Dia de Santo António - Um Americano no Arraial das Avenidas Novas

Fala ao Portugal Post sobre o seu projecto de solidariedade social

 

No site da Luso-Turca anunciava-se o arraial da Refood nas avenidas novas de Lisboa, no cruzamento entre as Avenidas Visconde Valmor e Conde Valmor, nas imediações da Gulbenkian. Passei por lá sem grandes expectativas, num estando de férias e já que era uma sexta-feira, dia 13, e dia de Santo António, porque não, vamos daí para o arraial, afinal sou lisboeta de gema, embora «exilada» em terras germânicas, melhor dizendo - prussianas. Com tanta coincidência de datas, não esquecendo as festas das bruxas, quem sabe o que poderia surpreender!

Nos bancos de rua, um grupo de pessoas necessitadas esperava, impaciente, pela abertura do evento, enquanto umas senhoras da paróquia de Nossa Senhora do Rosário de Fátima se atarefavam à volta de uma mesa comprida, reminiscente da Última Ceia de Da Vinci. Também homens de várias idades movimentavam-se azafamadamente, preparando as mesas, os pratos com salgadinhos, organizando as bebidas não alcoólicas, enquanto dois chefes cozinheiros da Travel Flavours, um deles - o Fábio Bernardino, e duas colaboradores preparavam os churrascos para a sardinhas, as febras, etc. As decorações típicas das festas lisboetas, as luzes e um pequeno palco faziam prever divertimento, dança e convívio. Um vestido de noiva vestia um manequim de provas de alfaiate ou modista colocado frente ao escaparate com mangericos e lembrava os noivos de Santo António.

Mas quem eram estas senhoras, jovens raparigas, homens e rapazes? Eram voluntários de uma organização, que aproveita o que os outros desperdiçam para os dar a famílias necessitadas, um projecto iniciado na antiga frequesia de Nossa Senhora de Fátima por Hunter Halder, um americano que vive em Lisboa há mais de vinte anos.

Hunter chegou de de bicicleta, fato azul, camisa branca e chapéu de palhinha muito oxfordiano. Sorriu um largo sorriso na direcção do arraial e apercebi-me imediatamente que estava perante um homem muito especial. O seu olhar de um azul luminoso irradiava bondade e visão. Uma pessoa que quando acredita num projecto, o realiza e que, facilmente, contagia com o seu entusiasmo . «É a única organização deste tipo no país», afirmou em entrevista ao Portugal Post. O seu filho, Christopher Pinheiro, foi o co-fundador da Refood, no dia 9 de Março de 2010. A associação baseia-se num modelo de aplicação micro-local. «Moro aqui na na freguesia de Nossa Senhora de Fátima» precisou Hunter. «Aproveitamos as sobras e não os restos dos restaurantes da freguesia de Nossa Senhora de Fátima para os dar a famílias necessitadas», realçando que «a distinção é importante».

«Actualmente, existem núcleos da Refood em várias freguesias de Lisboa, no Porto, em Braga, em Almancil, Albufeira, Faro e muitos outros lugares. Com um total de 745 pessoas activas no projecto». São os géneros cedidos e o voluntarismo que viabilizam este projecto. «Aqui não há dinheiro» afirma uma outra voluntária.

Hunter é oriundo de Greensboro, Carolina do Norte, na Costa Leste dos EUA. Frequentou a igreja católica local, St Benedict, primeiro como menino de coro - «como uma voz terrível» disse, sorrindo, e após um prolongado interregno, voltou ao coro já com 35 anos de idade. Os membros da igreja ofereceram-lhe uma viagem a Fátima e veio a Portugal em peregrinação. Por amor, de que nasceu um filho, ficou no nosso país. O amor findou, o filho ficou, e uma ideia nova nasceu da suas observações. Viu que sobrava comida nos restaurantes da freguesia onde vive e que essa comida era deitada fora enquanto muitas pessoas passavam fome. Teve então a ideia de aproveitar essas sobras e distribuí-las para alimentar famílias necessitadas.

Os que o apoiam neste projecto são todos voluntários, trabalhando conforme a sua disponibilidade. A igreja de Nossa Senhora do Rosário de Fátima cedeu instalações onde as refeições são distribuídas todos os dias. Dadores ofereceram os frigoríficos para guardar a comida. Começaram por recolher os alimentos dos restaurantes de bicicleta. Um número crescente de restaurantes foram aderindo a esta ideia. «E agora já fazemos a ronda dos restaurentes de carro», afirmou uma das voluntárias.

No arraial da sardinhada, no Dia de Santo António, os restaurantes locais não só proporcionaram sobras como disponibilizaram mesas e cadeiras para o convívio. Ficou demonstrado «ser possível ajudar o próximo sem esperar ajudas estatais» e que a boa vontade e o trabalho de muitos são o motor da Refood, além de muita compaixão e solidariedade com o próximo. Como disse uma das colaboradoras,« as pessoas que vêm ter connosco não precisam provar os rendimentos que auferem, basta registarem-se para sabermos quantas refeições vamos servir». «Mas existe muita pobreza envergonhada» afirmou uma outra colaboradora.

Entretanto chegara o presidente da freguesia com a música e o baile começou; voluntários e convidados dançaram juntos. Aqueles rostos tristes e carentes de mimos do início, sorriam agora alegres e alimentados. E até aquele que, inicialmente, chegara algo zangado e zaragateara estava feliz e dançava energetica e empenhadamente.

Cristina Dangerfield-Vogt em Lisboa