“Portugal im Jahre Null” do Fotógrafo Michael Ruetz

Foto: Herbert Schlemmer
Foto: Herbert Schlemmer

A inauguração da exposição de fotografias com o título “Portugal no Ano Zero” teve lugar no Foyer, da Willy- Brandt- Haus, em Berlim, no passado dia 24 de Abril, com a presença do Embaixador de Portugal, Luís de Almeida Sampaio, de Klaus Wettig, antigo membro do parlamento europeu e autor, e do fotógrafo Michael Ruetz. A interpretação do evento foi feita por Sarita Brandt.

O público, principalmente alemão, contava muitos membros do círculo de amigos da Willy-Brand-Haus. O discurso de Klaus Wettig concentrou-se no historial do SDP e no papel fundamental deste partido no apoio à fundação do Partido Socialista português, em 19 de Abril de 1973, na cidade de Münstereifel, e a sua contribuição para a derrota da ditadura portuguesa. Além de focar a inserção em termos de política internacional da revolução portuguesa, chamou a atenção para o facto de Portugal ter sido um gatilho para as mudanças de regime que se seguiram, veja-se, Espanha e Grécia, e mais tarde o Brasil, terminando com a Queda da República Democrática Alemã e a Reunificação das duas Alemanhas. E deixou no ar uma pergunta interessante “onde estavam os serviços secretos naquela noite em que uma revolução acaba com uma ditadura de quarenta e oito anos?”

 

 Luís de Almeida Sampaio num discurso mais curto falou da revolução democrática do 25 de Abril de 1974 que veio pôr fim ao trágico isolamento de Portugal e iniciou um processo de integração na Europa. Contou ainda a sua vinda a Berlim na altura da Queda do Muro. “Saí de Bruxelas de carro e viajei toda a noite para vir celebrar com os berlinenses aquele importante marco da sua história”. Referiu também os desequilíbrios que prevalecem em Portugal, em especial o desemprego jovem. Afirmou que “estamos a vencer a crise”. E alertou para o perigo que os eurocépticos e os eurocríticos representam e a necessidades de encontrar soluções sustentáveis que “só são possíveis num quadro de aprofundamento da integração europeia”. Frisou ainda que Portugal é “uma vitória europeia importante para derrotar o populismo e a oposição fácil”. Mencionou os desafios que a União Europeia enfrenta. “Os dramas da história europeia já mostraram a importância da liberdade, da paz, da segurança e da estabilidade que são frágeis e precisam de esforços quotidianos para aprofundar a união e a proteger da instabilidade dos vizinhos do Leste”. Terminou dizendo que “à luz da nossa revolução de Abril, posso dizer que Portugal faz parte do ideal europeu”.

 

 Mais tarde o Portugal Post teve oportunidade de conversar com o fotógrafo, Michael Ruetz, fotojornalista da revista Stern de 1969-1974. Michael Ruetz ficou célebre pelas suas fotos do movimento estudantil. Recebeu vários prémios fotográficos, entre eles, o da Villa Massimo em Itália. Fotografou no Chile a queda de Allende, esteve na Guiné-Bissau durante a guerra de libertação para fotografar, e saiu de lá “chocado e sem fotos”. A partir de 1974 trabalhou como independente e afirma ver-se como fotógrafo e não como fotojornalista. Mário Soares foi para ele um “Allende ressuscitado” e acompanhou-o durante a campanha eleitoral de 1975 para o que viriam a ser as primeiras eleições democráticas pós-ditadura. As suas fotos a preto e branco com luz nocturna, muitas com rostos de populares, e apenas alguns da burguesia intelectual lisboeta são um testemunho histórico muito parcial. Em muitas das fotografias ressalta o populismo e a simpatia de Mário Soares durante a campanha eleitoral no Alentejo e no Algarve. Uma foto de Maria Barroso lembra a Maria da Fonte ou Catarina Eufémia. Os rostos crispados dos populares cheios de fervor revolucionário são visíveis em muitas das fotos. Mas também uma alegria quase feroz de poder finalmente mostrar sentimentos em público no meio das multidões, essas emoções que foram reprimidas durante quarenta e oito longos anos. E é esta emocionalidade pública proibida durante a ditadura, em plena explosão nos comícios e ajuntamentos de pessoas, que o fotógrafo transmite; instantes apanhados pelo clique da máquina que a eterniza. Momentos que segundo ele “foram momentos suspensos” entre a revolução e o que estava para vir. Alguns poemas de Manuel Alegre afixados ao lado das fotografias e traduzidos para o alemão reforçam aqueles momentos de grande euforia e esperança portuguesas. A exposição é nitidamente orientada politicamente para a social-democracia que o SDP alemão apoiou. Ficaram fora destes trabalhos fotográficos todos os outros instantes, daquele período suspenso, e que foram igualmente importantes e determinantes na época. Quase se poderia pensar que para além da social-democracia mais nada teria existido na paisagem política da época, para além de uns escassos murais do MRPP e outros em pano de fundo.

A exposição está aberta ao público na Willy-Brandt-Haus até 1 de Junho.

 

Cristina Dangerfield-Vogt

Berlim