A bagagem dos primeiros portugueses vindos para Hamburgo

Cemitério português  em Hamburgo
Cemitério português em Hamburgo

A fascinante história do judeus portugueses em Hamburgo

 

As sociedades de hoje atravessam uma fase de profundas perturbações, sendo as migrações um dos maiores problemas com que temos de lidar. Numa época em que os países da Comunidade Europeia, através de uma legislação cada vez mais restritiva, tentam opor-se ao fluxo migratório crescente, importa não perder de vista uma visão histórica desta questão.

Hamburgo, onde vive a maior comunidade portuguesa na Alemanha, contando, actualmente, com mais de 9 mil portugueses, foi, já em tempos, alvo de uma emigração maciça oriunda da Península Ibérica. Estava-se nos fins do séc. XVI, quando, por motivos bem diferentes dos que moveram os portugueses de hoje, os seus compatriotas de então tiveram de fugir para estas margens. Hamburgo foi assim a primeira colónia de portugueses na Alemanha e atingiu o seu auge em meados do séc. XVII com 600 almas, número significante, se tivermos em conta que naquela altura Hamburgo tinha só 30 mil habitantes.

 

Aqueles primeiros portugueses fugiram das perseguições da Inquisição que não lhes tinha dado trégua desde a sua introdução em Portugal, em 1536. Mas a anexação de Portugal pelos espanhóis (1580), inventores e executores mais ferozes dessa prática desumana, foi a gota que fez transbordar o copo. Os portugueses que assentaram arraiais em Hamburgo a partir dos fins do séc. XVI, ao contrário dos seus compatriotas do séc. XX, não chegaram com a famosa mala de cartão, mas sim com uma bagagem rica em todos os sentidos. Esta minha intervenção tem como finalidade mostrar que Hamburgo só podia tirar vantagens daqueles primeiros portugueses e da bagagem que eles trouxeram consigo.

 

Vejamos primeiro quem foram esses portugueses e qual era a sua origem étnica e social. Tratava-se, na maioria dos casos, de descendentes dos judeus que, desde a destruição do templo de Jerusalém no ano 70 da nossa era, se tinham refugiado na Península Ibérica. Viviam lado a lado com as populações locais, os Celtiberos, ou com os que vieram depois, como as várias tribos germânicas e os Árabes. Desde 1497, ano em que D. Manuel I mandou baptizar os «seus judeus» para não ser obrigado a expulsá-los, à laia da vizinha Espanha, os judeus portugueses ou, melhor dizendo, os «cristãos novos», entraram num profundo processo de integração com a demais população. Exerceram toda a gama de profissões, desde simples lavradores até médicos ou professores catedráticos. Houve quem casasse com a nobreza cristã-velha ou até subisse aos mais altos graus da hierarquia eclesiástica.

 

Entre eles houve muitos «homens de negócios» que foram ao mesmo tempo investigadores e intelectuais, herdeiros e transmissores da grande sabedoria judaico-árabe em matérias como a matemática, a astrologia, a náutica, a geografia, a cartografia, a biologia e a medicina, desempenhando um papel importantíssimo na abertura do mundo. Os grandes comerciantes portugueses cristãos-novos, interessados em salvaguardar o seu estatuto social através da continuação dos seus negócios, demandaram portos com os quais já existiam relações comerciais. O melhor exemplo é Antuérpia, onde havia uma “natio lusitana” desde o séc. XV com uma feitoria florescente de quase 100 empresas portuguesas geridas por cristãos-novos e cristãos-velhos. Mas também Amesterdão e Hamburgo, que suplantaram Antuérpia como refúgio principal dos portugueses aquando da guerra hispano-flamenga, possuíam laços comerciais com Portugal. No início do séc. XVI, o rei D. Manauel I concedera privilégios a Hamburgo que, por sua vez, enviou o seu primeiro cônsul para Lisboa em 1566.

 

Quando, alguns anos mais tarde, ao atracar no porto de Hamburgo, tripulantes e donos dos barcos portugueses solicitaram autorização de residência, esta foi-lhes graciosamente concedida. O facto de eles serem aparentemente cristãos católicos não fez grande mossa aos bons luteranos. Negócios são negócios! E quando uns vinte anos mais tarde se descobriu a filiação judaica dos portugueses, os protestos só vieram da parte do clero e de alguns populares. O próprio senado achou oportuno assinar um tratado com a «natio lusitana» (1612). Este tratado, renovável de cinco em cinco anos, garantia aos portugueses residência e plena liberdade no exercício das suas profissões, impondo-lhes, porém, grandes restrições no domínio religioso.

