Portugal Post: 20 anos

Contra ventos e marés

 

Há vinte anos, em 1993, surgia o primeiro número do Portugal Post (PP), na altura ainda sob o nome Correio de Portugal. Fora algumas tentativas fracassadas para criar uma publicação concorrente, este foi o único jornal da comunidade portuguesa na Alemanha que conseguiu sobreviver a todos os contratempos inevitáveis, e, contra ventos e marés, garantir um número mensal aos seus leitores, durante vinte anos a fio.

Um dos desafios ao longo destas duas décadas foi acompanhar as alterações profundas no perfil da comunidade imigrante e atender aos seus interesses díspares: as primeiras gerações instaladas no país há décadas, os luso-descendentes por vezes já com pouca ligação com Portugal, trabalhadores destacados com permanência temporária no país e a nova onda de imigração portuguesa, desencadeada pela recente crise económica.

O segundo grande desafio foi e é o financiamento. As assinaturas são uma fonte de rendimento importante, mas a comunidade portuguesa neste país é relativamente pequena, pelo que o mercado é reduzido. O que não facilita a angariação de publicidade, uma receita incontornável para a existência do jornal. Em dadas alturas, o Portugal Post sobreviveu por mera obstinação.

Ciente desses constrangimentos, houve quem se visse tentado a condicionar a publicidade a uma posição editorial favorável. Os casos de pressão registados originaram, também em instâncias públicas, que justamente têm o dever constitucional de defender a liberdade da imprensa. Sendo cronista do jornal há muito tempo, não me passou despercebido que também algumas das opiniões por mim ventiladas provocaram reacções menos apetitosas. E não são só os portugueses, também entidades alemãs – neste caso exclusivamente privadas, diga-se em abono da verdade – mostraram uma sensibilidade extrema a opiniões críticas por parte de “estrangeiros” e agiram sob a ilusão de que os direitos garantidos pela Lei Fundamental não se aplicam a órgãos de comunicação não-germânicos. Convictos de que o “Gastarbeiter” não tem como se defender, chagaram a ameaçar com tribunal. Em vão, como é óbvio, e as ameaças esfumaram-se.

Claramente, pois, o PP não cede a pressões, preferindo acatar com a perda de um anunciante a violar a deontologia jornalística. Levou algum tempo até que certa gente percebesse que o PP não é um panfleto, nem se deixa instrumentalizar para este ou aquele fim. Mas hoje, volvidos vinte anos, penso que só quem não quer mesmo é que não entende que o PP preza, acima de tudo, a sua independência.

O que também significa, por outro lado, que o jornal não pode agradar a (leitores) gregos e troianos. A crítica, por exemplo, dirigida a certos vícios da comunidade, nem sempre é bem recebida. Mais triste ainda: por vezes, a valorização pelo jornal de actividades desenvolvidas por membros da comunidade em prol dos portugueses aqui residentes através de reportagens e entrevistas, não desperta o orgulho no ou na compatriota, mas antes a inveja. E como é difícil amesquinhar abertamente quem se engaja pelo bem dos outros, ou quem desenvolve um talento artístico ou académico que prestigia a nossa imagem na Alemanha, opta-se por atacar o jornal que lhe dá destaque, porque “eu é que sou bom e a mim ninguém me entrevista”. Mas estes leitores ávidos de protagonismo injustificado são uma pequenina minoria. A grande parte quer boa informação e algum entretenimento, aprecia o “fair-play”e mantém-se fiel ao PP, contribuindo decisivamente para que o jornal possa continuar a existir e servir a comunidade. As críticas construtivas destes leitores são imprescindíveis, pois ajudam a melhorar os conteúdos.

 

Porque, evidentemente, o PP também comete erros. Como poderia ser de outra forma, se é feito por seres humanos? Mas os erros, quando apontados, são reconhecidos e emendados, com o devido pedido de desculpas. E os colaboradores esforçam-se por dar o melhor – a título benemérito, diga-se de passagem. Aliás, a falta de vantagem pecuniária na colaboração é talvez  uma das razões pelas quais tão poucos jornalistas portugueses na Alemanha acham que merece a pena contribuir para um jornal que serve de fonte de informação e elo de ligação a uma comunidade muito dispersa. A outra razão é uma atitude já sobejamente conhecida: uma certa auto-proclamada “elite” entre os portugueses na Alemanha, pequena-burguesia bem-pensante, que se considera “acima de mero emigrante”, acha que escrever para a comunidade não a prestigia, nem lhe afaga devidamente o ego. A noção de solidariedade não consta dos seus dicionários.

Por sorte, muitos outros há que não pensam assim. Justamente, nos últimos tempos, o PP ganhou novos colaboradores, jovens ou não, jornalistas profissionais engajados e amadores com talento, com um domínio exemplar da língua e coisas importantes, interessantes, tristes e divertidas para dizer. Seria bom que outros seguissem o exemplo.

Se me atrevesse a dar palpites para o futuro do PP, seria para encorajar a direcção a reforçar duas estratégias já lançadas, mas ainda fracamente desenvolvidas. A primeira, é a publicação de mais artigos em língua alemã, para conquistar leitores alemães interessados, mas também muitos jovens luso-descendentes que têm (ainda) dificuldades com a língua. Seria talvez útil recrutar igualmente colaboradores entre este grupo de luso-germanos. Também eles têm, decerto, histórias interessantes para contar. A segunda, é o reforço da presença do PP na Internet, com uma maior interacção entre o jornal e os seus leitores, e uma maior abertura a leitores interessados em todo o mundo. O PP nasceu praticamente com a World Wide Web (1991), nada mais natural que cresça agora com ela.

Cristina Krippahl

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