei se é a vontade de Allah, se é uma vocação, mas, sem dúvida, que procurei sempre encontrar o melhor para mim. Sempre me deixei guiar e foi este caminho que me levou a ser imam

 

CD-V - Disse-se há pouco que o Islão faz parte da sociedade! Se pensarmos que nos anos quarenta a sociedade alemã era muito mais homogénea, isto contrasta com a diversidade da sociedade alemã no séc. XXI. Como é que o Islão se adapta à vida no Ocidente? E como convive com esta pluralidade? Como é possível os muçulmanos orientarem-se na Europa? Se bem entendi, no Islão existem princípios gerais que indicam um caminho e interpretações diversas sobre o que pode ser objecto de interpretação. É possível viver na sociedade Ocidental sem trair estes princípios?

KS - Penso que compreendi o que quer dizer. O Profeta diz: “A diversidade de opinião da minha “Umma” (comunidade muçulmana) é uma bênção”. Isto é um enriquecimento. E isto é algo que se deve valorizar e não perguntar porque é que é assim. E não é um acidente de trabalho, foi querido assim por Allah que o Islão seja compreendido de várias maneiras. Mas isto tem os seus limites. O Islão pode ser compreendido de várias formas, e é bom que assim seja, mas não pode ser de forma diferente do espírito do Islão. Pode-se interpretar o Islão política, teológica e cientificamente, fazer uma interpretação moderna, histórico-crítica, quase literalmente, mas nunca literalmente, e livremente. Há uma paleta muito ampla mas não é permitido arrancar do contexto e pôr na boca do Islão! O que o Islão não diz - posso daí interpretar – isso não é permitido. Não se pode pôr a questão, o que posso compreender do que não é dito! A pergunta deve ser - O que me quer dizer o autor? Qual a intenção do autor? O que me quer dizer Allah? E quando uma pessoa faz estas perguntas de forma honesta, considerando toda a obra, há um leque vasto de interpretações possíveis mas estas têm de ser pacíficas (em paz) e querer a paz.

No Islão o terrorismo, o anarquismo e a justiça individual (auto justiça) são proibidos. Não há qualquer dúvida quando se trata destas três situações.

Quando na minha opinião, algo é feito erradamente na sociedade, o caminho não é dizer: erraste, logo vou punir-te. Isto é proibido no Islão. Posso tentar falar com a pessoa, por exemplo, dizer-lhe, passas-te com o sinal vermelho e não deves fazê-lo por causa das crianças. Se não funcionar, posso ir à polícia. Posso fazer uma queixa. Há várias vias. Mas nunca poderei usurpar os poderes que são monopólio do estado e fazer justiça com as minhas próprias mãos. Isto é um “no-go”!...


Primeiro tenho de ler o Alcorão como ele é: uma orientação jurídica, isto para os religiosos. Procurar a minha maturidade jurídica no Alcorão. Claro que existem no Alcorão normas enunciadas mas, numa interpretação mais literal, é o Estado que tem de ser responsável pela sua execução. Elas dirigem-se ao Estado e não ao indivíduo.

E mais detalhadamente posso dar um exemplo. Se um homem ou uma mulher for infiel, e não se faz diferença entre os sexos, ou se procurarem um relacionamento íntimo sem laços conjugais, isto não é permitido no Islão. Não se quis que, na falta de sanções as pessoas pensassem que podem cometer esse pecado sem consequências e estas sanções visam proteger a sociedade e não são literais. Mas em primeiro lugar está a prevenção e não a punição. E porque é que digo isto? Porque estes versículos do Alcorão são quase impossíveis de realizar. Tem de se encontrar quatro testemunhas, que tenham visto, exactamente, com os seus próprios olhos, directamente, a cópula. Não chega quando as pessoas estão nuas num quarto ou tenham uma coberta por cima! Ou seja, têm de ser vistos a cometer o acto por quatro testemunhas ao mesmo tempo e no local. E isto não é possível. E por isso digo que é mais um elemento dissuasor. No fundo, quando as pessoas cometem este pecado é, praticamente impossível testemunhá-lo. Neste caso, a testemunha que afirmar tê-lo visto e não o puder provar, porque é praticamente impossível prová-lo, fica para sempre desacreditada naquela sociedade porque fica na situação de impossibilidade de prestação de provas. Nestes versículos do Alcorão está em primeiro plano a dissuasão e não a punição e procura-se manter uma determinada ordem social. E isto não é tarefa do indivíduo. Pode-se escrever sobre o assunto, tomar posição, dizer às pessoas que se devem manter afastados do pecado, mas isto não é tarefa do indivíduo, mas sim do Estado.

