50 anos de emigração na Alemanha - 50 anos de memórias, língua, hábitos

Monumentos aos emigrantes em S. Apolónia, Foto: Svenja Länder
Monumentos aos emigrantes em S. Apolónia, Foto: Svenja Länder

Recrutam-se forças de trabalho e vêm seres humanos - uma constatação inúmeras vezes repetida para tocar no ponto nevrálgico da emigração. Chamam-se braços e chegam homens, e, mais cedo ou mais tarde, as suas mulheres, e depois os filhos, e com todos eles, em recato ou à flor da pele: os seus costumes, o seu modo de rever o passado e de encarar o futuro, as vivências pessoais e as herdadas, os sabores e os sons, o tom de voz e o mover do corpo, o modo de sorrir ou de chorar.

E nos bolsos dos blusões, no forro das malas, na biqueira das botas cardadas: carolos e tarolos, de terra, da terra. Pelos braços daqueles que ajudaram a construir o milagre alemão foram pingando, muito ao de leve, à cautela, as diversas culturas das diversas gentes sobre o vasto tecido da cultura alemã.

 

Quando Armando Rodrigues de Sá, em Setembro de 1964, na estação ferroviária de Colónia-Deutz, é apanhado de surpresa pela receção estrondosa por ser o emigrante „Um milhão“, fica para a posteridade o seu olhar entre espanto e medo. Diante da fotografia interrogo-me: como vivia ele na sua aldeia de Vale de Medeiros, como e onde trabalhava, como o seu dia-a-dia? Sobrava-lhe do ganha-pão alguma coisita? Ia às procissões, festejava o santo padroeiro da sua freguesia, dançava nos bailaricos, jogava às cartas na taberna?  O que comia na ceia natalícia, pela Páscoa, nas desfolhadas? E a mulher? Fazia renda? Saberia talhar uma blusa simples, uma saia para o São João? Cantaria no coro da igrejinha ? Quais os hábitos culturais de Rodrigues de Sá e da sua família? Que trazia ele nos bolsos e na alma? E, naqueles primeiros meses de estranhamento, de novidades, de receios, de esperanças, como vivia ele? Ia adquirindo atitudes novas ou agarrava-se a hábitos enraizados, contactando colegas para saber onde comprar, boa e barata, comida portuguesa, descobrindo um centro ou uma missão para poder passar a tarde de domingo como sempre havia passado - e, antes dele, o pai e o avô - e poder falar, alto e sem pejo, o vernáculo aprendido no berço?

 

Os muitos Rodrigues - e os Silvas e os Costas, e as mulheres, os filhos e os cadilhos - vieram das suas terras, eram das suas terras. Vivendo em terra alheia (e sentindo-a, com algum sofrimento, como tal) o que podiam, o que queriam salvar da sua cultura? Quanto sobrava da dura labuta, do cansaço semanal? Como divulgar e promover aquilo que, à época, era somente lembrança, raiz e passado ?

 

 

Por uma cultura de memória

 

Assim surgem os centros. Pontos de encontro, lugares de diálogo e boa disposição, sociedades recreativas para bem dos seus sócios que ali procuram o que conhecem das suas terras, o que receiam esboroar-se para sempre. Ali convive-se, fala-se a nossa língua, trocam-se impressões sobre o país que nos recebeu (que nos chamou, que nos acolheu), sobre as políticas do nosso país e as politiquices da terra, bebe-se o café como sempre fizémos ou como fazemos quando vamos „para casa“. Reencontro com hábitos culturais, oportunidade para dar às gerações seguintes valores que nos são caros: as formas de tratamento, o modo de nos cumprimentarmos, o facto de haver programa para toda a família, grandes e pequenos - „aqui não vai cada um para seu lado“.

 

Existe uma vivência cultural nesses centros de acolhimento e recreação? Certamente que sim. Porque ali cultivamos memórias de vivências passadas, porque ali juntamos das várias regiões portuguesas costumes e falas, porque ali preservamos a língua materna e a doamos aos filhos - que notam não serem os únicos a falarem essa língua que „lá na minha escola ninguém entende“. E porque no meio de muitos há sempre alguns explodindo de ideias, criativos e cheios de boa vontade, surgem programas de Natal, organizam-se excursões, convida-se a comunidade para bailes, dançam velhos e novos em ranchos folclóricos, jovens praticam desporto, mãos de fada tecem rendas e malhas que serão vendidas em quermesses. Parece tudo isto só memória, revivalismo, afirmam vozes críticas. Mas só revigorando vivências próprias - e isso se faz dançando o corridinho, ouvindo guitarradas, procurando uma amostra antiga para um pano de mesa, declamando quadras brejeiras, cozinhando tripas -  só bem enraízados, estamos aptos a ganhar outras raízes. Só quando sabemos da nossa própria cultura, estamos aptos a compreender a dos outros, a mostrar a nossa aos de fora e a encarar a que nos rodeia com abertura e curiosidade.

