O divertimento tranquilo de Fan Weixin, o tradutor chinês de Saramago

Fan Weixin, o tradutor chinês de José Saramago, já tinha decidido adotar o "pacato ritmo de vida de um reformado" quando um amigo o desafiou para traduzir mais um romance do Nobel português.

"Este é o livro irmão de 'Ensaio sobre a Cegueira'. Se não fores tu a traduzi-lo, quem irá fazê-lo?", disse o amigo, deixando-lhe em cima da mesa um exemplar de "Ensaio sobre a Lucidez".

A cena passou-se em 2008. Fan Weixin, então com 68 anos, já estava reformado da secção portuguesa da Rádio Internacional da China: "A minha profissão é o jornalismo. Não sou um tradutor profissional".

Fan Weixin acabou por aceitar o desafio: "Traduzi 'Ensaio sobre a Lucidez' sem pressa e sem perturbar o ritmo de vida de um reformado", contou o tradutor à agência Lusa.

Ao contrário do que fizera uma década antes com "Ensaio sobre a Cegueira" - a segunda obra de Saramago que traduziu, depois de "Memorial do Convento" - desta vez, Fan Weixin traduzia "apenas uma ou duas horas por dia, no máximo três".

"Mantive segredo absoluto sobre a tradução e não pensava na edição", disse. "Se um parágrafo era fácil passava à frente, se era difícil traduzia-o logo".

A tradução, lançada hoje pela editora Thinkingdom Media Group no âmbito de uma coleção dedicada a "Novos Clássicos" que inclui obras de Garcia Marques e Murakami, demorou cerca de quatro anos.

"Foi um passatempo", afirmou o tradutor.

Para Fan Weixin, aquele ritmo de trabalho era uma experiência nova. Quando trabalhava na Rádio Internacional da China, a tradução literária ocupava todas as suas horas livres e feriados: "No início era um divertimento, mas depois não me contive".

Desde o final da década de 1970, traduziu mais de uma dezena de obras de outros autores portugueses e brasileiros, entre os quais Jorge Amado, Erico Veríssimo, Eça de Queiroz, Miguel Torga e Manuel da Fonseca.

A tradução de "Memorial do Convento" foi lançada em Pequim em 1997, com a presença de Saramago, e no mesmo ano, Fan Weixin foi condecorado pelo Presidente português, Jorge Sampaio.

"Saramago assume-se como um contador de histórias e tem, de facto, uma extraordinária imaginação", afirma Fan Weixin.

O "Memorial do Convento", que a Thinkingdom Media Group pensa incluir no seu catálogo, já teve várias edições, uma das quais pirata.

Em Hong Kong, e depois em Pequim, duas companhias adaptaram "Ensaio sobre a Cegueira" ao teatro.

Fan Weixin conheceu Saramago em Lisboa em 1988, através de Jorge Amado.

Num jantar em casa do escritor português, Saramago perguntou-lhe se queria traduzir o "Memorial do Convento".

"Ainda não", respondeu Fan Weixin. "Não quero estragar a sua obra".

Não estragou: em 1998, o ano em que Saramago ganhou o Prémio Nobel da Literatura, a tradução chinesa de "Memorial do Convento" foi distinguida com o Prémio Lu Xun Arco-Íris, atribuído pela Associação de Escritores da China.

Lusa