Aquilino Ribeiro “alcança quem não cansa” (1885/1963)

As ligações de Aquilino à Alemanha

 

O escritor português de que vos venho falar teve um percurso absolutamente singular para a época em que viveu. Grande prosador, muito comprometido com as suas responsabilidades políticas na vida social portuguesa, republicano em tempos de monarquia, democrata em época de ditadura, pacifista em duros momentos de guerras mundiais, viveu grande parte da sua vida na clandestinidade e no exílio, dentro e fora de Portugal.

Viu os seus livros confiscados pela censura e passou algum tempo, por duas vezes, na prisão à conta das suas ideias políticas e acusação de atos de violência pública. Filho natural de um padre é batizado em freguesia alheia para disfarçar o acidente. Educado em colégios católicos e enviado para o seminário, abandona-o por falta de vocação e por provocação. Acusado de ser anarquista é finalmente membro da maçonaria. Foge da prisão e, clandestinamente em Lisboa, tece teias com os regicidas. Refugia-se em Paris onde frequenta a Sorbonne e contacta com os mestres influentes do pensamento da época. Regressa a Portugal e trabalha como professor num liceu público e na Biblioteca Nacional. E vai-se envolvendo em voltas e revoltas, e vai protestando, e vai publicando e vai escrevendo a História do país, dando vida às suas personagens fortes e singulares e criando um estilo original que dá universalidade a personagens regionais. E volta a sair do país e a ele cada vez retorna. E casa uma vez, e enviúva, e volta a casar e a procriar.

Em 1960, é proposto pelos seus pares para o prémio Nobel da literatura e em 63, é homenageado em várias cidades pelos cinquenta anos da sua obra literária. Morre nesse mesmo ano, ainda a tempo de perceber que o regime de Salazar tinha proibido todas as homenagens que lhe fossem feitas. Falo-vos de Aquilino Ribeiro que nasceu em 1885 em Tabosa do Carregal, uma povoação da Beira Alta, faleceu em 1963 em Lisboa, de que poucos já conhecem a obra e muitos nem conhecem o nome.

 

Faz este ano 100 anos que saiu a sua primeira obra literária (deixou-nos 69 títulos) intitulada Jardim das Tormentas. Em 1907, já tinha copublicado em forma de folhetim uma obra de propaganda republicana e de crítica às figuras do regime, A filha do jardineiro. Este livro Jardim das Tormentas que foi redigido em Paris durante o seu primeiro exílio, é dedicado a Grete Tiedemann (1890/1927) uma jovem alemã que conhecera nessa cidade - Lancei-me no seu encalço. Eram duas alemãzitas [...] marchando com a segurança e o à-vontade peculiares à sua raça. Vinham a Paris fazer um curso de aperfeiçoamento. No dia seguinte passeava com uma delas no Jardim do Luxemburgo. - diz-nos, quando ambos estudavam na Sorbonne. Com ela viria a casar ainda nesse ano. Antes de casar, visitou a família da jovem e residiu durante alguns meses, entre 1912 e 1913, nas cidades de Berlim e Parchim. Mais tarde, em 1920, regressou à Alemanha e, dessa viagem de pós guerra, resulta a publicação do diário Alemanha Ensanguentada. O caderno de um viajante que nos dá a ler as suas representações deste país “Seis anos de ausência, subversão pavorosa de seres e coisas, como iria encontrar eu a Alemanha?” é um documento histórico que começa a 20 de Setembro de 1920 na estação de comboios de Herbestahal, na Bélgica, leva-nos até Berlim e vai terminar a 15 de Novembro em Amiens, em França. Neste espaço de tempo, Aquilino faz-nos viajar de Berlim, a que chega de comboio “ Com os alvores do dia, ouço vozear: Brandeburgo! Na manhãzinha, em ansioso sobressalto, vejo pular Spandau à retaguarda, depois às duas mãos os subúrbios meio estremunhados de Berlim.” a Parchim, continuando por Schwerin, Hildesheim, Hameln, Pyrmont, Hannover, Hamburg e, em seguida pelos campos de batalha da Primeira Grande Guerra - Béthune, Lacouture, Bapaume, estrada de Arrás e Courcelette que o conduzem a Amiens.

Este livro é publicado apenas em 1934 e nele podemos observar a leitura que o autor faz daqueles tempos e daquelas gentes. Sentimos, também, as marcas que nele deixaram as tílias de Mecklemburg, terra da sua primeira mulher. Achamo-las parecidas àquelas, centenárias, que vemos em Soutosa na sua casa de família - a sua casa museu. E que, a mim, me lembram, as tílias de Berlim – unter den Linden para sempre.

 

Desde 2007 que descansa no Panteão Nacional, ao lado de outras figuras de referência da História de Portugal, este escritor que consegue conciliar num registo por vezes irónico, uma linguagem erudita e regional, um discurso universal de crítica da opressão política e do fanatismo ideológico veiculado por personagens provincianas de que nos fala com enorme carinho.

 

Luísa Coelho

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