Tudo o que Fernando Pessoa escreveu sobre fascismo, a ditadura e Salazar num só livro

O livro "Fernando Pessoa - Sobre o Fascismo, a Ditadura Militar e Salazar", organizado pelo investigador e historiador José Barreto, com textos inéditos do poeta, como "Fado da censura", é apresentado quinta-feira, na Casa Fernando Pessoa, em Lisboa.

 

A obra, como afirma o investigador, na introdução, reúne "todos os escritos de Fernando Pessoa [sobre fascismo, a ditadura e Salazar] que foi possível recensear, entre os ainda numerosos inéditos do espólio do escritor e a obra publicada em vida ou postumamente", salvaguardando que não pode garantir a existência de outros textos, que se encontrem no espólio da Biblioteca Nacional, "ou fora dele".

 

Apesar de conhecidos alguns textos que Fernando Pessoa (1888-1935) publicou ainda em vida, autógrafos ou sob pseudónimo, como a entrevista forjada a um suposto antifascista italiano, saída no diário Sol, em novembro de 1926, "alguns textos [reunidos nesta obra] dificilmente teriam encontrado em Portugal, no período em que foram escritos, quem se prontificasse ou arriscasse a publicá-los", daí terem permanecido inéditos, afirma Barreto.

 

"Boa parte deles - como quase tudo o que Pessoa escreveu sobre Salazar e o Estado Novo - jamais poderia ter passado a malha censória", escreve Barreto, que admite que muitos textos que o poeta publicou foram sujeitos ao crivo da censura prévia, estabelecida em 1926 ("Fado da censura" foi escrito em 1927), designadamente o artigo "Profecia italiana", publicado em 1935, cerca de um mês antes der morrer.

 

Refere o investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, que tal motivou "as conhecidas queixas de Pessoa" sobre o regime de censura.

 

Os escritos pessoanos são apresentados de forma cronológica, e agrupam-se em três temáticas essenciais: "o fascismo e a figura de Benito Mussolini, a ditadura militar portuguesa (1926-1933), e António de Oliveira Salazar, enquanto ministro das Finanças, de 1928 a 1932, e posteriormente como "líder do Governo e do Estado Novo".

 

Alerta o investigador para o facto de que, no tempo em que Pessoa escreveu, "o termo fascismo ainda não tinha sofrido a dilatação semântica que posteriormente se verificou".

 

No livro estão ainda incluídas umas notas "pouco numerosas e mais lacónicas" sobre o nacional-socialismo e Adolf Hitler, assim como sobre a ditadura espanhola de Primo de Rivera (1923-1930).

 

Escreve Barreto que alguns artigos publicados por Pessoa na década de 1910 "podem parecer ao observador de hoje que Pessoa não teria sentido grande obstáculo - como aconteceu a numerosos desiludidos da Primeira República e adeptos do Sidonismo [do Presidente Sidónio Pais] - em adotar as ideias autoritárias".

 

Mas se alguma "simpatia" houve do poeta pelo regime corporativista, claramente se distanciou dele, nos inícios de 1935, "para dar lugar a um pensamento coerente de oposição a Salazar e ao seu regime", atesta o historiador.

 

A obra é publicada pela editora Tinta-da-China, no âmbito da coleção "Pessoa", dirigida por Jerónimo Pizarro, que no ano passado publicou, pela primeira vez, num só volume, a “Obra Completa de Álvaro de Campos”, um dos heterónimos do autor de "Mensagem".

 

Lusa