Se em 2014 lhe fossem concedidos quatro desejos... Eu pedia o seguinte:

Neste ano de 2014, acrescento uma comemoração pessoal ao cinquentenário do acordo de emigração de Portugal para a Alemanha: faz 25 anos que vim viver para a Alemanha.

Na divertida designação de um amigo, sou uma “Algarvia”: esses portugueses que conheceram um alemão de férias em Portugal, e acabaram como emigrantes na Alemanha. Foi o que me aconteceu: deixei na minha terra um muito bom emprego, a família e os amigos, e lancei-me à aventura.

Encontrei um país bem mais conservador que o meu – no Serviço de Emprego tiraram-me as ilusões de que poderia arranjar um emprego compatível com as minhas habilitações e experiência profissional (“isso que a senhora quer fazer é trabalho para homens, alemães e pertencentes aos quadros superiores das empresas”), e a sociedade cuidou de me fazer compreender que me devia dar por satisfeita por “me deixarem trabalhar apesar de ser mãe”. Encontrei também um país que funciona com bastante eficiência, a começar pelo prodígio de autocarros que têm um horário e o cumprem, mas que às vezes é enervante porque o reverso da medalha é a incapacidade de improvisar e de permitir excepções às regras, por muito justificadas que sejam. De um modo geral, gosto muito de viver na Alemanha, e sinto o contacto quotidiano com esta cultura e esta maneira de estar na vida como um enriquecimento pessoal. Confrontar-me com o que é diferente nos alemães revela-me os hábitos que trazia de Portugal e dava por naturais, e leva-me a fazer escolhas mais conscientes.

Ao fim de 25 anos a viver neste país, pergunto-me se sou mais portuguesa ou alemã. Os amigos portugueses não têm dúvidas: sou alemã. Os amigos alemães também não: sou portuguesa. Sem querer, fui arrumada por todos numa situação de cidadã de segunda – não pertenço a lugar nenhum, e tenho algumas desvantagens em relação aos meus compatriotas em Portugal e aos meus concidadãos na Alemanha. Dentre essas, as maiores são as ligadas ao exercício de cidadania: durante todos os anos em que não morei numa cidade com Consulado, estive obrigada a tirar um dia de férias e a percorrer longas - e caras – distâncias para resolver as questões mais simples: inscrever-me no Consulado, registar-me como eleitora, votar nas eleições presidenciais, passar uma procuração, registar os filhos como cidadãos portugueses. Por esse motivo, acabei por não registar os meus filhos como portugueses: todos os dias de férias eram poucos para matar saudades de Portugal, e não queria usar um deles para fazer uma longa viagem até ao Consulado, esperar eternidades com um recém-nascido ao colo, e irritar-me com as secretárias que troçavam do aspecto das pessoas, e o responsável do Registo que chamava “santinha” e “filhinha de Deus” às emigrantes que era suposto servir (espero bem que a situação entretanto tenha melhorado nesse Consulado do Sul da Alemanha – e acrescento que não tenho razão de queixa em relação ao da cidade onde agora moro).

Um quarto de século, no meu caso, e meio século, no caso das comunidades portuguesas na Alemanha, são uma boa ocasião para olhar para a vida e fazer contas. Pergunto: se neste ano de 2014 nos saísse um génio da garrafa, e nos concedesse quatro desejos (um a ser realizado pelo Governo e o Parlamento português, outro pela Embaixada e os Consulados, outro pelas várias entidades ligadas à comunidade portuguesa na Alemanha, e o quarto pelos outros portugueses, emigrantes como nós) – o que pediríamos?

 

Eu pedia o seguinte:

 

- Ao Governo e ao Parlamento: permitam o voto por correspondência (ou então presencial, mas na autarquia da residência do eleitor) em todas as eleições – é uma violência obrigar um emigrante a percorrer várias centenas de quilómetros para exercer o seu direito de voto.

- À Embaixada e aos Consulados: criem a possibilidade de resolver pelo correio o maior número possível de problemas, estabelecendo acordos com as autarquias alemãs, para que os funcionários alemães da área de residência do emigrante português procedam à identificação da pessoa e respectiva validação dos documentos. Trocando por miúdos: para eu me inscrever no consulado, ou para declarar mudança de morada, ou para me registar como eleitora, ou até para declarar o nascimento de um filho, devia ser possível preencher o respectivo formulário e assiná-lo na presença de um funcionário da minha Junta de Freguesia, que comprovaria a minha identidade e enviaria ele próprio os documentos ao Consulado português.

- Às entidades ligadas à comunidade portuguesa: se só posso fazer um pedido, dos tantos que teria para tantas entidades, dirijo-o às companhias de aviação que têm voos para Portugal: criem a possibilidade de bilhetes a “preços de emigrante”, mais acessíveis, para lugares em stand-by. A companhia pouco perde, e para emigrantes com poucas posses é uma enorme ajuda.

- Aos emigrantes: esqueçam os “combates de galos”, e estendam a mão a outros emigrantes como vós, como nós todos, unindo esforços em prol do bem-estar das pessoas da comunidade. Usemos a nossa energia para melhorar a vida de todos, em vez de a usarmos uns contra os outros.

 

Estes são os desejos que eu formularia, aproveitando o ensejo deste ano de comemorações. E os leitores do Portugal Post? O que gostariam de pedir?

Quem quiser fazer sugestões, deve enviar a sua mensagem directamente para este jornal (Portugal Post, Burgholzstr. 43, 44145 Dortmund) ou para editorial@portugalpost.de. Se assim o entender, pode também juntar algum testemunho pessoal, fotografias e documentos históricos, e pedir, se quiser, que esse contributo seja publicado sob anonimato.

A síntese das respostas vai ser publicada em Setembro, e será com certeza uma boa oportunidade para ajudar a resolver alguns dos problemas com que os emigrantes se debatem.

 

Helena Araújo