Gonçalo Silva: A fotografia como paixão


O que há de comum entre a fotografia urbana e o fotojornalismo, ou será que são diametralmente diferentes? Gonçalo Silva move-se com fluidez entre este dois mundos;

O fotojornalismo é a sua profissão e a fotografia a sua paixão e, muitas vezes, no seu fotojornalismo explode a sua paixão.

Encontrámo-nos na Embaixada do Brasil, no pequeno espaço do átrio dedicado à mostra fotográfica, de quatro fotógrafos lusófonos, cujo tema era os seus olhares sobre Berlim. Esta exposição conjunta mostrava uma pequena amostra de fotografias de cada um dos fotógrafos e esteve patente ao público durante um mês, no âmbito do Festival Berlinda. Gonçalo Silva, que foi o único português entre os fotógrafos daquela mostra, escolheu fotos marcadamente urbanas, despidas de pessoas. As cidades são centros de criatividade, habitualmente buliçosos, e não é fácil apanhar-lhes os momentos desabitados em que as estruturas estritamente urbanas se impõem sem aplicar o abracadabra do photoshop. Porém Gonçalo Silva não usa esta varinha mágica cosmética neste seu trabalho, preferindo a sua autenticidade, o que lhe ficou da fotografia analógica. O fotógrafo escolheu reflectir o seu olhar sobre o centro de Berlim, os seus monumentos, os edifícios e as ruas iconográficas, que são os favoritos de muitos fotógrafos – correndo o risco da repetição que assumiu e desafiou através de escolhas específicas, muita criatividade e ousada persistência – e foi bem-sucedido. O desafio foi considerável, até porque não escolheu a madrugada, porventura, o momento mais deserto e menos ruidoso em termos de fotografia mas, sim, o crepúsculo. Ele preferiu a luz mesmo antes de cair a noite entre chiens et loups – uma hora indefinida, mística, esperando o tempo necessário para captar com a sua objectiva aqueles segundos de luminosidade fugaz. Mas nem todos os dias aquela almejada luz, sobre aquele enquadramento, se revela ao fotógrafo. A fotografia como paixão é um jogo de espera, em que o momento certo se esconde caprichoso, sorrindo uns segundos, para voltar a esconder-se.  
Gonçalo Silva é tenaz e paciente, porque sabe que, a revelação que irá transmitir o seu olhar, acabará por se lhe desvendar.
  O fotojornalismo é o contrário desta espera quase amorosa, é o instantâneo do aperto de mão sorridente, é o clicar do disparador das sequências na esperança de ter apanhado os sujeitos no melhor ângulo; ao processo não falta um jogo de cotoveladas com os colegas e algumas rasteiras para conseguir a melhor foto do dia, enviá-la rápido para a agência, estar entre os primeiros e ser eleito com as melhores fotos.  
Nos eventos mais mediáticos são às dezenas os jornalistas que apressados, invadem os corredores do poder, comprimindo-se à procura do melhor ângulo, as objectivas em riste para tirar as fotos que vão correr mundo. Gonçalo Silva compete com os fotógrafos de agências mundiais, como a Reuters, cujos recursos são inesgotáveis. Mas o talento não é de subestimar, havendo momentos para o usar – “aquele instante em que a Chanceler Merkel não está a pousar para a foto, em que lhe escapa um gesto natural e o fotógrafo está atento” explica Gonçalo Silva. “Ou um ângulo diferente que revela estruturas e cores do local” – realça ainda. Também no fotojornalismo é possível “dar emoção às fotos e adaptar o gesto do fotografado ao conteúdo do artigo. É importante ter coragem e sensibilidade para dar também um toque pessoal ao básico”.
Gonçalo Silva afirma ser um português muito português. “Gosto do meu país, mas fico feliz por sair outra vez, para aprender. Tento ver o que há de parecido, o que me poderia fazer lembrar o meu país. Por exemplo, na exposição conjunta sobre o porto de Valparaíso, no Chile, os contentores eram o denominador comum com o porto de Lisboa”. O fotógrafo viajou pelo deserto de Atacama, a Terra do Fogo e a Ilha da Páscoa sempre a fotografar. “Esperei horas a fio, tiritando de frio para tirar a foto que queria e, mesmo assim, ainda poderia ter esperado mais tempo”. Gonçalo Silva tem um palmarés considerável de exposições na Europa e na América Latina, e, pela natureza da sua vida privada, a sua carreira fotográfica internacional irá, sem dúvida, prosseguir neste sentido. A curiosidade e a versatilidade dos temas que fotografa são também uma vantagem para o fotógrafo.
“Gonçalo, voltemos à tua exposição aqui, na Embaixada do Brasil, onde, relembro, estamos neste momento, porque parece que a paixão pela fotografia já nos tinha levado de viagem, qual tapete mágico!  
Comecemos por esta aqui, a Porta de Brandenburgo, um tema muito batido. O que há de diferente nesta tua fotografia?”
  A esta pergunta, o fotógrafo realçou que era esse o desafio.  
Reflectir um olhar diferente sobre este ícone turístico de Berlim.  
Escolheu fazer uma fotografia clássica e centrada,“a luz é diferente, é luz crepuscular e outonal, num fim de tarde sem nuvens. Isto é, para conseguir captar este momento foi necessária muita paciência, porque esta luz na minha fotografia foi um instante que passou!” Um momento que o fotógrafo eternizou. E não é só a luz natural, é também o momento certo na luminosidade artificial do próprio monumento, o seu contraste com a luz natural, que realça as qualidades do monumento. Ao crepúsculo é impossível fotografar a Porta de Brandenburg deserta e o facto é que esta foto está vazia de pessoas e de movimento; é uma foto em que o monumento e a quadriga que o encima são protagonistas absolutos daquela passagem entre a antiga Berlim Oriental e Ocidental.  
Gonçalo Silva conseguiu este efeito sem photoshop, jogando com a abertura e a velocidade da sua máquina, o que se vê no feixe de luz dos faróis dos automóveis que passam por detrás do edifício. “À noite, ou ao crepúsculo, a luz de Berlim é diferente de muitas outras cidades, é uma luz amarela, quente, lembra-me Lisboa e, por isso, gosto de fotografar nessas altura do dia. Mas o crepúsculo é o meu favorito”. De facto, as sete fotografias, que Gonçalo Silva escolheu para a exposição caracterizam-se pela luminosidade crepuscular, ou nocturna, o que vem realçar o cromatismo das luzes da noite, acentuando o carácter urbano destas fotografias.
Gonçalo Silva tem planos para Berlim e já está agendada uma exposição dupla em que apresentará os seus trabalhos “Ecos de Lisboa”, a preto e branco, e que sente de forma especial “Guardo Lisboa na palma da minha mão...” – citado do blog “ecos de Lisboa “ do fotógrafo. Apresentará também o seu novo trabalho “Rugas do Tempo”, com fotografias de edifícios abandonados e que descreve no seu blog homónimo, como “o meu olhar sobre as marcas do passado que perduram nos edifícios abandonados da ex-RDA”. A inauguração da exposição terá lugar no dia
11 de Dezembro, pelas 18 horas, na escola Neues Tor, e estará patente ao público cerca de uma semana.

Cristina Dangerfield-Vogt em Berlim

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