Vida do escritor luso-descendente John Dos Passos transformada em peça de teatro

O escritor Tiago Patrício, de 35 anos, está a preparar uma peça de teatro inspirada na vida do escritor luso-descendente John dos Passos, que deverá ser apresentada nos Estados Unidos e em Portugal em 2017.

 

O projeto foi o vencedor do concurso anual do Clube Americano de Lisboa, que atribuiu ao escritor uma bolsa de três mil dólares (cerca de 2500 euros) e bilhetes de avião para uma viagem de quatro semanas aos Estados Unidos.

 

“O objetivo foi a criação de uma peça de teatro para dois atores, a partir da obra e da técnica literária que John dos Passos inaugurou com os seus romances experimentais, especialmente com a monumental 'Trilogia USA'. O título é inspirado no romance ‘Manhattan Transfer’, que aparece numa das listas da Amazon como um dos vinte melhores romances do século XX”, explicou Patrício à agência Lusa.

 

No final do ano passado, o escritor foi até Chicago, onde nasceu Dos Passos, e até à Nova Inglaterra, onde Dos Passos estudou e viveu. Foi ainda até à Universidade da Virgínia, em Charlottesville, consultar o espólio do romancista, e encontrar-se com a filha e o neto do escritor.

 

“Conversámos muito sobre projetos e histórias antigas, em especial sobre uma viagem a Portugal que John Dos Passos fez com a família, nos anos 60, em que percorreu o país de carro, desde as cidades até às pequenas aldeias, sempre com o seu espírito de observador”, disse Patrício.

 

Tiago Patrício, que venceu o Prémio Agustina Bessa-Luís, em 2011, com o romance "Trás-os-Montes", esteve pela primeira vez nos Estados Unidos em 2012, para uma estada na residência de escritores da Ledig House, em Nova Iorque.

 

“Nessa altura, a única coisa que sabia era que [Ernest] Hemingway e Dos Passos tinham sido muito amigos, mas depois percebi que se tinham zangado durante a Guerra Civil Espanhola, por causa do assassinato do tradutor e amigo de Dos Passos José Robles. Apesar de tudo, no final dos anos 50 houve uma reaproximação e, numa das cartas de John Dos Passos, pude confirmar a alegria dele em voltar a receber notícias do amigo [Hemingway]”, lembra.

 

Depois desta descoberta, Tiago Patrício começou a ler a obra do luso-descendente, neto de imigrantes madeirenses, e a descobrir a sua história.

 

“Assim que meti as mãos na 'Trilogia USA' ('Paralelo 42', '1919' e 'Grande Capital'), percebi que aquela escrita era fulgurante e, ao fim de 50 páginas, já tinha desenhado várias cenas para uma peça de teatro. Os textos são tão fortes e atuais! A dificuldade é escolher entre as mais de mil páginas da trilogia”, lembra.

 

Além dos livros, Patrício foi conquistado pela biografia de Dos Passos, que foi condutor de ambulâncias durante a Grande Guerra de 1914-18, acompanhou a Guerra Civil de Espanha, foi repórter durante a II Guerra Mundial (1939-45), viajou pela Ásia Menor, pelos Balcãs, foi à União Soviética nos anos vinte, andou pelo Iraque e, mais tarde, pelo Brasil, nos anos da construção de Brasília.

 

John Dos Passos começou por ser seguido pelo FBI, por ter sido marxista nos anos de 1920 e 1930, mas acabou convidado para a Casa Branca, pelo Presidente John Kennedy (1961-63), e a receber cartas do Presidente Richard Nixon (1969-74).

 

“Talvez o facto de ter mudado politicamente, depois da ruptura com Hemingway, tenha tido consequências para a forma como se olha para a obra dele. Apesar de John Dos Passos ser considerado um dos melhores escritores de sempre, e de haver uma prémio nacional com o seu nome, os seus livros causam pouco interesse e continua a não ser um autor prioritário para as editoras”, explica Tiago Patrício.

 

Além da peça de teatro, o escritor português está também a trabalhar numa série de artigos a publicar no Jornal de Letras, Artes e Ideias.

 Lusa