Europeias: História explica ausência da extrema-direita em Portugal e na Alemanha

O crescimento previsto da extrema-direita poderá marcar as eleições europeias deste mês, mas nem todos os países têm partidos extremistas fortes por razões históricas como é o caso português, disseram especialistas à Lusa.

Em países como a França, a Áustria ou a Hungria, as sondagens preveem que movimentos de extrema-direita obtenham mais de 20% dos votos. Pelo contrário, não há qualquer partido de extrema-direita com votações significativas em Portugal, em Espanha ou na Alemanha.

“A Alemanha continua a ter uma sensibilidade muito maior que outros países quanto ao nacionalismo e à xenofobia como resultado da II Guerra Mundial e como produto do chamado 'Vergangenheitsbewältigung', ou seja, a forma como a Alemanha olha para o seu passado, com muita culpa coletiva”, disse à Lusa Cas Mudde, investigador holandês que estuda a extrema-direita europeia.

Essa “culpa coletiva” não é tão forte na Áustria, permitindo que o partido austríaco de extrema-direita (FPÖ) tenha obtido mais de um quinto dos votos nas eleições legislativas do ano passado, afirmou Ruth Wodak, diretora para a Áustria do Observatório Europeu do Racismo, da Xenofobia e do Anti-semitismo.

Pelo contrário, na Alemanha o partido neonazi NPD teve apenas 1,2% dos votos nas eleições legislativas de setembro passado.

A história também pesa para explicar a ausência de extremismos de direita na Península Ibérica. Wodak nota que Portugal e Espanha “tiveram ditaduras fascistas com Salazar e Franco, a que se seguiram grandes movimentos de libertação”, cujo impacto impediu a ascensão da extrema-direita.

Um argumento que não serve para explicar a ascensão da extrema-direita é a crise económica. Entre os cinco países mais diretamente afetados pela crise do euro (Portugal, Espanha, Grécia, Chipre, Irlanda), só na Grécia é que se registou a ascensão de um movimento radical de direita, o Aurora Dourada.

No resto da Europa, não são preocupações económicas que levam os eleitores a optar por estes movimentos, afirma Cas Mudde: “Para os eleitores que votam na extrema-direita as preocupações económicas tendem a ser secundárias. São mobilizados pelas políticas e pela retórica anti-imigração e anti-UE. Os eleitores não olham para a extrema-direita como forma de resolver a crise.”

Ruth Wodak concorda: “No meu trabalho noto sempre que não pode fazer-se uma ligação causal simples entre crise económica e ascensão da extrema-direita. Na Grécia pode ser esse o caso, mas a direita grega sempre teve uma história particular”, afirma a investigadora austríaca.

 

Lusa