 

Por uma cultura de abertura

 

Roídos de saudades fechamo-nos num casulo, trancamos o espírito a novos ares, usamos vendas que nos cegam. À nossa roda tudo é mau, vivemos em receios constantes que os nossos filhos adquiram novos modos e comportamentos estranhos. Se os centros oferecem à comunidade, por um lado, estabilidade, tradição, língua materna, eles tendem, por outro lado, a tornar-se guetos, fechados ao mundo e tratando este como ameaça às estruturas familiares e à identidade.

 

Nestes 50 anos a comunidade emigrante transformou-se em comunidade migrante: somos seres que se movimentam entre os países europeus, sem esperas nas fronteiras, sem mesmo notar que as há. E as gerações mais novas vão e vêm sem dificuldades, viajam entre espaços, sons e sentidos, agradecendo hoje aos pais terem eles teimado em preservar a língua materna na conversação familiar.

 

O projeto cultural mais fascinante da comunidade migrante reside no bilingualismo dos seus filhos. Aí se contabiliza o maior sucesso, demonstrando que é possível viver aberto à nova cultura sem descurar a herdada. E isto leva à coesão da comunidade cultural, pois prova existirem transmissores e recetores de língua e de hábitos, cujos papéis não estão claramente demarcados, pois também os filhos transmitem aos pais a língua e os hábitos do país onde todos vivem. Este intercâmbio não se dá sem conflitos. Ele deveria ser tematizado nos próprios centros, nos boletins, nos jornais da comunidade. Se, como disse José David Rosa, „ a língua é o que resta ao emigrante da sua identidade e o liga às suas origens“, ela terá de ser mais que preservada: terá de ser acarinhada. O ensino da língua materna continua a fazer sentido, centros e imprensa terão de dar espaço a atividades jornalísticas e literárias, que estas cresçam no seio da comunidade ou que venham de fora. Ao conhecer poetas e escritores e as suas obras, a comunidade torna-se sensível aos problemas do mundo e entra em debate com a própria identidade.

 

Se o alvo básico da emigração era ( e continua a ser) „uma vida melhor“, isto é, desafogo financeiro, garantia de futuro para os filhos, rendimento assegurado para a velhice, a vida do migrante acontece aqui e agora, o que implica um olhar interessado e aberto ao que se passa neste país. Implica um coração aberto a amizades aqui e agora. Cada migrante é, quer queira quer não, um embaixador do seu país, em certa medida responsável pela divulgação da sua imagem.

 

Por uma cultura de participação

 

Vivendo pois em espírito de abertura e curiosidade, a comunidade deseja participar. As diversas culturas e origens têm de ganhar visibilidade. Para o buffet da festa de verão da escola dos meus filhos levo duas travessas de pastéis de bacalhau. O conselho do centro dispõe-se a organizar com outras comunidades e com o pelouro da cultura da cidade uma feira das nações. Os meus filhos fazem-se sócios do grupo dos bombeiros voluntários. No centro oferece-se um curso de guitarra portuguesa onde não se olha à nacionalidade. As associações multiculturais, os eventos internacionais, os encontros entre as várias comunidades precisam do nosso contributo.

 

Assumindo nós um estatuto de cidadãos - ultrapassando pois o de consumidores de produtos e serviços - saímos da sombra. Tornamo-nos participativos e iniciadores. Porque nos vemos como membros activos no espaço em que vivemos: no mundo do trabalho, na vizinhança, nos contactos entre amigos. E mais: com uma biografia migrante, com raízes fora do espaço que habitamos, os nossos contactos transbordam desse mesmo espaço, espalham-se para lá do dia-a-dia. Vão e vêm de muitas formas. Novidades musicais que recomendamos a amigos alemães, leituras que nos fascinaram e que desejamos traduzidas. Os nossos filhos convidam colegas para passarem uns dias na praia da infância, com entusiasmo  (e para nosso espanto) fazem de cicerones. E em trabalhos escolares apresentam „Os Lusíadas“, dissertam sobre a guerra colonial, mostram documentos sobre o 25 de Abril.

 

Somos vistos como peritos em relação ao país de origem e isso deve levar-nos a estar de facto a par das artes, das letras, das ideias. Mas obriga também a própria comunidade, através das associações, a aprender e a reflectir sobre a própria cultura, a interessar-se sobre aquilo que se faz e pensa, em Portugal, na pintura, na literatura, na dança, no cinema, no teatro. Bem informados, munidos de conhecimentos, estamos aptos a participar.

