Filipe Mirante

Paixão, Sensualidade e Luta



 

O escultor Filipe Mirante veio a Berlim de camião com as suas esculturas de mármore alentejano. No dia de 7 de Novembro, o hotel Maritim proArte, o embaixador Luís de Almeida Sampaio e o escultor convidaram alguns portugueses em Berlim para um jantar de confraternização e de convívio, com uma mostra das obras do escultor, e no fim do jantar o Trio Fado fez ouvir as suas vozes e instrumentos.

Filipe Mirante é um escultor autodidacta alentejano – e o que nele me impressionou de imediato foi a sua autenticidade. Uma destas pessoas que ama a sua terra e que, de certa forma, se sente traído por esta, na Alemanha. Embora não pelos portugueses de Portugal mas, sim, pelos portugueses na Alemanha e, sobretudo, até esta sua última exposição, pelos representantes do Estado português. Um artista plástico que importa os seus materiais de Portugal, do seu Alentejo, muitas vezes de Borba, o lugar onde nasceu – aquele mármore alentejano lindo, que esconde a sua beleza na natureza até as mãos calejadas do escultor depois de o trabalharem sem descanso, acariciarem por fim a sua perfeição tão esforçadamente alcançada – o escultor coberto pelo pó que escondia a sua beleza; e depois de ter talhado e polido, e ter vivido solitário com aquele bloco de pedra, que foi agreste, desvenda- lhe a beleza que os seus olhos tinham imaginado. Filipe Mirante trabalha os seus blocos de mármore bruto como uma amante até à exaustão – para ele, a sua obra está sempre inacabada, é a mulher Margit que lhe diz “Basta!”.

A separação é dolorosa!

 

Nas suas obras expostas no hotel Maritim proArte, está patente a evolução do artista em três fases distintas, mas sempre femininas, embora a fase orgânica seja por vezes sexualmente indefinida e um pouco um exercício de formas entrelaçadas em movimentos de ballet. Uma primeira fase, em que o bloco foi trabalhado em figuras femininas sem perder a qualidade original de bloco de pedra, ou seja, em que se vê uma ligação nítida da natureza bruta com a arte, os pés bem assentes na terra de onde partiu, que nos tocam pela sua ancestralidade e que, de certa forma, faz lembras as estátuas da civilização dos hititas; uma segunda fase em que no bloco são talhadas e desenhadas formas orgânicas e vegetais ou abstractas sem se perder os horizontes do bloco; uma terceira fase, muito sensual, que se poderia designar por quase-erótica, em que o escultor pega num bloco e o trabalha até nos enfeitiçar com torsos femininos de uma beleza clássica idealizada, em que as formas são cinzeladas ao mais pequeno detalhe.

Passando a mão numa carícia pelo torso na fotografia, a suavidade e os pormenores anatómicos parecem quase uma obra de magia e impossível de produzir com este material duro. Mas Filipe Mirante é um artista que aprendeu a trabalhar a pedra com artesãos em Borba, Vila Viçosa, Estremoz e Évora; ele é um perfeccionista, que percebe do seu ofício. Os seus primeiros trabalhos reflectem algumas influências do escultor João Cutileiro.
 

“Quando era jovem fui para Lisboa trabalhar com uma amiga num atelier de olaria. Fazia a Olívia Palito e a pantera cor-de-rosa.  
Rapidamente me cansei porque não tinha mais nada para aprender, e decidi-me por um material que é mais nobre”. Mais nobre, que dá luta, uma luta entre gigantes, entre a pedra e o criativo. O escultor fecha- se no seu atelier, numa quinta em Friesenheim, e vive meses na companhia daquele bloco agreste e em mutação, no meio de um barulho infernal, de rebarbadora, ar comprimido e flex, numa turbulência de poeiras iluminadas – dá-lhe os primeiros golpes e inicia a metamorfose; o escultor descobre no bloco os veios da pedra e vira-o de modo a correrem na vertical; para isso é preciso molhar a pedra e despi-la dos seus véus. “O trabalho tem de ser muito preciso, uma ferida na pedra, uma mazela – são falhas que se pagam caro. Com o ponteiro e a maceta quero mostrar a beleza natural da pedra” - afirma com aquela concentração tenaz que lhe é típica.
  A sua mulher Marguit acredita no sonho dele, embora já tenha havido momentos de desalento. Os blocos são caros, a distância e o transporte encarecem ainda mais o material das esculturas, e um projecto que tenha um tema pode demorar anos a produzir.

Filipe Mirante cerra os dentes e vai para a frente - tem um tipo de “drive” que o faz sobreviver ao que João Cutileiro designou por “a máquina de trituração do mundo das artes plásticas que leva muitos artistas ao abismo”. Mas Filipe Mirante tem uma visão: continuar a desvendar os segredos do mármore e os seus próprios, esculpir a pedra da sua paixão e honrar a arte que aprendeu no seu Alentejo.
  O escultor tem trabalhado em vários projectos locais e participado em simpósios internacionais de escultura. As suas obras estão patentes ao público no seu atelier e no átrio de entrada do hotel Maritim proArte, no centro de Berlim.

O Senhor Robert Klimsch, o director do hotel, é um apaixonado pelas artes plásticas que se orgulha das centenas de objectos de arte expostos nas suas instalações. Os hóspedes parecem partilhar do seu entusiasmo fotografando e comentando os artefactos à sua volta. Filipe Mirante chegou há uns anos à capital com a sua arte e os seus mármores estão sem dúvida expostos no sítio certo.



Cristina Dangerfield-Vogt
Em Berlim

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