Manuel Alegre acusa Governo de "trair" Abril e diz que a Europa está "desvirtuada”

O ex-candidato à presidência da República Manuel Alegre acusou o Governo de "trair" Abril e considerou que a Europa está desvirtuada por se ter "transformado" num "império do capitalismo financeiro", apelidando a Comissão Europeia de "serventuária" dos mercados financeiros.

Em Braga, na quinta-feira à noite para uma sessão de celebração dos 40 anos do 25 de Abril e em declarações à agência Lusa, Manuel Alegre afirmou também que a vinda da 'troika' a Portugal é um "atentado" à (nossa) democracia, revelando que "nos próximos dias" vai ser dado a conhecer um abaixo-assinado no qual Alegre, Soares, João Semedo e outras personalidades se manifestam contra aquilo que chamou de "despudor" por parte da Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional.

O ex-deputado socialista questionou ainda o que celebra o Governo ao "festejar" o fim do programa de assistência financeira, que considerou ser "uma mentira", se aquilo que fica no pós-troika é "pobreza, cortes e falta de perspetivas" para o futuro.

"Abril está a ser traído porque Abril não era só liberdade, era também a igualdade e era, sobretudo, além dos direitos políticos, os direitos sociais e o Estado Social, que está a ser desfeito ou reduzido ao mínimo por este Governo", disse.

"Está a celebrar o quê? Pobreza? Cortes de salários? Cortes de reformas? O facto de os jovens serem obrigados a emigrar? Não haver perspectivas de futuro? É isso que estão a celebrar? É esse o Abril deles? Isto é uma traição ao 25 de Abril", reafirmou.

Para o "poeta de Abril", a Europa vive também uma crise de valores.

"O projeto da Europa está a ser desvirtuado, a Europa está desvirtuada desde o Tratado de Maastricht ", alertou.

Desvirtuamento que, explanou, "foi agravado com o tratado de Lisboa quando se diminuiu o peso institucional dos países pequenos e médios na medida em que se acabou com a decisão por unanimidade".

Segundo Alegre, "se isso não tivesse acontecido Portugal e a Grécia não estariam na situação em que estavam porque tinham o direito de veto e o poder negocial".

Por isso, disse, "a Europa deixou de ser um projeto de prosperidade e de paz partilhada entre Estados iguais, soberanos, para se transformar num império do capitalismo financeiro dos países mais fortes e sobretudo da Alemanha".

Para Alegre, os programas de ajustamento "são uma mentira porque são uma forma de empobrecer os países, de desvalorizar o trabalho e de oferecer possibilidades de negócios aos chamados mercados, que são uma nova forma de totalitarismo moderno".

Além disso, para o ex-dirigente do PS são os mercados financeiros que "mandam", isto "através do Banco Central Europeu, através das Comissão Europeia, serventuária dos interesses dos mercados e através do FMI".

Aliás, para Manuel Alegre a vinda destas três entidades a Portugal, não é benéfica.

"É um despudor, uma vergonha. Um atentado à nossa soberania e à nossa democracia. Está a decorrer um abaixo-assinado contra essa desvergonha, que será apresentado nos próximos dias e é assinado por mim, pelo Mário Soares, pelo João Semedo, entre outros nomes", anunciou. 

Lusa