 

Como se pode ver, esse tratado não foi ditado por qualquer filosemitismo, mas sim por meros interesses económicos. O porto de Hamburgo, naquela altura, atravessava uma fase difícil, porque a Liga Hanseática tinha entrado em declínio, e Hamburgo procurava novos mercados. Por isso, os mercadores portugueses vieram muito a propósito, pois trouxeram na sua bagagem relações comerciais, não só com familiares e parceiros em Portugal, como também nas novas colónias. Com as suas actividades, os mercadores portugueses, aliás em sintonia com outros grupos estrangeiros, sobretudo holandeses e ingleses, deram novo fôlego a Hamburgo ligando-o ao novo pivot comercial que já não era o Mediterrâneo nem o Báltico, mas sim o estuário do rio Tejo.

 

Os números falam por si. Por exemplo, em 1621, 85 barcos vindos de Hamburgo aproaram para Lisboa, mais do que para os outros portos ibéricos juntos. E, dois anos mais tarde, atracaram em Hamburgo 101 barcos portugueses, quer dizer, o dobro dos barcos espanhóis. Foi através dos portugueses e das suas actividades comerciais que os hamburgueses viram pela primeira vez artigos vindos das colónias e que por isso ainda hoje se chamam «Kolonialwaren» (géneros coloniais), como várias especiarias, o açúcar de cana, o café, o tabaco, algumas fazendas como a chita, pedras preciosas e corais. A importação daqueles artigos de luxo contribuiu para a formação de um estilo de vida mais requintado da burguesia desta metrópole do Elba.

 

Outra «mercadoria» trazida pelos portugueses para Hamburgo foi muito cobiçada pelos cidadãos alemães ricos: tratava-se dos criados negros que qualquer família portuguesa que se prezava tinha naquela altura. É verdade que os judeus portugueses foram os grandes promotores da escravatura negra, mas, no seio da própria família judaica ou novo-cristã, os negros foram tratados quase como membros da família, jantando à mesma mesa com os amos, voltando-se com eles para a fé judaica e até casando dentro das famílias. Claro que um tal membro da família não podia ser deixado para trás. Em Hamburgo, os criados negros dos portugueses despertaram grande interesse e, como demonstram testemunhas literárias e iconográficas daquela época, a moda pegou entre os cidadãos alemães.

 

Um outro artigo de luxo introduzido pelos sefardins, mas cuja origem portuguesa continua a ser contestada, são os bonitos pratos, taças, malgas, terrinas, etc., tratados ainda hoje por «Hamburger Fayencen» (faianças hamburguesas). Esta designação errónea deve-se aos nomes e brasões hamburgueses que algumas faianças ostentam. A meu ver, explica-se facilmente por serem feitas por encomenda em Portugal e depois exportadas para Hamburgo. Mas havia também mercadorias portuguesas menos luxuosas que enriqueciam a nova pátria dos portugueses. Por exemplo, o sal marinho, que os hamburgueses preferiam ao seu próprio sal-gema, e a marmelada. No último caso, devemos a própria palavra aos sefardins. «Marmelade» é, que eu saiba, a única palavra portuguesa transferida para o alemão.

 

Como «homens de negócios», os portugueses tinham também grandes conhecimentos em matéria monetária. Por isso não é de estranhar que entre os fundadores do primeiro banco de Hamburgo (1619) se encontrem quatro portugueses, por exemplo, o abastado António Faleiro. O génio financeiro dos portugueses estava bem patente também nas suas actividades como seguradores e corretores, profissões arriscadas em tempo de corsários, mas ao mesmo tempo altamente rentáveis – se tudo corria bem. A riqueza de muitos portugueses, em conjunto com as suas relações internacionais e o seu domínio de várias línguas, fazia com que os potentados em redor de Hamburgo lhes pedissem ajuda financeira e diplomática. O caso mais notório é o do rico e poderoso Manuel Teixeira, cônsul e conselheiro de finanças da rainha Cristina da Suécia. Pode dizer-se com toda a justeza que foi graças aos seus residentes portugueses que Hamburgo, no séc. XVII, assumiu um lugar de destaque no palco diplomático e na vida mundana.

 

Mas nem todos os portugueses tinham uma bagagem rica só em termos financeiros e comerciais. Havia outros, como o Dr. Rodrigo de Castro, que levavam consigo a sua maleta de médico. Não se tratava de simples curandeiros, mas sim da fina-flor dos médicos ibéricos. Graças aos conhecimentos colhidos dos seus antepassados judaico-árabes, eram muito mais esclarecidos e avançados do que os seus colegas cristãos. Rodrigo de Castro, que nascera em Lisboa no seio de uma família de ilustres médicos, fugiu via Antuérpia para Hamburgo. Aqui não se fez rogado quando, em 1596, eclodiu a grande peste. É considerado o maior médico do seu tempo, tendo uma clientela que se espalhava por toda a Europa, incluindo vários reis e membros da alta nobreza. É autor de vários livros que primam pelas suas teorias progressivas.

