I Guerra Mundial: Alemanha pediu apoio dos EUA face a clima antialemão em Portugal

Em agosto de 1914, numa Europa já em guerra, Portugal mantinha-se ainda fora do grande conflito, mas os sentimentos antigermânicos já eram sentidos em Lisboa, segundo documentos históricos divulgados recentemente pela diplomacia norte-americana.

A 01 de agosto de 1914, a Alemanha declara guerra à Rússia, dando início à Primeira Guerra Mundial. Dias depois, as autoridades alemãs solicitaram a ajuda da representação diplomática norte-americana em Lisboa para proteger os interesses e os cidadãos germânicos em Portugal, caso o Governo português decidisse juntar-se à Tríplice Entente (aliança entre França, Grã-Bretanha, Rússia) e declarar guerra à Alemanha.

A informação consta num dos vários documentos diplomáticos relativos ao ano de 1914 que foram recentemente disponibilizados pelo arquivo histórico do Departamento de Estado dos Estados Unidos.

Numa missiva, datada de 10 de agosto mas que só chegaria a Washington no dia 25 desse mesmo mês, o então encarregado de negócios da representação norte-americana em Portugal, James G. Bailey, informava o Secretário de Estado sobre uma conversa confidencial que manteve com o embaixador alemão em Lisboa Friedrich Rosen.

“O embaixador alemão contactou-me e durante uma conversa confidencial disse que, no caso de o Governo português se unir à Tríplice Entente numa declaração de guerra contra a Alemanha, tinha instruções do Governo alemão para entregar os arquivos da representação alemã e confiar a proteção dos cidadãos alemães e dos seus interesses em Portugal à nossa missão diplomática”, escreveu Bailey.

Na carta, o encarregado de negócios norte-americano mencionava que as autoridades alemãs acreditavam que Portugal ia avançar com uma declaração de guerra, devido a um “forte sentimento antigermânico” que surgia no seio da sociedade portuguesa.

“É da opinião do embaixador alemão, bem como de muitos outros aqui, que o Governo português irá declarar guerra. Há um forte sentimento antigermânico entre o povo português como é claramente evidenciado pelas muitas demonstrações entusiasmadas e emotivas (…) em favor da Inglaterra e da França e contra a Alemanha”, indicou o documento do acervo histórico, referindo igualmente a postura da imprensa portuguesa que manifestava “uma tendência de inflamar as massas a favor da guerra”.

No documento diplomático, James G. Bailey mencionou um incidente ocorrido nesse mês em Lisboa que envolveu cerca de 400 cidadãos alemães procedentes das colónias portuguesas.

Citando uma testemunha do incidente, o representante diplomático contou que os cidadãos, na véspera da sua partida para a Alemanha, “foram assobiados, vaiados e apedrejados por uma multidão excitada e indisciplinada”.

Na mesma missiva, James G. Bailey relatou as várias movimentações políticas que ocorriam naquela altura em Lisboa, que assumia, até então, “uma atitude de neutralidade”, mas que estava ligada aos compromissos de “um antigo tratado” com a Inglaterra.

Um desses requisitos, segundo o documento, era ajudar a Inglaterra, em caso de guerra, “com o envio de pelo menos 10 mil soldados bem armados e equipados”.

Nos meses seguintes, Washington recebeu vários documentos assinados pelo então embaixador norte-americano Thomas Howard Birch a relatar as movimentações portuguesas.

Numa missiva, enviada a 09 de outubro, Birch referiu, após uma reunião no Ministério dos Negócios Estrangeiros português, que Portugal ia “indiscutivelmente entrar na guerra europeia”, assim que o exército nacional estivesse reorganizado.

No mesmo documento, o representante norte-americano indicava que Lisboa aguardava a convocação do aliado inglês para prestar auxílio.

“Existe entre os Governos dos dois países um entendimento de origem recente que Inglaterra irá fazer o pedido (…), assim que o exército português, que neste momento parece estar a passar por uma reorganização, esteja pronto para entrar no conflito”, mencionou Birch.

Em resposta, Washington pedia, num telegrama com data de 28 de outubro, um relatório completo se Portugal avançasse com a declaração de guerra.

Cerca de um mês depois, Birch comunicava que o Parlamento português tinha aprovado, por unanimidade, uma resolução a autorizar o então Presidente português, Manuel Arriaga, “a intervir militarmente no presente conflito armado internacional quando e na forma que julgar necessária para os altos interesses [do país] e deveres como nação livre e aliada da Inglaterra, adotando para esse fim medidas extraordinárias exigidas pelas circunstâncias de momento”.

Uma resolução que permitia a Portugal, segundo o documento norte-americano, ter os privilégios de um país neutral, ao mesmo tempo que fornecia ajuda sem declarar guerra.

A Alemanha acabaria por declarar guerra a Portugal a 09 de março de 1916. No ano seguinte, em abril, os Estados Unidos entram no conflito mundial, que se prolongou até 1918.

Lusa