Book Review por Sílvia Melo-Pfeifer: Muros de liberdade / Mauern der Freiheit

Capa da edição portuguesa
Capa da edição portuguesa

Faltava, na paisagem editorial portuguesa e alemã, uma obra que exaltasse a memória visual do Portugal dos “sonhos pintados” no pós-revolução os cravos. Todavia, os textos que acompanham a reprodução visual das pinturas e das inscrições murais de Lisboa pós-1974 referem sistematicamente a suposta atualidade político-social da mensagem de outrora, bem como a emergência de novas formas (ou formatos!) de consciência e de consciencialização política.

Sendo uma obra que remete para uma época, não deixa de incluir no seu sub-título a evocação do presente (“As imagens esquecidas de Lisboa e o clamor de hoje” ou, na versão alemã, “Lissabons vergessene Bilder und der Aufschrei Heute”). “Muros da Liberdade/Mauern der Freiheit” procura o diálogo político-social com a atualidade, conforme sublinham, na Introdução, os dois organizadores ou, no Prefácio, o ex-Presidente da República, Dr. Mário Soares.

Esta obra remete-nos para o seu espaço e o seu tempo – o Portugal pós-25 de abril, e para uma estética de influência socialista-comunista na forma como retrata, por exemplo, os gestos considerados revolucionários ou a força operária. Os elementos visuais polarizam, sem ambiguidades, o designado Bem contra o Mal, que poderíamos entender, à luz das dinâmicas históricas que dão forma ao Presente, por Socialismo/Comunismo e Capitalismo, respetivamente. As fotografias reproduzidas captam com invulgar qualidade e valor estético o simbolismo destas duas tendências e os processos de metaforização e de hiperbolização com que aquele antagonismo foi pintado no Pós-25 de abril português.

O primeiro capítulo, “O que nos contam as paredes da Europa”, de Viriato Soromenho-Marques, apresenta-nos uma visão disfórica da evolução da Europa, atualmente marcada por palavras-chave como “défice”, “resgate” ou “austeridade”. Numa Europa sem práticas de boa governação e com instituições que não primam pela transparência, concede o autor, é preciso angariar “semeadores de futuro” e de alternativas.

Karl-Eckard Carius, no capítulo “Geração à deriva. Desembarcar num compromisso com o futuro”, propõe-nos um diálogo com Peter Weiss (autor de “A Estética da Resistência”) em torno da pintura “A Jangada da Medusa”, de Géricaud. É um diálogo a, pelo menos, três vozes e entre três tempos, que dá conta de “naufrágios” em diferentes tempos e espaços: o do sonho fraternalista francês, o da utopia pós-revolucionária portuguesa e o do destino único europeu.

Lídia Jorge propõe-nos a visualização de “três filmes na parede”. O mote é sinestésico e simbólico: o branco da cegueira e da mordaça (a não-visão e a não-voz, respetivamente), o azul do lápis censurador, as cores garridas da revolução e as cores garridas dos sons da revolução, tudo agora irrecuperável, esvaziado de sentido e “deslocalizado” para a periferia das ideias.

Em “O coro silencioso. Retratos de grupo com figura inesperada”, de Teresa Salema, somos confrontados com as ironias da história e dos seus ritmos e com as desorientadas fusões de silêncios e de polifonias sincronizadas. O coro silêncioso remete para os silêncios e para as mega-manifestações sem voz e sem consequências, porque sem vozes dissonantes e sem novas interrogações.

Capa da edição alemã
Capa da edição alemã

Segue-se a secção “Muros de liberdade. As imagens esquecidas”, em que se reproduzem, quase sem comentário, as fotografias de Karl-Eckhard Carius, Ferdinand Joesten e de Alfred Kottek. São imagens que, na opinião dos organizadores, documentam o processo de Revolução dos Cravos de 1974, não rendendo “homenagem a uma concepção do mundo socialista ou comunista, mas à força e à coragem da mudança” (página 59, na edição portuguesa). Claro que, na ânsia de diálogo com a atualidade, o que se diz não é apenas o que se diz e, à luz do dialogismo procurado, há um segundo nível de interpretação que é preciso desenterrar da arqueologia das intenções anunciadas.

Aquela ânsia de encetar um diálogo entre o espírito de abril e a necessidade de “ousar mudar”, pode ser reiterada através dos capítulos que dão continuidade à obra: “O que significa hoje a revolução dos cravos portuguesa?” (de Frieder Otto Wolf), “A nova ditadura” (de Sahra Wagenknecht), “A estética da crise” (de Eva Berendsen), “Um Banksy sem valor” (de Daniel Oliveira) e “Algumas ideias sobre o trabalho em torno de ideias insolúveis” (de Bazon Brock).

Frieder Otto Wolf reconsidera e recontextualiza algumas das lições do 25 de abril português, assim como alguns conceitos-chave dessa altura (“transição socialista”, “zona de influência”, “imperialismo”, “burguesia”), que adquiriram novos sentidos e estão sujeitos a novas metamorfoses (desde logo político-partidárias). Sahra Wagenknecht fala-nos da moderna ditadura dos mercados financeiros, comandada, na sua opinião, pela Alemanha. Eva Berendsen e Daniel Oliveira referem-se a emergentes formas de protesto: a primeira, comentando Pussy Riot e Femen, marcadas pela paradoxal resistência sexuada das mulheres contra o sexismo; o segundo, comentando o ativismo social do artista Banksy. Finalmente, Bazon Brock prevê novas formas de consolidação e de vivência comunitária, já não em torno de questões como as pertenças religiosas ou linguísticas, mas em torno de problemas insolúveis, como os lixos radioativos.

O diálogo Passado-Presente-Futuro projeta, nesta obra, uma espécie de “saudade do futuro”, comprometido que está pela surdina inutilizada do Presente e pela incapacidade de aprender com os sonhos (que a isso se resumem afinal) do Passado.

Ficha técnica:

Coordenadores: Karl-Eckhard Carius & Viriato Soromenho-Marques.

Editoras: Esfera do Caos (edição portuguesa ISBN 978-989-680-107-6) e Wesfäalisches Dampfboot (edição alemã ISBN 978-3-89691-957-1).

Ano: 2014.

Preço: 15,90 (edição portuguesa) / 27,90 Euros (edição alemã).