Reportagem: Onde as 'estrelas' da Europa há muito deixaram de brilhar

Uma placa oficial da Comissão Europeia e do Estado grego ainda enfeita a entrada do edifício cor-de-rosa, no centro de Tessalónica, onde refugiados e requerentes de asilo vivem, sem qualquer apoio, há quase quatro anos.

Esquecidos e deixados à sua sorte, em pleno centro da segunda maior cidade grega, a poucos passos das ruínas clássicas e dos movimentados cafés e tavernas, os 75 habitantes, entre os quais mais de 30 crianças, sobrevivem como podem.

 

Vahid, um ex-polícia e professor do Afeganistão, vasculha diariamente as ruas à procura de pedaços de ferro e outras coisas de valor. Os cerca de 20 euros que consegue juntar por semana permitem-lhe comprar o necessário para a sua mulher e três filhas, com idades compreendidas entre os dois e os cinco anos.

 

Outros vêem-se forçados a pedir esmola ou tentam arranjar biscates num país, onde, mesmo com autorização para trabalhar, os empregos nem sequer chegam para os nacionais.

 

Inaugurado com pompa e circunstância em agosto de 2000 pelas autoridades locais e comunitárias, e deixado ao abandono quando a última organização não-governamental (ONG) fez as malas, em 2010, no auge da crise grega, este centro de acolhimento - tal como os seus habitantes - já não existe oficialmente.

 

A maioria dos habitantes é do Afeganistão. Palestinianos, sírios, curdos, somalis e marroquinos completam a vizinhança que, sem a solidariedade e o empenho diário de ONGs como a Symβiosis, nem sequer teriam luz ou água corrente. Esse favor teve de ser pedido diretamente ao presidente da câmara, mas ninguém sabe dizer ao certo quanto tempo durará.

 

“É uma batalha diária”, desabafa Despina, presidente da ONG, enquanto Vahid mostra os cantos ao centro, cuja entrada continua a ostentar o patrocínio da Direção-Geral da Justiça e Assuntos Internos da UE e do Ministério da Saúde e da Solidariedade grego.

 

Numa altura em que a Europa volta a debater o drama humanitário daqueles que tudo arriscam para chegar ao “eldorado europeu”, as condições de vida destas pessoas são difíceis de aceitar.

 

O “relacionamento não é nada fácil”, aponta Despina, enquanto sobe em direção ao último andar. Os chuveiros no rés-do-chão, três para mulheres, três para homens, sem divisão, é apenas um dos muitos focos de conflito com os quais os habitantes do centro têm de lidar diariamente.

 

Pilhas de sapatos de diferentes tamanhos, meticulosamente arrumados em frente de cada quarto, deixam adivinhar a falta de espaço por detrás das portas pintadas de azul. As paredes, que em tempos também já foram cor-de-rosa, acusam o estado de degradação da construção.

 

A única coisa que estas pessoas têm em comum, vinca, é o facto de não terem qualquer “hipótese de integração” numa sociedade onde os sentimentos nacionalistas e os preconceitos têm vindo a aumentar, com o acentuar da grave crise económica e social.

 

Torturado pelos talibãs, por ter permitido a presença de raparigas na sua sala de aulas, Vahid, na casa dos quarenta, conta que teve de deixar o seu país com as suas duas mulheres e uma criança há cerca de uma década.

 

Refugiaram-se primeiro no Paquistão. Em 2008, através da Turquia, chegaram à ilha grega de Lesbos, no nordeste do mar Egeu, onde, tal como na ilha italiana de Lampedusa, migrantes e refugiados morrem às centenas durante a travessia.

 

A família de Vahid teve sorte. Depois de uma curta estadia em Atenas, foram transferidos para o prédio cor-de-rosa. “Se soubesse o que sei hoje teria tentado entrar noutro sítio, onde pelo menos houvesse trabalho”, desabafa o afegão.

 

Com um tempo de espera para tratar dos papéis que ronda os dez anos, aos requerentes de asilo e refugiados na Grécia não resta muito mais do que esperar. Impedidos de partir – pelo menos pela via legal - para um outro país europeu que lhes ofereça melhores condições de acolhimento, enquanto não lhes for concedido o estatuto de refugiado na Grécia, já há muito deixaram de acreditar na solidariedade europeia.

 

A primeira mulher e a quarta filha de Vahid já estão na Suécia. É para ali que este afegão quer levar o resto da família. Conta que acaba de pagar cerca de mil euros para tratar dos papéis. Mas prazos não há.

 

A única coisa de que Vahid tem a certeza é que à primeira oportunidade que surgir, vai arriscar tudo de novo e procurar uma vida melhor para si e para os seus.

 

 

Simon Kamm, da Agência Lusa

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