Berlim: O mundo oriental da Soldiner Strasse

No rasto de um artista plástico português na Soldiner Strasse

 

No Quartier Soldiner Strasse uma colónia de artistas plásticos é a interlocutora da Degewo para os espaços de projectos artísticos sem fins comerciais num dos bairros mais problemáticos da capital.

A palavra Quartier poderia fazer-nos pensar que estamos num bairro parisiense de influência germânica. Mas não é assim. Wedding é um bairro berlinense, que começou por ser um bairro operário. Foi o local escolhido para construir as fábricas da AEG, Osram e outros ícones da indústria alemã. Nos anos sessenta foram recrutados trabalhadores estrangeiros para colmatar a falta de mão-de-obra alemã nas fábricas.  
Primeiro vieram os turcos que se fixaram nas zonas circundantes das fábricas onde as rendas eram mais acessíveis. Inversamente ao que os alemães esperavam dos “trabalhadores convidados”, eles vieram para ficar. No bairro da Soldiner Strasse vivem não só os primeiros imigrantes, como também a segunda, a terceira e mesmo a quarta geração dos que ali se fixaram. A taxa de desemprego e os níveis de delinquência juvenil elevados transformaram este bairro num dos ghettos da capital. Com o objectivo de polir a imagem do bairro, a autarquia local, juntamente com a Degewo e a Förderband Kulturinitiative Berlin, desenvolveram projectos e negociaram enquadramentos específicos para atrair artistas plásticos, oferecendo- lhes condições de arrendamento dos espaços devolutos pelos custos de manutenção dos mesmos - um projecto que foi iniciado há cerca de dez anos. A colónia de artistas plásticos pretendia fazer projectos artísticos que, de algum modo, criassem pontos de contacto com a população local.

  O mundo oriental da Soldiner Strasse

O PP foi lá para ver se seria mesmo assim. Ao fim da manhã na Soldiner Strasse vê-se mulheres cobertas com véus islâmicos que passeiam com as crianças nos carrinhos a caminho das compras ou dos jardins e homens parados à porta das “kneipe” berlinenses. Nos döner kebab, os fast-food turcos, o cone de carne roda sobre o eixo e os montinhos com as várias saladas estão prontos para servir os clientes. Algumas mulheres vestidas de preto dos pés à cabeça passam lentas e de rostos severos. Muitos dos espaços de lojas virados para a rua têm as pesadas persianas de metal fechadas.

Umas miúdas afegãs de caras muito pintadas no estilo Cleópatra esperam à porta de um Sisha-bar. Pergunto-lhes se conhecem a Kolonie Wedding – “neh, nie davon gehoert” (não nunca ouvimos falar disso!). Sigo pela Soldiner e frente à entrada de um hinterhof (pátio berlinense) conversam uns homens turcos. Um letreiro indica mesquita local. Falamos um pouco. Dizem-me que são residentes do bairro há várias décadas mas que, além do pequeno teatro em frente da mesquita, não conhecem mais nenhuma iniciativa artística por ali e que nunca ouviram falar na Kolonie Wedding. Indicam-me a padaria turca mesmo ali ao lado onde me dirijo. Após consulta mútua entre os clientes, um leve estalar da língua nos dentes acompanhado de um curto aceno de cabeça ascendente confirma-me o que já suspeitava – também aqui ninguém conhece a colónia de artistas. Continuo o meu passeio e, na última esquina da Soldiner, faço a mesma pergunta numa pequena mercearia turca e, sim, também eles vivem no bairro há muito tempo, mas só conhecem o pequeno teatro.

