Alemanha assegura o seu bem-estar à custa de parceiros mais fracos

Investigador Viriato Soromenho Marques
Investigador Viriato Soromenho Marques

A gestão que a Alemanha faz da crise europeia visa assegurar o seu bem-estar à custa de parceiros mais fracos, resultando numa desagregação que ameaça o futuro da Europa, alerta o investigador Viriato Soromenho Marques.

No livro “Portugal na queda da Europa”, com lançamento marcado para 02 de junho, o professor catedrático da Universidade de Lisboa acusa Berlim de ter agravado a crise ao “lançar o pânico no mercado da dívida pública”, recusar reformar as regras da zona euro e impor uma política de austeridade que beneficiou os bancos e as empresas alemães.

Isso aconteceu, explica, porque depois de rebentar a crise, a equidistância entre os Estados membros assegurada pelos tratados diminuiu e as decisões passaram a ser impostas por um “soberano” – a Alemanha - que “ocupa o centro do palco decisório”.

“É uma proximidade excessiva, marcada pelo medo, pelo sussurro que não sai da sala de reuniões. No conselho europeu sente-se o hálito do ‘soberano’”, escreve no livro, editado pela Temas e Debates.

Um exemplo desta “nova hegemonia” alemã foi a assinatura do Tratado Orçamental: “Portugal e outros países ‘resgatados’ assinaram o Tratamento Orçamental com a pistola da bancarrota apontada à cabeça”, ou seja, sob a ameaça de perderem o financiamento do Mecanismo Europeu de Estabilidade.

A causa da crise, defende, não está nos mercados, que “reinam” graças ao “voluntário silenciamento das políticas públicas de regulação”, mas sim “no funcionamento medíocre da democracia, que cedeu mais à sedução dos poderosos do que à defesa do povo e dos mais necessitados”.

Essa “atuação egoísta” revelou-se vantajosa para a Alemanha, que aumentou as exportações para fora da Europa graças à baixa do valor do euro em relação ao dólar, recapitalizou a sua banca graças à fuga de poupanças dos países mais afetados e beneficiou do “efeito de pânico” que fez cair os juros pagos pelas obrigações da dívida pública alemã para valores negativos.

A atuação da Alemanha criou, por outro lado, uma descrença das opiniões públicas na Europa: “O que Berlim de um modo autista se tem recusado a perceber é que a manutenção da ‘disciplina’ da austeridade, que tem estado ao serviço exclusivo dos credores (…) está a incendiar os povos afetados não contra a Alemanha, mas contra a própria ideia de Europa como segunda pátria comum”.

A UE sofre assim de uma “doença autoimune”, em que aumentam as críticas ao ideal europeu, partidos e movimentos mobilizam-se contra o apoio a outros países, crescem as aspirações secessionistas e “os militantes do ódio” entram em parlamentos nacionais.

Acusando Bruxelas de “cumplicidade” com a Alemanha e os restantes Estados-membros de “anemia”, Soromenho Marques critica também o governo português, afirmando que “o modo como assumiu a causa e a narrativa imoral dos credores (…) ficará nos anais da vergonha, nacional e europeia”.

“Portugal deve reerguer-se e travar, com os aliados que conseguir federar em torno de propostas comuns, uma luta sem tréguas pela Europa”, defende.

“A Europa está em queda, mas ainda não se despedaçou”, escreve, apontando “duas certezas” no atual contexto de incerteza.

A certeza de que, face a todos os desafios, “uma Europa solidária, democrática e federal estará mais apta a ter sucesso do que uma Europa fragmentada e empobrecida, regressada às fronteiras nacionais, percorrida por rancores, esmagada por dívidas e ressentimentos”.

E de que “o interesse comum” precisa de ser “encontrado nos consensos que só os diálogos informados, e em condições de perfeita igualdade, permitem construir”, escreve, defendendo um diálogo “em todos os países e em todos os palcos por essa Europa fora”.

 Lusa