Um novo tipo de movimento sobe ao palco – PEGIDA

Qual é hoje um dos principais problemas da Alemanha? A dificuldade de adaptar o bem-sucedido modelo socioeconómico do Estado Providência à crise económica e ao envelhecimento da população? Nada disso. Basta ler a imprensa diária para perceber que, para a maioria dos políticos e dos intelectuais, o principal problema atual é o papel do Islã na sociedade e a sua suposta incompatibilidade com valores democráticos. Eles viraram o bode expiatório principal no debate público alemão chamando o Islão de “problema de civilização”.

Não devemos dizer que a Alemanha de 2015 está na mesma situação que nos anos de 1930, e não podemos ver o nazismo em cima de nós. Mas de certa forma podemos comparar a situação de hoje com aquela do final do século XIX, quando se instalou o ordinário da discriminação. Relembremos o genocídio judeu que aconteceu durante o nazismo. A verdade é que aconteceu, baseado em ideologias discriminatórias. É justamente para evitar que o pior aconteça que é preciso evitar a engrenagem inicial da discriminação. Basta lembrar como, em toda a Europa, pessoas cultas e inteligentes encaravam, com a maior naturalidade, os judeus como um perigo.

 

Eles representavam o poder do dinheiro, mas também o risco do comunismo – chamado naquela época de “judeu-bolchevismo”. Hoje, da mesma maneira, os muçulmanos são vistos como uma ameaça que junta o poder económico (simbolizado pelo gás, o petróleo e fundos de investimentos árabes) e uma “internacional da violência” personificada por grupos como Al Qaeda e Estado Islâmico.

 

Os muçulmanos viraram os judeus de ontem?

Não é que o anti-semitismo desapareceu, longe disso. Mas depois do genocídio, não é mais aceitável nos discursos. O alvo virou na atualidade os muçulmanos. A “questão muçulmana” hoje, como ontem a “questão judia”, justifica a instalação de um mecanismo que acaba atacando todas as minorias. Atrás da islamofobia, uma doença nova que tende contaminar toda a europa ocidental, aparece também a negrofobia, a homofobia, etc... É claro que a xenofobia e o racismo estão presentes em toda Europa. Ao contário do que muitas pessoas pensam , não é a crise europeia que provocou o surgimento do movimento PEGIDA na Alemanha. Na Alemanha é feio ser nacionalista alemão, desde o fim da Segunda Guerra. Então criou-se um movimento – PEGIDA – que se declara de “Patriotas Europeus contra a Islamização do Ocidente”, procurando uma fachada pseudo universalista para os seus preconceitos anti-Islão e anti-imigrantes.

 

Esta, aliás, é a bandeira comum destes movimentos: fazer do imigrante ou do refugiado político ou económico o bode-expiatório da situação de crise que o continente vive, assim como no passado se fez com o judeu e ainda hoje se faz com os roma e sinti(ditos ciganos).

 

Pois, na verdade, tanto faz como a coisa toda se chame. O facto é que, na Alemanha de hoje, muita gente tem medo "do islão". É um sentimento de mal-estar difuso entre os alemães e não concreto, que se nutre de uma miscelânea de acontecimentos e temas.

 

É o 11 de setembro e o omnipresente medo do terrorismo islamista; são os debates sobre o véu muçulmano e as burcas; o radicalismo do "Estado Islâmico" (EI); os muçulmanos da Alemanha que viajam para o Oriente Médio como jihadistas; é o afluxo de refugiados das nações devastadas pelo EI; e o eterno debate sobre se a Turquia muçulmana pertence à União Europeia ou não.

 

O problema na Alemanha é que, na esfera pública, não há qualquer debate relevante sobre essas preocupações comuns a tantos cidadãos. E estes passam, então, a não se sentir mais levados a sério.

 

Com a crise, o desemprego e a incapacidade tanto da direita como da esquerda de encontrar soluções, os políticos apelam às velhas armadilhas do poder, cuja estratégia é incentivar o povo a entrar em guerra contra si mesmo. O lema é “Povo, existe um inimigo dentro de você”, o que permite evitar qualquer discussão sobre as elites políticas e económicas e a verdadeira questão social. Desta maneira, o povo concentra-se nas divergências (culturais e religiosas), esquecendo que, na realidade, todos sofrem dos mesmos problemas: das condições de trabalho precárias ao encarecimento da vida. Nisso, a politica tanto de direita como de esquerda tem uma responsabilidade importante, porque ela aceitou esta guerra de identidade e de religião, esquecendo da sua verdadeira agenda, que é de conquistas políticas e sociais.

 

Na Alemanha as manifestações de rua do PEGIDA vêm crescendo sistematicamente, atingindo grande número de participantes em especial na cidade de Dresden, reduto tradicional de manifestações nostálgicas em relação ao passado nazismo devido a seu (também criminoso) bombardeio ao fim da Segunda Guerra pelos britânicos. Nos seus discursos e slogans eles apelam ao aumento do combate aos abusos cometidos pelos imigrantes, que são sobretudo originários de países muçulmanos da África e do Oriente Médio, relativamente ao direito à habitação, ao crescimento do radicalismo islâmico, assim como contra a “diluição”, como eles o qualificam, da cultura nacional alemã devido ao alastramento no país dos costumes e tradições muçulmanas. Manifestações idênticas também foram realizadas numa série de outras cidades da Alemanha. Além disso, esse tipo de manifestações está ganhando um caráter sistemático e as autoridades estão preocupadas com a imagem do país, apesar da mobilização antiracista que se manifesta em escala nacional. Um país até hoje marcado por seu passado nazista e que busca atrair imigrantes para compensar o seu declínio demográfico, a multiplicação de manifestações xenófobas das últimas semanas provocou um levante geral sem precedentes, que contagiou políticos, meios de comunicação, homens de negócios e vários cidadãos, tanto nas redes sociais quanto nas ruas, todos mobilizados contra a islamofobia. É o soglan: “A Alemanha virou um arco-íris. A Alemanha não pode voltar a ser preta e branca.”

Deve-se notar, como fator de esperança, que manifestações contra estas formas de intolerância – o terrorismo que reinvindica o Islã como inspiração e os movimentos de extrema-direita – têm tomado corpo também. Houve manifestações de solidariedade aos mortos na França em várias cidades europeias e na Alemanha manifestações contra o PEGIDA reuniram milhares de pessoas em diferentes cidades. Mas pelo lado da extrema-direita cresce a aceitação de suas palavras de ordem na frente institucional (líderes do novo partido alemão Alternative für Deutschland têm acolhido reivindicações do PEGIDA) e junto à opinião pública. Na Alemanha recente pesquisa trouxe à baila o dado preocupante de que 61% dos entrevistados se declararam “anti-islâmicos”.

 

Em resumo, para regressarmos à questão do movimento Pegida, podemos dizer que os seus participantes tentam introduzir as suas correções nos padrões europeus de democracia. Aliás, o Pegida não é o único neologismo na Alemanha. Já apareceram denominações como Kagida, Dugida e Mugida, nas quais as primeiras letras representam os nomes das cidades de Kassel, Dusseldorf e Munique e as últimas representam a mesma expressão “contra a islamização do Ocidente”.

 

PEGIDA é um sintoma de negação de ressentimento de décadas, transversal a toda a sociedade. PEGIDA é uma vergonha para a Alemanha. E até quando?

 

Joaquim Peito