Crónica de Berlim

Pedro Monterroso
Pedro Monterroso

1984, hoje. Melhor, esta história remonta a abril de 2014: Era uma vez uma narrativa fictícia tão louca quanto provável, que se transmutou nos contornos da realidade. Não era suposto esta ter sido um manual de instruções mas um aviso. Os seres humanos são prodígios nestes assuntos, em ultrapassar a realidade , de tal modo que a ficção passa a ser uma realidade corriqueira, interiorizada ao ponto de quase se cair no ridículo quando a questionamos.

 

Faz algum tempo que, no Festilval de Literatura dildile - “Crisis? What crisis?”, dedicado à temática da crise dos países do sul da Europa, entre os vários autores, envolvidos no evento, me deparei com Rui Zink, que apresentava o seu mais recente livro – A Instalação do Medo. O título, associado a Rui Zink, um crítico sagaz, irónico e provocador, bastava-me para já gostar do livro, quase como quando era criança e me deliciava com os livros pela capa. Mas não foi só o título e o nome do autor que me fizeram guardar o título na mental pasta dos livros a ler mais tarde (com o pouco dinheiro que trazia no bolso vi-me obrigado a adiar a compra), mas a forma como este, no papel de orador, evidenciava lucidamente a situação do país: a força da “crise” e a apologia ao medo perante os “mercados”, que nos julgam, nos ditam as regras e nos assombram diariamente pela comunicação social, materializados em dois instaladores que entram pela casa da protagonista para lhe instalarem o medo.


Porém, quem está atento e é mais renitente à instalação de novos produtos, sabe que esse medo é instalado diariamente pela comunicação social em geral, e muito eficazmente através da televisão, seja nos programas da manhã, nos jornais do meio-dia, nos programas da tarde ou no entretenimento inócuo dos programas em “prime-time”. Somos bombardeados com informação ideológica a tal ponto, que quem não vê televisão, acaba por, enquanto toma o café, debruçado sobre o balcão do café, ou é conduzido por um táxi entre a Praça da Galiza e os Aliados, ficar enredado nesta patranha.


Sabemos tão bem como elas são sorrateiras as televisões e como se sentam, serena e secretamente, com olhar perdido face ao plano cansado das salas de estar ou das agitadas cozinhas ou como suspendem o dia sobre os móveis mais velhos e carunchados dos espaços frios e apagados pelo sol.


Tudo está bem no poder, lá em cima onde os cidadãos são numerados contribuintes, pela mesma razão pela qual nos dizem como, aqui em baixo, tudo tem de estar tão mal. São as crises, é isso. Habituam-nos a essa palavra, a qual nos enterra num sofá borolento a entrançar pensamentos sob o medo mercados. Com eles, assaltam-nos palavras estrangeiras que ninguém entende, e seguramos as esperanças nas notícias da rede social, onde um amigo conta das viagens, o outro das namoradas e o outro do tempo.


Entretanto, já em agosto, entre as compras que faço quando em Portugal, em outubro eis que me deparei com o pequeno manual que Zink escrevera e que servira de metáfora perfeita para a ilustração da manipulação descrita. Um livro de capa cinzenta, pequeno, com letras em negrito que ameaçam “A Instalação do Medo”. Tivesse as páginas mais amarelecidas, eu pensaria tratar-se de um verdadeiro manual vindo do Departamento da Propaganda da fantasia orwelliana. Prático, o medo, um produto testado no estrangeiro, que se usa nos mais modernos estados, que não compromete a evolução da nação, pelo contrário, a estimula. Que une todos os concidadãos em torno da crise, do barco que não podemos abandonar, que se matem os cobardes mas que não ponham o bem da nação em perigo.


A instalação do dito, a evolução essa linear necessidade de seguir em frente, para uma História determinada, onde o capitalismo se entranha no mais íntimo de cada um. Assim é, assumimos a castidade pelo bem da nação, pelo futuro, pelo progresso, para sermos parte da máquina em marcha, e não trair o futuro. A responsabilidade nossa de cada dia, os polícias do pensamento chegando, batendo à porta de cada cidadão para lhe trazer a instalação do futuro, do melhor que há.

Ler este manual, é como ler o dia-a-dia, de um modo simplificado, dum país em que o medo tem vindo a ser eficazmente instalado. Não é uma crítica, é um vislumbre lúcido e lapidar da realidade, em que todos os dias, através da comunicação social somos alertados da crise, das crises em todo o lugar, daquilo que a constituem: as doenças, os assaltos, as alertas amarelas, laranjas, vermelhas, as ondas da Nazaré, a velha que não morre mas já não é... É bom ficarmos com o medo, inativos, sem querer mudar, porque tudo está mal como está, há um estado soberano que nos mostra o paternal caminho. O controlo através do medo como a forma mais eficaz de perpetuar as vontades de elites soberanas. Ao longo das fluídas palavras de Zink e de dois mui dedicados funcionários públicos, todos os paralelismos com comunicação social portuguesa assaltam-me o pensamento. Não tenho conhecimento de dia, e juro-vos que já fiz o teste, que não nos tenham falado exaustivamente dessa palavra “crise”, de modo tal, que o sucesso da sua instalação na cultura lusa, nos fez acreditar que somos um país de gente sitiada entre a qual aqueles que não aguentam tanta verborreia, são a passos de coelho corridos, expatriados, ou amordaçados e calados no seus “empreguinhos”.


Temo que a sociedade portuguesa esteja a ficar mais conservadora do que aquilo que já foi, temo que os valores democráticos que foram florindo sejam cravos de plástico sob a negra caixa empoeirada de discursos de uma crise. E se o público alemão, mais alargado, parece não entender a repercussão deste fenómeno europeu, Rui Zink, militante pelo sul, denunciou em Berlim essa realidade. Apesar de o fenómeno ser global, somos nós que somos mais vitimizados e que temos de ser nós a perguntar quem são os mercados, que nos ameaçam. Os mercados e a crise. De quem é esse Portugal, do vamos-mas-é-trabalhar, não-há-tempo-para-discussões, olha-que-perdes-o-emprego-,-é-melhor-‘tares-caladinho, olha-lá-o-que-dizes, olha-lá-o-que-pensas, olha, olha, olha... que eles te estão olhando. Essa distopia concretizada, de cada cidadão faz-se um polícia, um polícia optimizado, que lava os dentes e coloca a mordaça pela manhã em frente ao espelho.


Bem-haja o autor, por este manual cinzento, onde o país à distância não se vislumbra como uma estância geográfica de preguiçosos, vadios, hedeonistas dedicados ao prazer do sol e às formas dos corpos das mulheres, pelos passadiços da praia que vão sempre dar ao mar.


Pedro Monterroso