25 de Abril - MFA levou revolução e cultura ao interior

O 25 de Abril levou espetáculos e cultura democrática ao interior de Portugal, num impulso de mudança em que o Movimento das Forças Armadas (MFA) também abriu estradas e realizou melhoramentos ainda na memória das populações.

O 25 de Abril levou espetáculos e cultura democrática ao interior de Portugal, num impulso de mudança em que o Movimento das Forças Armadas (MFA) também abriu estradas e realizou outros melhoramentos ainda na memória das populações.

 

Citando o escritor José Cardoso Pires, a investigadora Sónia Vespeira de Almeida define este período, de 1974 a 1976, como “toda uma nação em movimento”, percorrida por um conjunto de experiências promovidas pelo MFA, partidos e outras organizações.

 

Além das iniciativas dos militares, como as Campanhas de Dinamização Cultural e Ação Cívica, outras ações foram promovidas por “diferentes agentes, grupos, por vezes informais, e entidades estatais”, com destaque para as Campanhas de Alfabetização e Educação Sanitária (dirigidas pela Pró-União Nacional dos Estudantes Portugueses), o Serviço Ambulatório de Apoio Local, o Serviço Cívico Estudantil e o Serviço Médico na Periferia.

 

Para compreender as campanhas do MFA, “importa, desde logo, situá-las no contexto mais alargado dos diferentes movimentos de ‘desocultamento’ e intervenção no país que ocorreram na conjuntura revolucionária”, afirmou Sónia Almeida à agência Lusa.

 

Iniciadas em outubro de 1974, as campanhas tinham uma direção militar – a Comissão Dinamizadora Central (Codice) – coordenada por Ramiro Correia, a quem sucedeu Manuel Begonha no ano seguinte.

 

“Com a ocorrência do golpe contrarrevolucionário do 28 de setembro de 1974 e a queda do general Spínola, que sempre se opôs a que os militares saíssem dos quartéis, estavam criadas as condições para enviar as Forças Armadas para o terreno”, recordou à Lusa o comandante da Marinha Manuel Begonha, agora reformado.

 

Coordenadas pela Codice, em colaboração com organismos do Estado, como a Direção-Geral da Cultura Popular e Espetáculos, estas campanhas tiveram “contornos específicos, uma vez que congregaram militares e civis num projeto comum”, salientou Sónia Almeida.

 

Realizadas sobretudo em meios rurais do Norte e do Centro, “funcionaram, de certa forma, como uma revolução portátil”, afirmou a antropóloga, docente da Universidade Nova de Lisboa.

 

MFA e civis apostavam “no objetivo geral de, em conjunto, construírem a revolução com um suporte cultural julgado indispensável”, realçou também Manuel Begonha.

 

Nos primeiros meses da revolução, os militares “eram cada vez mais solicitados a dirimir questões laborais”, recordou.

 

Entre outros objetivos, a iniciativa visou “demonstrar que o 25 de Abril tinha dimensão nacional” e desencorajar eventuais “tentações da Espanha franquista de intervir militarmente” em Portugal.

 

Era admissível “uma certa perplexidade, senão desconfiança”, quanto ao papel dos militares na revolução, “atendendo a que, num passado recente, apareciam como um dos sustentáculos do regime devido ao seu envolvimento” na guerra colonial.

 

Segundo o antigo coordenador da Codice, o MFA queria ainda “credibilizar perante o povo português a disciplina, coesão e capacidade” das Forças Armadas.
Demonstrar que o MFA “não era apenas constituído por oficiais, mas igualmente por sargentos e praças”, era outro dos objetivos.

 

O escritor comunista Modesto Navarro, mais tarde presidente da Assembleia Municipal de Lisboa, trabalhava na Codice, enquanto funcionário da Direção-Geral da Cultura Popular.

 

“Ao mesmo tempo que se fazia aquele trabalho de esclarecimento cultural e cívico, foram formadas muitas associações e comissões de moradores, a partir das populações, mas também havia essa parte concreta do desenvolvimento económico e social”, referiu.

 

Para Modesto Navarro, o balanço das Campanhas de Dinamização do MFA “é profundamente positivo”.

 

Foi levado o progresso a muitas aldeias que “não tinham iluminação, saneamento básico, nem água corrente ou mesmo estradas”, disse.

 

Além de ter promovido o esclarecimento político das populações, a Codice interveio em diferentes áreas: infraestruturas, saúde, veterinária, agricultura, desporto, artes plásticas, teatro, cinema, música e dança.

 

“Nós nunca levámos uma arma para as campanhas”, assegurou Manuel Begonha.

 

 

Casimiro Simões / Lusa