Quando se consegue fazer esta distinção, entre a minha tarefa e as tarefas e competências do Estado, um muçulmano pode viver bem nesta sociedade e com a consciência tranquila.

Queria ainda referir o “Aman”, que se pode dizer que é como um “Visto”. Quem receber um visto para entrar num determinado país tem de cumprir as normas vigentes, isto pode ser a Constituição. A partir do momento que o visto foi requerido e com ele se entra no território, segundo o entendimento islâmico, isto é considerado como a aceitação da Constituição do país.

E mesmo quando uma pessoa defenda o islão político, tem aqui mais uma razão para respeitar as leis na Alemanha. É sua obrigação cumpri-las e não pode contradizê-las, porque o visto é como um juramento de respeitar as leis do país!

 

BI - Na minha perspectiva muito pessoal, nasci em Berlim, e digo sempre que cresci bicultural, o que notei foi que, o que em ambas as culturas é bom e enriquecedor, isso tenho no Islão e combina-se com o Islão. Por isso, para mim, como muçulmana não é difícil viver numa sociedade democrática porque os valores não se contradizem. Pode parecer, e alguns pensam assim, mas não é!...


Coisas simples, como a pontualidade, o rigor, isso é na cultura turca mais descontraído, mas no Islão é o comportamento correcto. O que quer dizer que os valores gerais, com que todos concordamos, é o denominador comum para cristãos, judeus ou muçulmanos.

Segundo o académico Fethullah Gülen, o Islão não prescreve uma forma de governo. No tempo do Império Otomano foi uma, no tempo do Profeta foi outra, e houve diversas outras formas de governos ao longo da história. Mas para aquele erudito, a democracia é a melhor forma de governo, afirmando que esta ainda “pode ser aperfeiçoada”. E por isso não há contradição. Assim se procurarmos viver os nossos deveres e obrigações democráticos não haverá problemas. E para mim, como muçulmana, é um dever cumprir as leis na Alemanha.

 

KS – Queria ainda referir que segundo o Islão sunita não podemos simular aquilo que não somos, porque isto seria mentir. Se eu dissesse, aceito a Constituição mas espiritual e interiormente a recusasse, isto seria uma mentira, uma dissimulação, e esta mentira é proibida no Islão.


Apenas quando se trata de salvar a vida, proteger bens ou alguém, se poderá ser ambíguo, ou seja, diz-se a verdade mas a pessoas à minha frente poderá compreender de outra maneira. Por exemplo, um casal discutiu, e a mulher veio para nossa casa. Ele bateu à porta e eu digo-lhe que a mulher não está ali – ele percebe ali em casa, mas eu quis dizer naquela sala, visto que ela está na sala ao lado. Portanto isto não seria uma mentira. Havia o perigo de ele agredir a mulher e daí a legitimidade da ambiguidade da resposta.

Contudo esta retórica não pode ser utilizada, normalmente. Deve falar-se claramente para o nosso interlocutor nos perceber sem mal-entendidos.

 

CD-V - Segundo percebi da nossa conversa, podemos então dizer que o Alcorão indica o caminho, o que em árabe se diz Sharia, e não existiria incompatibilidade com a democracia.

BI - Por exemplo, no Islão há o conselho, “Istishara”, que prevê a consulta dos eruditos em questões da comunidade. Se este conjunto de “sábios” quiser alterar a decisão terá de voltar a reunir o conselho para deliberar.

