Sobre o romance „Ernestina“ de José Rentes de Carvalho

Uma das minhas leituras do verão passado foi o romance „Ernestina“ de José Rentes de Carvalho, publicado pela primeira vez em 1998 – e por essa altura passado despercebido – e de novo, em 2009 pela Quetzal, na série „língua comum“ que edita autores lusófonos. Eu já conhecia o autor, dele havia lido alguma coisa, até porque quem anda „cá fora“ interessa-se por outros que andam também por aqui, como Cristina Krippahl que apresentou neste jornal há algum tempo o romance de Aida Gomes „Os Pretos de Pousa-Flores“, outro romance desse meu verão de 2012, instigante e muito bem escrito.

Rentes de Carvalho foi durante muitos anos docente de português na universidade de Amsterdão e sei duma sua antiga estudante, querida amiga holandesa, que ele entusiasmava os seus alunos a amarem a nossa língua e a(s) nossa(s) cultura(s). O seu romance autobiográfico „Ernestina“ – nome da sua mãe, a quem ele, escolhendo este título, presta homenagem – iluminou-me os dias. Não porque seja um livro solar, longe disso. Ele conta duma infância e duma família em que a violência a qualquer momento rebentava, em que mães e filhas, pais e filhos viviam em permanente pé de guerra. O romance iluminou-me antes os sentidos, clarificou-me ideias pois o relato de sofridas vidas transmontanas deu-me a conhecer, esclareceu-me sobre realidades que só ilusoriamente nos parecem passadas e enterradas. O romance envolve um período de mais de 100 anos e abrange três gerações, de gentes oriundas de freguesias entre Torre de Moncorvo e Mogadouro, na região do rio Sabor, de serranias de cujos cumes se divisa Espanha: o leste mais a leste do nordeste português. Ambos os avôs, cada um à sua maneira, inteligentes, ambiciosos, tenazes, ultrapassaram os limites da sua condição de pequenos lavradores, cujas colheitas, resultado de trabalho árduo de muitos meses, podia desaparecer sob granizos ou chuvas torrenciais num ápice. Faziam parte, como disse Saramago no seu discurso do Nobel, da tal „irmandade de condenados da terra“. Um avô decidiu sair de Estevais, foi o primeiro da aldeia a atrever-se a tal proeza, meteu-se a caminho do Porto, aprendeu a ler sozinho e tornou-se guarda fiscal, primeiro em Esmoriz e depois em Vila Nova de Gaia. O outro avô, ainda não tinha 20 anos, já era sapateiro conhecido nas redondezas, depois abriu uma taberna e ainda trabalhava as terras de sol a sol. Além dos avôs, também as avós, aliás irmãs, lhe merecem admiração e ternura, sem que o autobiografado se perca em nostalgias lamechas. Os retratos são vívidos e muitas vezes pungentes: a avó materna era uma mulher doente, hoje dir-se-ia talvez esquizofrénica ou bipolar. Foram os avós que fizeram o casamento dos pais, primos-irmãos, que sem se amarem, nunca puderam dar ao filho ternura suficiente. José Avelino foi vítima, em criança, duma violência ancestral que se concretizava em bofetões, sovas e castigos e num ambiente pesado de pai alcóolico e mãe neurótica: „As ceias tornaram-se outra vez um inferno, minha mãe a espicaçá-lo com os seus remoques, ele às ameaças de desfazer tudo à bordoada“ (p.197). Por isso os verões na aldeia entre parentes, animais e revelações eróticas significaram para o rapazinho curioso, atrevido e fascinado pelas belezas naturais, a descoberta do mundo.

Mas muito mais que uma autobiografia este livro, – só por razões publicitárias chamado romance – é um retrato dum espaço e dum tempo portugueses que, parecendo terem desaparecido – vejam-se as autoestradas que cortam e recortam o país, como se não houvesse mais nada que berma de estrada – continua em recordações e memória viva. Rentes de Carvalho, em criança, já espicaçava familiares para que lhe revelassem segredos e focava o próprio olhar sobre o que o rodeava e o que havia acontecido antes do seu nascimento e perguntava à avó, analfabeta e exímia contadora de histórias: Como era a vida nesse tempo?A resposta é testemunho de muitos, testamento para compreendermos ascendências, donde advêm futuros.

Rentes de Carvalho vive na Holanda, mas tem casa e coração em Estevais. Talvez porque já muito pequenino fizesse perguntas e houvesse quem lhe respondesse sem nada alindar, nem nada inventar. Por isso ele afirma: „Não invento nem alindo“ (p.14) Não é relato saudoso, antes direto e cru.

Numa lista da revista LER das 25 obras mais importantes das duas últimas décadas o escritor Riço Direitinho nomeia-o como uma descoberta. Talvez agora passe de best-seller holandês a best-seller português. Leiam-no. E em paralelo não deixem de perguntar a pais e avós como era a vida no tempo deles.

 

Luísa Costa Hölzl

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