Primeira mercearia judaica em Portugal aposta no turismo para crescer

A primeira mercearia judaica portuguesa nasceu há um ano para "preencher o vazio" de produtos "kosher" e de conhecimentos de judaismo em Portugal. Chama-se Shofar, funciona "online", mas aposta nos turistas judeus para crescer e ganhar espaço físico.

"A comunidade israelita e judaica em Portugal é muito pequena, mas o turismo está a aumentar", disse à agência Lusa Júlio Engelstein, um dos fundadores.

Nascido no Brasil, Júlio Engelstein viveu durante mais de 20 anos em Israel. Professor, há sete anos, na sequência de um ano sabático em Portugal, foi convidado para dar aulas na Comunidade Israelita de Lisboa.

Por cá ficou e, em fevereiro do ano passado, decidiu avançar, juntamente com uma outra judia radicada há largos anos em Portugal, Ana Albuquerque, para o lançamento da primeira mercearia judaica portuguesa.

"Shofar é um chifre de carneiro, um instrumento de toque, que se toca nas festas judaicas. É um elemento para lembrar aos judeus qual é o caminho correto e para trazer as pessoas para esse caminho", explicou.

Vinho, azeite, pão e queijo são, para já, os produtos "kasher" ou "kosher" (confecionados de acordo com a lei judaica) disponíveis na Shofar, que vende também livros e outros produtos relacionados com a cultura e religião judaicas.

"Estes produtos vêm suprir a falta de conhecimento que há em Portugal", disse.

"Apesar de Portugal ter uma grande raiz judaica e de muitos portugueses terem uma costela judaica - mesmo sem o saberem - o que é ser judeu ainda é uma coisa muito estranha para muitos portugueses", acrescentou.

Por isso, o objetivo dos dois sócios é também mostrar a cultura judaica aos portugueses.

Tendo como público-alvo a comunidade de pouco mais de 3.000 mil judeus que vivem em Portugal, Júlio Engelstein quer também suscitar o interesse da generalidade dos portugueses e sobretudo conquistar os turistas judeus, que visitam Portugal cada vez em maior número.

"Muita gente, às vezes, não vem para Portugal porque existe uma necessidade, para quem é religioso e praticante, deste tipo de comida", disse.

Adiantou que tem recebido pedidos de informações e até encomendas de grandes cadeias de hotéis interessadas em ter cozinha "kosher" e, assim, atrair turistas praticantes do judaísmo.

Alguns dos produtos kosher à venda na Shofar já são feitos em Portugal, mas Júlio Engelstein quer desenvolver novos produtos.

Por isso, têm contactado algumas empresas que possam estar interessadas em desenvolvê-los.

"O mercado português ainda não pode suportar a transformação total de uma empresa não 'kosher' para 'kosher', mas, se pensarmos que existem comunidades judaicas fora daqui, o mercado de exportação é grande", defendeu.

Para já estão em conversações com duas quintas interessadas em desenvolver vinhos "kosher", um processo longo, mas que Júlio Engelstein acredita que irá correr bem.

A fabricação de produtos "kosher" ou "kasher" (que literalmente significa próprio ou correto) obedece a um conjunto de leis judaicas relativas à comida e bebida ("kashrut").

Entre outras coisas, o "kashrut" proíbe o consumo de porco, marisco e peixes sem escamas.

Os animais permitidos só poderão ser ingeridos se forem abatidos de acordo com a lei judaica (com um golpe na jugular para minimizar o sofrimento do animal e drenar completamente o sangue).

A carne não pode ser misturada com leite e, mesmo os utensílios que estiveram em contacto com carne, não podem estar em contacto com o leite e vice-versa.

Todos os processos de confeção e fabrico terão de ser certificados por um rabino.

Com um volume de negócios ainda pequeno, Júlio Engelstein sonha que, dentro de um ano, a "Shofar tenha muito mais produtos", que seja possível abrir um espaço físico "para que as pessoas possam comprar os produtos", e que haja "uma maior sensibilidade dos portugueses, no conhecimento e apreciação dos produtos judaicos".

Lusa