 

Por uma cultura lusófona

 

Nos nossos percursos interculturais tecemos fios, desenrolamos meadas em muitas direcções: para trás (para o passado), para a frente (para as gerações vindouras), para os lados: para todos aqueles que connosco comungam de uma experiência de vida semelhante, de espaços geográficos aproximados, da mesma língua. Deste modo nos identificamos, na avaliação de certos hábitos alemães, com os mais migrantes, assim nos sentimos com nuestros hermanos simplesmente ibéricos ou nos recreamos, felizes e bem-dispostos, com os mais falantes do idioma português. Constituindo a língua a pedra angular para a identidade tanto individual como comunitária, ela contém todas as potencialidades para uma divulgação cultural visível numa sociedade multicultural, e, por vezes, muito dispersa.

 

Num mundo global é obsoleto agarrarmo-nos aos nossos „quintalinhos“. O intercâmbio entre as artes, as diferentes formas de expressão, entre estéticas provindas de vários pontos do globo, de diversas épocas conduz ao tal efeito sinergético, positivo em qualquer campo da sociedade. A apresentação da novíssima música aqui e agora poderá englobar sonoridades alentejanas, cambiantes do chorinho brasileiro ou rap moçambicano, num confronto criativo que toca as comunidades migrantes de expressão portuguesa e o público alemão, este  sempre disposto a captar novidades, a aproximar-se daquilo que ainda não conhece. Cada vez faz mais sentido existirem organizações de expressão portuguesa que espelhem e apresentem a surpreendente riqueza da cultura lusófona.

 

 

Exílios e artes

 

A vivência cultural da comunidade terá de se despedir definitivamente da letargia, dos preconceitos, das rotinas e rumar ao encontro de „ilhas desconhecidas“. Isso requer, por um lado, alicerces estáveis da própria bagagem cultural, seja ela mais de cariz popular ou mais de origem erudita. Por isso se insiste em ensinar a língua às próximas gerações, ensino esse que poderia ser alargado a cursos de cultura (ou de atualização cultural) para os jovens adultos. Uma dinamização no seio da comunidade passa por um sem-número de iniciativas, como sejam uma  boa biblioteca, saraus de poesia, sessões de cinema (o mercado português e brasileiro dispõem de muitíssimos filmes ), concursos literários, de fotografia, de pintura. A dinamização exige que as várias associações contactem entre si, que se juntem para iniciar eventos em várias cidades e buscar apoios nas instituições „de cá e de lá“. A dinamização surge em várias vertentes: abrir horizontes em relação aos países de expressão portuguesa, divulgar „aqui e agora“ o que „lá“ aconteceu e acontece, abrir-se ao que se passa „aqui e agora“, no espaço que habitamos, confrontar as expressões artísticas dos vários espaços, dar novas perspectivas às nossas próprias vivências e às dos outros que connosco lidam.

 

A arte tem o condão de ultrapassar as contingências do dia-a-dia. Ela própria, apesar de inserida na sociedade, sente-se de fora, pois não funciona em conformidade. Artistas são exilados, exilados do mundo normal, pois que vêem este com sensibilidade e perceção crítica. A poesia é lugar de exílio. Fundamentada em vivências de exílio, a comunidade migrante reage de modo sensível à expressão artística. Biografias interculturais - cheias de idas e vindas, de demandas e retornos - transbordam de paradoxos e contradições, de sonhos feitos e desfeitos. A experiência de exilados pode tornar-nos cabisbaixos, nostálgicos, deprimidos. Mas se há alguém que reverte esse exílio em palavras ou em imagens ou em movimentos ou em sons, toda a comunidade poderá, num processo de auto-reflexão, reconhecer-se e entender-se melhor, a si e aos outros.

 

Vejamos a emigração num contexto mais alargado: não somos nós os filhos daqueles que foram em demanda de novos mundos ?

 

As memórias, as línguas, os hábitos - tudo a dobrar - pesam-nos. E sentimo-nos como sentados entre duas cadeiras, sem nunca conseguir assentar mesmo. E se colocássemos as duas cadeiras em cima uma da outra ? Isso exige uma certa perícia, as duas cadeiras em equilíbrio, nós, com cautela, a subirmos e a instalarmo-nos. Uma vez sentados, perdemos o medo, respiramos fundo.

 

E lá de cima o nosso olhar circunda o espaço, abrange muitíssimo: o horizonte a perder de vista.

 

Luísa Costa Hölzl