Investigadores portugueses na Alemanha

No dia 16 de novembro participei no 1º Congresso que a ASPPA, a recém-criada Associação de Pós Graduados Portugueses na Alemanha, realizou em Berlim. Por muito diferentes que fossemos todos os que ali nos encontrávamos, tínhamos em comum o facto de sermos todos migrantes.

O termo migração, que cobre diversas formas de movimentos populacionais, define-se de acordo com 3 grandes parâmetros. São migrantes os que efetuam ao mesmo tempo: i) - uma mudança de residência de duração mais ou menos prolongada (dentro do mesmo país migração interna) ou para lá de uma fronteira política ou nacional (migração externa), ii) - uma mudança em matéria de ocupação, podendo procurar/manter, ou não, o mesmo tipo de tarefas e iii) - uma mudança nas relações sociais, implantando-se no seio de uma nova comunidade entre pessoas que lhe eram desconhecidas.

Dentro deste conceito alargado cabem muitos tipos de migração, os imigrantes, os emigrantes, referentes a uma migração económica de mão-de-obra não qualificada, altamente qualificada ou de investidores, os clandestinos, de reagrupamento familiar, asilo político, exilados, refugiados (de guerra, da pressão económica, da fome, de perseguições étnicas e religiosas, de catástrofes ecológicas de alterações climáticas) e também o grupo formado pelos associados da ASPPA a que se chama migração para estudar, mais concretamente ainda, migração para investigar.

Há poucas temáticas que suscitem tanta controvérsia como a da migração. É um tema com muitos subtemas, abrangendo questões sensíveis e por isso difícil se ser equacionado de forma que seja, ao mesmo tempo, positivo para o país que é abandonado, para o país que acolhe e para o próprio migrante. No entanto, a migração é uma constante na História da humanidade. Neste momento, no mundo inteiro, cerca de 232 milhões de pessoas, apenas 3% do total da humanidade, vivem fora do país onde nasceram. Este número, que no seu conjunto é pequeno, arrasta um grande debate porque os migrantes tendem a instalar-se numa quantidade muito restrita de destinos, fazendo com que a fatia de migrantes que se fixa nesses países de acolhimento (forçado ou não) seja muito elevada. Um terço dos migrantes viaja do norte para o norte, outro terço do sul para o norte e outro terço do sul para o sul. Apenas um migrante em cada três terá deixado um país em desenvolvimento por um país desenvolvido. E se mais de três quartos das deslocações internacionais visam uma instalação num país cujo nível de desenvolvimento social e económico é superior ao do país de origem, metade dos migrantes originários de um país pobre instalam-se noutro país pobre. Também é preciso ter em consideração que 7% da totalidade dos migrantes são refugiados internacionais que fogem de zonas de conflito. A migração de Portugal para a Alemanha, numa perspectiva europeia é de sul para norte, mas numa perspectiva global é de norte para norte.

Numa zona de livre circulação, de pessoas e de bens como é a europeia, a migração entre os vários países encara-se como sendo temporária e pressupõe-se que os migrantes assumem um papel ativo na gestão da sua própria integração. As políticas de migração chamada “pró ativas” em que se incentivam os migrantes qualificados a preencherem fossos específicos de força de trabalho, especialmente em áreas científicas e tecnológicas abrange o crescente fenómeno da migração para estudar e investigar.

Desde meados dos anos 70, o número de estudantes matriculados fora do seu país de origem quadruplicou para mais de 2,7 milhões de pessoas. Em muitos países, os governos e as universidades querem ver este número aumentar. Oferecer vagas a estudantes estrangeiros, de um ponto de vista global, pode ajudar na promoção da compreensão mútua internacional, de um ponto de vista mais pragmático, os estudantes estrangeiros representam grandes negócios e de um ponto de vista estratégico, estudar no estrangeiro pode ser apenas o primeiro passo para uma estadia mais longa no país de acolhimento, preenchendo uma necessidade de migrantes qualificados. A migração para estudar e investigar não é uma estratégia isolada.

A União Europeia acaba de lançar um novo Programa Quadro (2014-2020), intitulado Horizonte 2020, para apoiar a investigação e a inovação. Tem por objetivo financiar investigadores, cientistas, pequenas e médias empresas privadas, universidades, institutos de investigação e grandes empresas. É formado por três pilares. O 1º refere a ciência de excelência, o 2º a liderança industrial e o 3º inclui os desafios sociais, tais como a segurança alimentar e energética, os meios de transporte limpos, o clima, a sociedade segura etc. Os três pilares estão interdependentes e englobam as ciências sociais e as humanidades. Um dos objectivos gerais é que a investigação que se faz na Europa seja aqui comercializada, criando postos de trabalho e fomentando o crescimento e a competitividade da economia. Os países que mais apostaram na investigação são os que melhor estão a aguentar o embate da crise económica. Espera-se conseguir que cada investigador que não tiver condições de permanecer no seu país de origem, possa ter como primeira opção trabalhar num outro país europeu. Será, acima de tudo, um programa que se pretende mais simples, menos burocratizado, mais acessível e mais abrangente. Esperemos que traga benefícios para todos. Desejo uma vida longa à ASPPA e à rede de contactos que está a construir.

 

Luísa Coelho

Berlim, novembro 2013