Há filhos de emigrantes que não sonham com férias na aldeia portuguesa

Aldeia do Talasnal
Aldeia do Talasnal

Nem todos os portugueses que vivem em França passam o ano a sonhar com as férias na terra, em Portugal, nem com a viagem de longas horas num carro abarrotado de bagagens, nem com os bailes da aldeia ao ritmo do "Meu Querido Mês de Agosto" de Dino Meira.

Léa Ribeiro Pedro ainda se lembra "das viagens que duravam vinte horas de carro" quando tinha entre 12 e 16 anos, com destino a Alenquer, no distrito de Lisboa, e hoje não consegue imaginar passar todo o mês de agosto em Portugal.

"As férias são para viajar para os Estados Unidos ou para a Ásia, visitar outros continentes e ver outros países", disse à Lusa a advogada de 37 anos, que admitiu, porém, que nos últimos dois anos vai de férias a Portugal 15 dias porque os pais foram "de vez" para Portugal passar a reforma.

Léa nasceu em França, viveu em Portugal dos cinco aos doze anos, mas acabou por regressar a Paris com os pais e só voltar a atravessar a Espanha nos verões, como descreveu em português fluente.

"Ao princípio, quando chegava a Portugal, incomodava-me aquela imagem do português um bocado analfabeto que não tem estudos, que vive em dez metros quadrados em França e que tem casas muito grandes com piscina em Portugal e carros muito bons. Hoje as coisas mudaram, vivemos de uma maneira completamente diferente dos nossos pais e não temos a mesma ideia de regresso a Portugal", acrescenta a advogada cujo escritório está ao pé do Consulado português num dos bairros mais chiques de Paris.

Léa Ribeiro Pedro é membro da Confraria dos Financeiros de Paris, um "think tank" que congrega a segunda geração de portugueses em França, presidido por Roger Carvalho, também presidente da SPTEC Advisory, uma consultora independente na indústria do petróleo e gás natural em África e no Médio Oriente.

Filho de portugueses que se instalaram em França nos anos 70, Roger nasceu em terras gaulesas, e admite que até vai de férias a Amarante "no mês de agosto" porque é o único momento em que se reúnem "primos e tios espalhados pelo mundo", mas garante que não fica o mês todo na terra da família.

"Passo lá uns dias, mas depois vou para o Porto, Lisboa, Braga, Algarve... Dei a volta completa a Portugal, de norte a sul, de lés-a-lés. Tive numa das aldeias mais típicas de Portugal, em Viseu, onde a eletricidade só chegou em mil novecentos e noventa e pico. Estive em sítios perdidos no norte de Portugal, onde muitas pessoas nunca tinham saído da terra. Fui a Castelo Branco saber o que é uma bica, que não é um café", descreve, em português, sem quaisquer atropelos gramaticais.

A descoberta de Portugal, graças às férias e aos dois anos em que viveu no país, não chegam para pensar em comprar uma casa na terra dos avós porque "herdar é uma coisa, mas não faz sentido nenhum comprar nessas terras. É uma perda de dinheiro. Faz sentido investir em Lisboa ou no Porto, fora daí é completamente ineficiente".

Alda Pereira-Lemaître também começou, recentemente, a pensar na possibilidade de investir em "Lisboa, Coimbra ou numa cidade com vida e oferta cultural", mas nem lhe passa pela cabeça comprar na aldeia de Vales do Rio, no concelho da Covilhã, onde nasceu.

Os seus pais trocaram a miséria e a ditadura de Salazar pela esperança de uma vida melhor em França, e Alda emigrou com apenas três anos, em 1968, tendo mesmo passado por um bairro de lata em Nanterre, na periferia de Paris.

Muitos anos depois abraçou a política, foi eleita presidente da câmara de Noisy-le-Sec (2008-2010) com as cores socialistas e hoje é a líder do Parti de Gauche na cidade.

"Há cerca de oito anos que não vou à aldeia onde nasci. Fui sempre enquanto os meus avós estavam vivos. Agora, quando vou a Portugal, quero descobrir outras terras. Tenho a curiosidade que os nossos pais não tinham porque eles iam só para o local onde tinham deixado a família", conta.

Os pais de Alda arrendaram a casa de Vales do Rio e a casa de família passou a ser um apartamento na Figueira da Foz, onde Alda tenta ir uma vez por ano, mas raramente no verão.

"Claro que há o risco de se perder um pouco de história. É preciso manter um elo que permita o respeito pela memória dos nossos pais e pela nossa própria história", admite, em francês, a língua que adotou como materna, para ela e para os filhos.

Lusa