Cante alentejano: Património Imaterial da Humanidade três anos depois do fado

Redação, 27 - A UNESCO proclamou , em Paris, o cante alentejano como Património Imaterial da Humanidade, exatamente três anos depois de ter atribuído a mesma distinção ao fado numa reunião na Indonésia.

A 27 de novembro de 2011, na Nusa Dua, na ilha indonésia de Bali, ouviram-se palmas na sala e o presidente da Câmara de Lisboa, António Costa, colocou em alta voz uma gravação do fado Bailado “Estranha Forma de Vida”, por Amália Rodrigues, nome cimeiro desta canção.

 

A candidatura tinha sido apoiada pela edilidade lisboeta, através do Museu do Fado, e contou entre outros, com o empenho dos musicólogos Salwa Castelo-Branco e Rui Vieira Nery.

Foram seus embaixadores Mariza e Carlos do Carmo, uma escolha de Pedro Santana Lopes, quando estava à frente dos destinos da capital, e que iniciou o processo.

Três anos volvidos, a distinção continua a ser motivo de orgulho. Carlos do Carmo, que há uma semana recebeu um Grammy Latino de Carreira, reconheceu à Lusa, que, para esta distinção, também terá contribuído o seu empenho na candidatura.

A fadista Maria Amélia Proença, com 68 anos de carreira, que foi homenageada na quarta-feira no Café Luso, em Lisboa, afirmou: “Apesar de alguns oportunismos, apareceu muita gente a cantar, esta distinção foi e é importante, quando comecei a cantar nunca tal imaginei, é um orgulho”.

“A distinção chamou a atenção para o nosso fado, não só pelo interesse em ouvir e escutar, como de conhecer esta expressão que sendo nossa é de todo o mundo, até porque os sentimentos que cantamos são universais”, disse.

Para a Associação Portuguesa dos Amigos do Fado (APAF), a celebrar 20 anos de existência, “o galardão chamou a atenção para uma área ainda hoje deficitária, a da investigação, do estudo e de um melhor conhecimento da história e das características”.

“Com este prémio, passou-se a valorizar e a cuidar mais desta canção com mais de 200 anos”, disse a presidente da APAF, Julieta Estrela de Castro.

A vitalidade do fado passa pela revelação de novos intérpretes, num processo que remonta ao início deste século, no qual se destacam nomes como Mariza, Carminho, Ana Moura, Ricardo Ribeiro, António Zambujo e Pedro Moutinho, entre outros.

O Museu do Fado mantém operacional a sua escola de guitarra portuguesa, orientada por António Parreira, e também de canto, em que os novos intérpretes, incluindo alguns estrangeiros, aprendem as melodias, os tons e as letras.

Uma das áreas em que o efeito da distinção se fez sentir foi a preocupação de revalorizar os espólios históricos de gravações, com as discográficas a revisitarem os seus arquivos, e outras a procurar recuperar gravações avulso, como a Seven Muses.

Esta discográfica tem trazido para o digital gravações mais ou menos conhecidas de vozes como Amália Rodrigues, Berta Cardoso, Tristão da Silva ou Manuel Fernandes, e de outras cuja presença rareia no ambiente digital como Natércia da Conceição, Vitalina Félix, José Moreira, Lina Maria Alves ou Isabel Oliveira.

Algumas das gravações de Amália Rodrigues foram recuperadas, e procuradas outras, como de ensaios em estúdio da fadista, ou as que fazem parte do duplo CD “Amália no Chiado”, editado pela Valentim de Carvalho esta semana.

Também surgiram novos livros sobre a temática do fado, como a biografia da fadista Ercília Costa.

 Lusa