KS – Gostaria de mencionar que há algum tempo li uns resultados estatísticos de um estudo sobre qual seria o país mais conforme aos princípios do Islão a nível mundial. No primeiro lugar ficaram os países escandinavos e os países de maioria muçulmana ficaram em 40º, 140º etc...., isto é, muito atrás daqueles países não muçulmanos. Interessante é que deste estudo resulta que no Ocidente os princípios do Islão estão melhor integrados na sociedade.

 

CD-V - Então não só o Islão pertence à Alemanha, como disse Angela Merkel, ele pertence também à Europa, porque ele já se revê no sistema das democracias europeias.

KS – O erudito Nursi disse “posso viver sem pão, mas não sem liberdade”. Preciso de viver onde há liberdade e são poucos os países islâmicos com liberdade.

BI – E Nursi disse também que “sem liberdade não nos podemos mover” e que “ a liberdade é em cinquenta por cento a minha liberdade e nos outros cinquenta é a liberdade dos outros” e Rosa Luxemburg disse algo de semelhante. Por isso digo que, quando se conhece o Islão, vê-se que não há razão para ter medo.

 

CD-V - Berrin, depois dos últimos atentados, sente-se segura na rua?

BI - Sinto-me segura porque conheço a cidade, mas reparei que os olhares, que aliás sempre houve, são mais penetrantes. Eu sou uma pessoa muito positiva, e não quero ver estes olhares. O que se passará na cabeça destas pessoas? Gostaria de lhes poder dizer, que condeno os actos terroristas tal como elas. Mas também há o contrário. Pessoas que me sorriem. Nota-se que há maior responsabilidade relativamente ao tema.

 

CD-V - “House of One” é um projecto ambicioso que pretende reunir as três religiões abrâamicas num só edifício. Tem havido reacções das várias comunidades?

KS - Fomos criticados por algumas pessoas, poucas, mas não por instituições, mas a maioria não se manifestou, o que me deixou surpreso. Provavelmente, querem esperar e ver, isto do lado muçulmano. Isto tem a ver com a nossa tradição. É algo inovador, embora tenha havido tempos em que as igrejas, as mesquitas e as sinagogas se situavam lado a lado. Portanto, historicamente, houve esta experiência positiva e partimos daí. Aliás houve alturas em que o Profeta Maomé permitiu que se rezasse na sua mesquita e fossem celebradas missas, ou se pernoitasse nela quando necessário.

Digamos que este projecto é “islamo-kosher”! (um projecto que respeita as regras muçulmanas e judaicas)

 

CD-V - Quando começam a construir a “House of One”?

KS – Quando obtivermos os primeiros dez milhões! Precisamos de quarenta e três milhões e meio de euros. Até agora conseguimos cento e cinquenta mil através da internet. Se encontrarmos o dinheiro rapidamente podemos começar a construir em dois anos. Temos que nos empenhar na angariação de donativos. Penso que recebemos donativos de Portugal e gostaríamos de receber mais do vosso país para o nosso projecto.

E como mensagem aos vossos leitores, gostaria de dizer que:

Não pactuamos nem aceitamos a violência e desumanidade dos grupos e pessoas que usurpam poderes. Queremos, com judeus e cristãos e outros, todos juntos, reagir contra a violência.

Apoiem o projecto da “House of One”, venham ver a nossa página. Gostaríamos de receber o vosso apoio e os vossos donativos para, juntos, realizarmos este projecto. Sigam-nos no Twitter e no Facebook.

E deixamos bem claro que condenamos todo o tipo de terror. Dizemos que - criminoso é criminoso, e terror é terror. O brutal assassínio de pessoas não pode ser aceite, sejam quais forem fundamentos e pretextos. Afirmamos de modo muito veemente que o caminho só pode ser: diálogo, diálogo e mais diálogo, para uma cultura de vida em comum

 

Cristina Dangerfield-Vogt

 Em Berlim


Fotos: PP - Christina Dangerfield-Vogt