“Portugal é dos países mais felizes do mundo”, diz jovem chinês nascido e criado no país

Filho de emigrantes chineses, nascido e criado em Portugal, há 26 anos, Alexandre Zheng Zhe está agora em Pequim a ensinar português a chineses que vão trabalhar para países lusófonos.

"Nunca pensei vir a ensinar português na China!", contou Alexandre Zheng Zhe após uma aula de um curso intensivo para duas dezenas de técnicos de uma grande construtora estatal chinesa, na Universidade de Estudos Estrangeiros de Pequim (Beiwai).

Alexandre, o nome que lhe foi dado por uma ama timorense, ensina português a chineses que vão trabalhar para Angola, Brasil e outros países lusófonos, com os quais a China tem crescentes laços económicos e comerciais.

"É fantástico", exclamou, afirmando que está a gostar da inesperada experiência, mas, por ora, dar aulas é um ‘part-time'.

Formado em Gestão pela Universidade Católica do Porto, Alexandre chegou a Pequim em setembro passado para fazer um mestrado em Relações Internacionais numa das mais prestigiadas universidades chinesas.

"Apesar de ter uma internet fechada, a China é mais aberta do que se pensa. Os chineses são livres em tudo menos na política", disse.

As relações pessoais, no entanto, "não são tão fáceis como no Porto", onde viveu a maior parte da vida.

Alexandre Zheng Zhe nasceu em Viana do Castelo. Os pais, um casal de comerciantes da província de Zhejiang, leste da China, emigraram para Portugal na década de 1980.

"Sou 50% chinês e 50% português", afirmou Alexandre. "O meu melhor amigo é português".

Entre as famílias chinesas radicadas em Portugal, ele faz parte da chamada "geração do meio", aquela que "ainda se lembra das tradições dos pais, mas adapta-se à comunidade local".

Na sua casa, fala-se chinês e a comida chinesa é a base da alimentação, mas em dezembro também se faz a árvore de Natal e trocam-se presentes.

Como "todos" os seus amigos, Alexandre é adepto do Futebol Clube do Porto, aprecia bife com batatas fritas e gosta de música portuguesa, nomeadamente de Pedro Abrunhosa.

"Uma das primeiras vezes que fui a Lisboa foi para ver o Porto jogar com o Benfica", contou. "Ganhámos".

Além de português e chinês, Alexandre fala fluentemente inglês. O mestrado, realizado na Universidade Qinghua, termina em 2015.

"Nesta fase, ainda não sei onde será o meu futuro", disse. "Pode ser aqui, em Portugal, em Angola ou no Brasil. Gosto de pensar que sou um cidadão global".

Mas para a "segunda metade da vida", Alexandre não tem dúvidas: será em Portugal, que considerou "um dos países mais felizes do mundo".

A entrevista decorreu num café com ‘wi-fi' onde o acesso à internet é feito através de uma VPN (Virtual Private Network), o que permite fugir à chamada Grande ‘Firewall' da China.

"Aqui pode-se ir ao Facebook", realçou um cliente habitual, referindo-se a uma das páginas da Internet ocidentais bloqueadas pelas autoridades chinesas.

Confrontado com o exemplo de Garry Lock, o primeiro norte-americano de origem chinesa nomeado embaixador dos EUA na China, em 2011, Alexandre respondeu: "Seria uma honra poder um dia fazer qualquer coisa pelo desenvolvimento das relações entre Portugal e a China".

A carreira diplomática não está, aliás, fora das suas ambições: "Não desgostava, não. Para quem estuda Relações Internacionais isso está sempre presente", disse.

Quanto à "principal qualidade" de uma e outra cultura, Alexandre indicou "a capacidade de dedicação dos chineses" e "o saber viver dos portugueses".

"Os chineses dedicam-se muito ao trabalho, à educação dos filhos, a tudo. Se não fosse isso, a China não estaria onde está hoje. Os portugueses vivem mais para a satisfação pessoal", considerou.

 

AC // VM

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