25 Abril: Judeus eram um corpo estranho à sociedade há 40 anos

Lisboa, 24 mar (Lusa) – A vice-presidente da Comunidade Israelita de Portugal considera que o 25 de Abril de 1974 abriu caminho ao reconhecimento de uma comunidade que já tinha liberdade de culto, mas era considerada “um corpo estranho à sociedade”.

"Até ao 25 de Abril, a comunidade judaica tinha liberdade de culto, mas era considerada um corpo estranho à sociedade", disse a agência Lusa Ester Mucznik, também fundadora da Associação Portuguesa de Estudos Judaicos.

Mucznik destacou como datas marcantes nestas quatro décadas de democracia o pedido de perdão de Mário Soares aos judeus (1989), a sua visita, a primeira de um Presidente da República português, à sinagoga (1993), a revogação do édito de expulsão dos judeus (1996), a implantação de um memorial aos judeus vítimas do massacre de 1506 e o reconhecimento do direito à nacionalidade portuguesa dos descendentes dos judeus sefarditas.

Para a representante da comunidade judaica de Portugal, são acontecimentos "que mostram abertura e uma visão mais lata das coisas", mas que "não resolvem tudo".

Segundo Ester Mucznik, havia destacadas personalidades que se sabia serem judeus, mas faltava uma "representação coletiva pública" da comunidade, que contava na altura da realização do primeiro Censos com perguntas sobre a questão religiosa, em 1981, cerca de 5.500 pessoas.

Reconhecida desde 1912, a comunidade judaica só foi reconhecida como igreja pela Lei da Liberdade Religiosa de 2001.

Para Ester Mucznik, a aprovação da lei de 2001 é um dos maiores marcos em termos de liberdade religiosa nos 40 anos da democracia portuguesa.

"É o reconhecimento de um estatuto legal equivalente ao da Igreja Católica. As comunidades judaica, muçulmana, hindu ou outras poderem ser consideradas 'pessoas coletivas religiosas'", sublinhou.

A revolução de 25 de Abril trouxe, segundo Ester Mucznik, "um novo olhar sobre o passado de Portugal e sobre as heranças judaica e árabe" e começaram a surgir estudos e pedidos de esclarecimento e intervenções que deram visibilidade e consciência da importância destas duas comunidades.

Reconhecendo que Portugal continua maioritariamente católico e que persiste na sociedade o desconhecimento sobre as religiões minoritárias, Ester Mucznik considera que foi feito um longo caminho desde a altura em que, ainda criança, o seu nome causava choque e provocava risos.

"Portugal não estava habituado a não ter só Rodrigues, Costas e Silvas", disse, acrescentando que a descolonização teve neste percurso um papel significativo.

"Veio muita gente, muçulmanos, hindus... Foi um passo importante, as pessoas confrontaram-se com o diferente", considerou.

Por tudo isto, Portugal tornou-se, em matéria de liberdade religiosa, um país "bastante exemplar", onde as "diferentes religiões convivem de uma forma relativamente harmoniosa", adiantou.

Ainda assim, Ester Mucznik advertiu que "as questões da liberdade religiosa nunca estão resolvidas", sendo preciso "estar sempre vigilante e alerta".

"As coisas são muito lentas e longas e o processo das mentalidades ainda mais. Há riscos de retrocesso. Há conquistas muito importantes, mas nenhuma é irreversível", disse, considerando preocupantes os sinais do crescimento do antissemitismo na Europa.

Um estudo recente da Agência dos Direitos Fundamentais da UE (FRA) revela que três em cada quatro judeus (76%) consideram que os sentimentos antissemitas cresceram nos últimos cinco anos na União Europeia.

"Mesmo em Portugal, sem haver o antissemitismo racial que se sente em França ou na Alemanha, ainda há os estereótipos do antijudaísmo medieval ligados ao dinheiro", disse.

Hoje, reduzidos a pouco mais de 3.000 judeus (Censos 2011), o principal desafio da comunidade passa, segundo Mucznik, por conseguir manter a especificidade sem se fechar num "gueto".

"Numa sociedade democrática e livre, uma boa integração, que todos desejamos, é também uma porta aberta para a assimilação", acrescentou, sustentando que a resposta passa pela educação para a cultura e a religião judaicas.

Lusa