Outra bagagem cultural dos sefardins é o já mencionado talento para as línguas. Manuel Teixeira, por exemplo, dominava cinco línguas: além de português e alemão, falava espanhol, francês e italiano. E ainda no séc.XIX, a grande figura dos grémios literários de Berlim, Henriette Herz, filha do médico luso-hamburguês Benjamin de Lemos, falava nada menos do que 10 (!) línguas. Havia, em Hamburgo, produção literária em português, como a Gramática Hebraica de Moses Abudiente (1633), as Propostas contra a tradição do malogrado Uriel da Costa, precursor de Bento de Espinoza e do Iluminismo, e até poesia, da autoria de João Francês, alcunhado o «Camões hamburguês».

 

Sem dúvida a herança portuguesa foi a parte mais marcante da bagagem cultural da «natio lusitana». «Die Portugiesen» era denominação corrente entre a população de Hamburgo. Foram portadores de nomes bem portugueses como Andrade, Teixeira, Rodrigues, Matos, Faleiro, Dinis, Mendes, da Costa, Cardoso, de Castro, Brandão, para mencionar alguns exemplos. Só para uso interno dentro da comunidade judaica, assumiram nomes hebreus e para o comércio marítimo deram uma forma germânica aos seus nomes (por exemplo, João Francês foi mudado para Hans Franzen e Paulo de Milão para Paul Dirichsen). Tratou-se de uma manobra para ludibriar a Inquisição o que, aliás, não resultou devido a traidores, e por isso os arquivos da Inquisição na Torre do Tombo são a fonte de informação mais exaustiva sobre os portugueses de Hamburgo.

 

Naturalmente falavam português entre si e essa língua continuou a ser meio de comunicação até ao séc. XVIII. Ainda em 1785, Abraão Meldola publicou a sua Nova Grammatica Portugueza, enquanto as inscrições nas lápides das campas do cemitério na Königstraße, tal como os registos e a correspondência da comunidade, são em português durante grande parte do séc. XIX.

 

À semelhança de todo o bom português fora da sua terra, também a comunidade de Hamburgo era roída pelas saudades. Alguns não as aguentaram e, apesar do perigo que a sua vida corria, regressaram ao «país da idolatria», como se chamava Portugal, do ponto de vista judaico. Isto, para não falar do saudosismo na sua forma mais sublime, o sebastianismo. Misturava-se com o messianismo judaico que atingiu o seu auge com o advento do falso messias, Shabtai Zwi, em 1665, sendo Hamburgo um centro importante deste movimento.

De Portugal para Hamburgo foi importado também o prazer pelas alegrias da vida, atitude que não agradou muito aos hamburgueses austeros e reservados. Houve queixas sobre os portugueses e o seu gosto pela ostentação dos bens, como uma indumentária esplendorosa, brasões e coches sumptuosos escoltados por criados fardados. É escusado dizer que muitas destas queixas foram ditadas pela simples inveja. Por outro lado, os ricos portugueses fizeram tudo para granjear favores ou cimentar amizades através de boas prendas, como açúcar ou doçarias. A maior prenda, ou melhor dizendo, a maior «luva», jamais oferecida por um português foram as placas de cobre doadas por Manuel Teixeira para cobrir o telhado da torre da igreja de Sankt Michaelis, ex-libris da cidade hanseática.

 

Mas todos estes favores, toda a riqueza da bagagem comercial e cultural de nada serviram. Os descendentes dos sefardins portugueses, cerca de 200 pessoas no início da era nazista, tiveram a mesma sorte que os descendentes dos judeus aschkenasi vindos para Hamburgo em condições muito mais humildes. Quem não conseguiu fugir, foi morto nos campos de concentração. Pior destino os esperava ainda depois da guerra: caíram em completo esquecimento. Quando, em 1989, foi comemorado o 800.º aniversário do porto de Hamburgo, ninguém se lembrou deles e do contributo valioso que deram ao desenvolvimento económico e cultural da nossa cidade.

 

Dr. Peter Koj

 

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Kommentare: 2
  • #1

    AnaPaula Tavares Zolezzi (Mittwoch, 23 Oktober 2013 11:56)

    História interessante e exposta duma forma objectiva. Agradeço, vou reler e absorver melhor. Já estive em Hamburgo 14 vezes, talvez 15, e tenho tido imenso prazer em comer refeições típicas portuguesas em restaurantes portugueses, mas não sabia que a população portuguesa fosse tão diversa, nas suas origens. Sou, segundo me parece, dessa origem, o meu apelido Tavares que significa Camarada em Russo, tem história semelhante. Cumprimentos. Paula www.paulazolezzi.co.za. PS da próxima vez que for a Hamburgo gostava de conhecer a comunidade portuguesa, pelo menos as pessoas chave, se possível

  • #2

    alzira maciel (Donnerstag, 09 Januar 2014 16:02)

    ola eu gostei da nossa historia d portugal aqui em hamburgo eu sei que eles nao gostam dos portugueses porque imajinao so o que eles dizem em a prender limguas eles dizem em espanhol em frances em imgles e brasil e nao portugues porque raio eles dizem que a prender e limgua e d brasil e nao portuguesa que raiva m da nao ha nimguem que faca algo para as escolas dar aulas em portugues e nao brasil