25 Abril: E o fado sobreviveu à revolução

O 25 de Abril de 1974 "ameaçou" o fado enquanto canção nacional, pela conotação ao fascismo e ser associado à trilogia “Fado, Futebol e Fátima” do Estado Novo.

Com a Revolução dos Cravos, o fado perdeu espaço na televisão e na rádio e a canção de intervenção, que apareceu a partir do início da década de 60, ganhou mais força.

O musicólogo Rui Vieira Nery lembrou a hostilidade que o fado sofreu após a Revolução dos Cravos, "quer da esquerda quer da manipulação de alguma direita".

"O que acontece é que, com o 25 de Abril, esta atitude hostil acaba por ser a atitude do poder democrático", observou, rememorando que "a partir do fim dos anos 40", essa marginalização já existia, "por parte da oposição democrática que cresceu à medida que o Estado Novo crescia".

O curioso é que, assinalou Nery, o regime de Salazar "não tinha simpatia nenhuma pelo fado e até discutiu muito se o havia de aceitar na Emissora Nacional".

"O regime começou a colar-se muito ao fado e a tentar manipular os conteúdos poéticos. E a promover, através do fado, uma imagem de resignação ao destino, de tradicionalismo, antimodernismo", salientou.

Após o regime ter sido deposto, a "hostilidade" era "muito grande", nomeadamente a partir "de 11 de março de 1975, altura em que todas as rádios foram nacionalizadas".

"O fado não acabou, mas dizia-se que, quando os últimos grandes fadistas morressem, que o género iria desaparecer. Mas, até ao 25 de novembro de 1975, do ponto de vista político, há uma aversão muito grande institucionalizada ao fado", notou Nery, que presidiu à Comissão Científica da Candidatura do Fado a património cultural imaterial da humanidade.

Filho do guitarrista Raul Nery, que acompanhou Amália, o musicólogo sublinhou que havia "um novo poder que acreditava que ele [fado] desapareceria por si próprio, porque seria de um regime deposto".

Expoente máximo da canção nacional, Amália Rodrigues, recordou Nery, chegou "a ser acusada de ser agente da PIDE" e "deixou de ter contratos em Portugal" após o golpe de estado do movimento de capitães.

"Há uma campanha muito grande contra Amália. Nessa altura, ninguém lhe dava ouvidos. Amália teve a sorte de encontrar no estrangeiro um agente, Jean-Pierre Lafaye, que relança a carreira internacional dela", recordou Nery.

Neste contexto, Carlos do Carmo foi "uma grande exceção, porque era um homem ligado a setores da oposição democrática e, além de nunca ter sido conotado com o regime, era considerado um bom fadista para os setores de esquerda".

Nery recordou a edição do disco de Carlos do Carmo "Um Homem na Cidade", em 1977, e recuperou a memória de, no ano anterior, "ele ter sido o único intérprete do Festival da Canção, algumas delas fado ou próximas do fado".

"De certa maneira, isso contribuiu para que não haja uma condenação global, que haja algum tipo de fado que é aberto ou que continua a ter espaço", frisou.

O musicólogo notou que, a partir dos anos 80, o fado começou a emergir "com uma nova geração de jovens fadistas, gente que era criança aquando do 25 de Abril de 1974 e do processo revolucionário".

O fado ganhou fulgor e, em novembro de 2011, a UNESCO certificou-o como património imaterial da humanidade.

Lusa