25 de Abril - Poucos recordam Mário Soares em São Tomé e a culpa é da PIDE

“Ninguém podia falar com ele porque a polícia não deixava, eu até tinha medo mesmo de ver a varanda de casa dele”, disse à Lusa Ângelo Carneiro, 76 anos, um dos poucos são-tomenses que conheceram de facto o então advogado oposicionista de Salazar.

Durante oito meses de exílio em São Tomé, em 1968, Mário Soares viveu vigiado permanentemente pela polícia política do Estado Novo, que manteve os são-tomenses à distância de tal forma que hoje poucos se lembram da sua presença.

“Ninguém podia falar com ele porque a polícia não deixava, eu até tinha medo mesmo de ver a varanda de casa dele”, disse à Lusa Ângelo Carneiro, 76 anos, um dos poucos são-tomenses que conheceram de facto o então advogado oposicionista de Salazar.

Depois de ter sido várias vezes detido pelas suas atividades contra o regime, Soares foi acusado de ter passado informações para um jornalista inglês sobre o então denominado escândalo “Ballet Rose”, uma rede de prostituição que envolvia figuras do Estado Novo.

Mário Soares foi deportado para São Tomé e Príncipe em 1968, durante oito meses, e motivou vários apelos públicos para a sua libertação.

Exemplo disso foi o abaixo-assinado com um milhar de subscritores, liderado por Salgado Zenha e Vasco da Gama Fernandes (futuros dirigentes do PS), que exigia a libertação de Soares, considerando a deportação um ato “inconstitucional, arbitrário e desumano, por violar os princípios mais elementares de um Estado de direito e de justiça”.

“Como se sabe, o dr. Mário Soares, conhecido líder democrata e socialista foi deportado em março último para a ilha de S. Tomé, no Golfo da Guiné (África Equatorial), por tempo ilimitado, depois de ter sido preso pela PIDE a qual reconheceu não poder deduzir nenhuma acusação criminal em tribunal contra ele”, podia ler-se no abaixo-assinado.

A sua deportação foi polémica porque resultou de uma decisão do Conselho de Ministros, “sem julgamento nem culpa formada e sem sequer lhe ter sido assegurado o direito de defesa”.

Na ilha, vigiado noite e dia por três agentes da polícia política, Mário Soares vivia num dos apartamentos do chamado Prédio de Náutico, no centro da cidade de São Tomé, ocupado atualmente pela STEP Up, uma Organização Não Governantal (ONG) vocacionada para dar formação a crianças e adolescentes desprovidos de meios.

“Eu passava lá, era ainda no tempo da PIDE. Eu era jardineiro na casa de um branco que morava na marginal, perto do museu”, recordou Ângelo Carneiro à Lusa.

“Com o passar dos anos ninguém ou muito pouca gente ainda se recorda de que Mário Soares viveu neste apartamento”, acrescentou.

Durante muitos anos, o apartamento usado por Soares, um T2, estava sob a alçada da embaixada e “foi restituído posteriormente ao Instituto de Habitação que o cedeu à STEP Up”, disse fonte do Ministério das Obras Públicas, Infraestruturas e Recursos Naturais são-tomense.

Durante a sua presença na ilha, Soares recebeu o apoio de Fernando de Angolares, um português que viveu mais de 40 anos em São Tomé e faleceu no final de 2013.

Proprietário de algumas canoas de pesca com motor e cerca de uma centena de cabeças de gado, Fernando de Angolares chegou mesmo a fornecer alimentos a Soares e a outros deportados por razões políticas.

 

Manuel Barros / Lusa