25 de Abril - Portugal regressa à Sopa dos Pobres e à Cozinha Económica

Quarenta anos depois do 25 de Abril, Portugal regressou ao modelo da Sopa dos Pobres e da Cozinha Económica com as atuais cantinas comunitárias, um cenário que o presidente da Cáritas julgava não voltar a acontecer.

“Era impensável que, passados 40 anos, pudéssemos estar a ter necessidade de respostas como estas”, lamentou Eugénio Fonseca em declarações à Lusa, a propósito do 40.º aniversário do 25 de Abril.

A Sociedade Protetora das Cozinhas Económicas de Lisboa foi criada em 1893, por Maria Luísa de Sousa Holstein Beck, duquesa de Palmela, para ajudar a população carenciada com refeições a preços módicos.

Vinte e cinco anos depois, e com o agravamento das condições de vida causado pela I Guerra Mundial, foi criada a Sopa dos Pobres pelo então Presidente, Sidónio Pais, que ficou também conhecida como a ‘Sopa do Sidónio’.

O presidente da Cáritas Portugal lembrou que o “25 de Abril foi criado para que não voltasse a haver situações” como a atual, “de os cidadãos precisarem de recorrer à satisfação de necessidades tão elementares como é o acesso à alimentação”.

Contudo, defendeu que não há necessidade de se recorrer a métodos utilizados antes da revolução, quando não havia uma consciência mais nítida dos direitos das pessoas, e que se deve acautelar o respeito por cada cidadão.

“Se estas respostas contribuem para menorizar as pessoas, para as inferiorizar, para criar condições de dependência, não estamos dentro do espírito para que Abril surgiu, que é a salvaguarda de direitos elementares das pessoas”, acrescentou Eugénio Fonseca.

Afirmando estar a falar-se de serviços que emergem com maior frequência em contextos de grande precariedade social e económica “como o que se está a viver”, o presidente da Cáritas ressalvou ser importante não haver dúvidas de que “é necessário, em muitas situações, responder de forma tão básica como esta de assegurar a alimentação das pessoas”.

Eugénio Fonseca considerou que “muita coisa melhorou” nestes 40 anos e que, por isso mesmo, havia condições para, no quadro da democracia, evitar as graves desigualdades sociais que se registam hoje em Portugal.

“A democracia devia ter-nos possibilitado as condições para que a riqueza produzida fosse distribuída com maior equidade. Essa penso que foi uma das fragilidades deste regime democrático que vivemos neste momento”, afirmou.

Também em declarações à Lusa, o presidente da Associação Nacional de Combate à Pobreza, Fernando Almeida, disse nunca ter visto uma situação de carências como a que existe agora.

“Há muitas famílias em dificuldade. E não é só o pobrezinho. Esse já era e continua a ser. É a classe média/baixa e alguns da média/alta, que tinham uma vida relativamente boa e viram-se de repente sem emprego e sem meios de subsistência”, afirmou.
“São os novos pobres. Estão a viver um bocadinho melhor com essa ajuda”, acrescentou.

Para Fernando Almeida, Portugal está “quase a ter uma outra classe social – os miseráveis – que não existia antes”.

“Dantes, havia uma quantidade razoável de pobres, mas as pessoas não morriam à fome e hoje pouco falta. Temos famílias inteiras a viver com o rendimento mínimo e com crianças”, frisou.

Fernando Almeida disse que são cada vez mais as pessoas que recorrem à associação porque não têm dinheiro para comer.
Da parte da Legião da Boa Vontade, Eduarda Pereira disse que o Programa de Atendimento da Família daquela instituição teve um aumento de 40% dos pedidos desde 2008/09.

Afirmando que a situação “piorou muito” nos últimos anos e que “há mais pessoas a pedir ajuda”, Eduarda Pereira indicou que a Legião da Boa Vontade atende anualmente 15 mil pessoas.

 

Marta Clemente / Lusa