A Ilha das Bruxas – Um bar da Soldiner Strasse

  Percorro o mesmo trajecto em sentido contrário e avisto numa esquina uma porta ensolarada enfeitada por bruxas montadas em vassouras e um esqueleto de chapéu preto pendurado na porta. Penso que talvez seja ali a Kuenstler Kolonie Wedding. Da porta avisto mais bruxas penduradas do tecto envoltas em fumo que me olham escarnecedoras, e lá descortino uns homens de beata na boca, sorrisos parvos numas caras vermelhíssimas, de bíceps cobertos de tatuagens, apoiados ao balcão em equilíbrio instável e bocas que se arrastam pelas palavras. “Conhecem a Kuenstler Kolonie Wedding?” pergunto. “Artistas, só nós, venha cá para ver melhor!” Rapidamente me afastei da casa das bruxas. Obviamente, os locais andam um pouco desligados das actividades da colónia de artistas.

Finalmente no escritório da Kolonie Wedding

  Quase choco com uma grafitti do White Power censurada por um poster Nazis Raus e, finalmente, encontro o escritório da dita colónia, para ouvir uma perspectiva diferente da minha vivência de rua. Dizem-me que existem vários espaços onde os artistas expõem e que organizam visitas guiadas pelos ateliers no último fim-de-semana de cada mês. O folheto da colónia indica a existência de uns 30 espaços de exposição. É confirmada a boa comunicação entre os residentes do bairro e a colónia. Contudo, estaria em discussão com a Degewo um aumento das rendas para os espaços de exposição, que poderia vir a modificar o status quo e a existência protegida dos artistas no bairro. Segundo informações de algumas imobiliárias, haveria investidores a adquirirem edifícios naquele bairro e esta súbita apetência pelo bairro poderia ser umas das causas para o aumento das rendas dos espaços de exposição.

Uma fumaça de Shisha
Entro num Shisha-bar e com um selam aleikum ponho os miúdos a conversar naquele microcosmo de kitsch oriental muito bem produzido e no meio de umas baforadas de narguileh pergunto-lhes se ouviram falar na colónia de artistas plásticos de Wedding? “Não! Mas é mesmo aqui ao lado do vosso bar”. Os miúdos ficam surpreendidos. “Nós também somos artistas, quer ver?” Mostram-me vários objectos que eles criaram para decorar o bar. São peças no arabesco característico das culturas orientais que vivem entre nós. A uns curtos passos daquele oriente fica o mundo artístico internacional muito “in” da colónia. Porém, a vontade de dialogar com os habitantes do bairro é sabotada por silêncios quebrados por pedras, e por mais muros entre mundos apesar das iniciativas de alguns dos artistas da colónia.

Um artista plástico português na Soldiner Strasse

O Portugal Post descobriu um português no bairro da Soldiner Strasse. Tiny Domingos é artista plástico e vive em Berlim desde 1994. De há uns anos para cá, arrenda um espaço no bairro Soldiner, o Salon KuiperDomingos, onde expõe os seus projectos e os de outros artistas internacionais. Ele começou a dedicar-se mais intensivamente a projectos artísticos nos anos noventa no bairro de Mitte, numa altura em que os criativos do mundo ainda não se interessavam por esta cidade e, muito menos, por aquele bairro que passou a ser a “Meca dos galeristas”. O processo de gentrificação de Mitte obrigou-o a procurar um espaço de exposição numa zona mais acessível. “Começámos o projecto Rosalux em 1999. A plataforma inicial era virtual. Arrendo este espaço mas sou independente da Kolonie. É um espaço nobre, virado para a rua que é, todavia, vulnerável. Vivemos num ambiente emergente e, por vezes, os residentes do bairro sentem-nos como intrusos. Aliás, já me partiram os vidros várias vezes. Fomos assaltados duas vezes por uma caixa de cerveja. É um bairro problemático.” Porém, Tiny faz um balanço positivo do seu espaço. “Nas noites das inaugurações o ambiente do bairro é completamente diferente – é uma festa!”.

Apesar do ambiente festivo das vernissages, a aceitação dos estranhos no bairro não é pacífica entre os residentes e os potenciais clientes das instalações e outras obras dos artistas nem sempre terão o espírito de aventura necessário para deambular pelo bairro Soldiner à procura de arte.

Cristina Dangerfield-Vogt em Berlim

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