Portugueses em França ainda vistos como “comunidade invisível” e “bons trabalhadores”

A comunidade portuguesa em França ainda é vista como "invisível e silenciosa", declarou o sociólogo Albano Cordeiro num colóquio sobre as migrações lusófonas a decorrer na Universidade Paris Diderot, na capital francesa.

O especialista da emigração portuguesa para França destacou que a comunidade portuguesa é historicamente considerada como "a mais invisível em França", apesar de "entre 1962 e 1975 ter passado de cinquenta mil pessoas a quase um milhão" e de o maior movimento associativo de França nos anos 1980 ser português.

"Uma das características da emigração portuguesa é que não havia contencioso entre portugueses e franceses, ao passo que ainda hoje se diz que a guerra da Argélia ainda não acabou. Na altura, dizia-se que os portugueses faziam de polícias entre eles para não cair nas bocas do mundo, o que os fazia passar desapercebidos no meio dos outros", justificou o investigador.

Também a imagem do português "bom trabalhador" ainda perdura em França, tendo a sua origem nos anos 1960 e 1970 quando "mais do que trabalhador, era preciso ser ‘bom trabalhador' para manter o seu lugar no mercado de trabalho francês", explicou à Lusa a socióloga Inês Espírito Santo.

"A figura do português imigrante que dá o máximo no trabalho é aceite como a característica coletiva da população portuguesa em França, sendo uma das referências a partir das quais os portugueses se posicionam em comparação com os outros trabalhadores", acrescentou a investigadora, referindo-se tanto aos que emigraram "antes como depois da integração na União Europeia".

Por seu lado, o historiador Victor Pereira destacou "o paradoxo" da diminuição do investimento no ensino do português em França, explicando que "o Governo, sujeito aos cortes, tentou reduzir o ensino do português no estrangeiro numa altura em que volta a haver um grande movimento de emigração".

O historiador reforçou o peso de França na emigração portuguesa, notando que "no fim do Estado Novo, havia mais portugueses em França do que portugueses europeus nas colónias após de cinco séculos de colonização".

Victor Pereira acrescentou à Lusa que, atualmente, "há mais pessoas que vão para Inglaterra, Luxemburgo ou Alemanha do que para os países das ex-colónias", mas ressalvando que "do ponto de vista simbólico é uma coisa muito forte que 40 anos depois do 25 de abril e da descolonização, haja agora emigração para Angola".

Hoje, "Portugal está a deixar fugir uma parte da mão-de-obra qualificada e Angola beneficia dessa mais-valia exterior sem precisar de formar a população", apontou à Lusa a investigadora Irene dos Santos, também oradora no colóquio, sublinhando que "esse é um dos pontos críticos da questão da exportação de mão-de-obra qualificada para estes países".

No entanto, a investigadora destacou que "entre os jovens que emigram para Angola, há uma certa proporção com uma ligação ao país porque são descendentes de retornados e procuram instalar-se e integrar-se na sociedade angolana".

Em debate no colóquio vão estar, também, as migrações moçambicanas dos jovens de Maputo para a cidade de Joanesburgo, o peso dos empresários ismaelitas em Angola e a produção de imagens sobre as migrações no cinema.

O colóquio intitulado "Os espaços da migração lusófona: circulações, regulações e representações", decorre hoje e na sexta-feira, em Paris, e é organizado pelo polo de investigação sobre as migrações - Urmis - sob a tutela das universidades Paris Diderot, Nice Antipolis, Institut de recherche pour le développement e do Centre national de la recherche scientifique.

 

CAYB // VM

Lusa/Fim