Ensaio sobre a condição portuguesa

Entrevista com o Prémio Nobel da Literatura,  José Saramago

Cristina Krippahl
José Saramago esteve em Frankfurt ao pé do Meno, no passado dia 6 de Março, para uma leitura que assinalou  o 25º aniversário da Livraria e Editora Teo Ferrer de Mesquita. Serralheiro, gráfico, empregado, tradutor e  jornalista, o auto-didacta Saramago fez de tudo um pouco antes de conseguir vingar no mundo dos livros.  Nessa altura, já tinha ultrapassado a sexta década da sua vida, o que talvez explique porque é que a fama  internacional de que goza há vinte anos - coroada em 1998 com o primeiro Prémio Nobel da Literatura para um português - nunca lhe subiu à cabeça: José Saramago não se esquece das suas origens humildes e muito menos dos seus amigos de longa data. A prova é que o octogenário deixou os seus livros e a sua casa solarenga na ilha de Lançarote para enfrentar o frio e a neve alemães, num gesto de apoio a Teo Ferrer de Mesquita «que tem feito efectivamente um trabalho de difusão da literatura e da língua portuguesa». Ao contrário, aliás, daqueles que têm o dever de o fazer, como confiou o Nobel ao PP:

JS - Realmente, é absolutamente lamentável que o Estado - falo do Estado Português, e não do governo A ou do governo B - não tenha uma política de difusão da língua no estrangeiro. Mas se não tem um ensino da língua verdadeiramente eficaz no interior do próprio país, como é que podemos esperar que o tenha fora?

PP - Mas esta falha tem alguma explicação?

JS - Podem vir-me com a desculpa do costume: que não há dinheiro. Mas quando foi necessário encontrar dinheiro para o campeonato europeu de futebol, encontrou-se dinheiro, construíram-se dez estádios, embora alguns deles já não sirvam para coisa nenhuma. E o trabalho da difusão da língua, da preparação de pessoas para promoverem o ensino da língua no estrangeiro, seja na Alemanha, seja onde quer que seja, não está feito ou está feito de maneira incompleta. Os resultados acabam por ser, não quero dizer negativos, mas não suficientemente positivos para que nós reconhecêssemos que se está a trabalhar de facto. Está-se a trabalhar, mas é assim como quase tudo na nossa terra ...

PP - Isso aplica-se igualmente ao tão badalado conceito da Lusofonia?

JS - Quem não tem ideias próprias, ou as tem insuficientes, vai sempre à procura das ideias dos outros, esperando que elas também sirvam ao figurino nacional. Esta ideia da Lusofonia sai de uma coisa chamada Francofonia: como os franceses tinham a Francofonia nós também quisemos ter isto a que chamamos a Lusofonia.

PP - A Lusofonia não tem razão de ser?

JS - A Lusofonia em si mesma é um conceito que só vale aquilo que lá pusermos dentro. Se não lhe pusermos dentro nada, então não tem qualquer tipo de importância. Aquilo que podia dar conteúdo, densidade a esse conceito de Lusofonia seria a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Mas ela não serve rigorosamente para nada. Serve para que umas quantas pessoas se reúnam de vez em quando não se sabe bem para quê, porque também nada transpira para o exterior, não sabemos o que é que eles fazem. Há uma coisa que sabemos: é que se o Brasil, Portugal, e os restantes países, Angola, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Timor, Cabo Verde, Guiné, juntos fizessem alguma coisa, nós dávamos por isso. A verdade é que a CPLP é uma invenção de cuja utilidade nós ainda não nos apercebemos. Mas isto, no fundo é um pormenor. Gravíssimo, claro está, mas é apenas uma parte do panorama, porque o panorama é todo ele bastante negativo. Mau ensino na origem, má difusão, má promoção, da língua portuguesa no estrangeiro, falta de meios humanos, falta de meios materiais... e vivemos assim, à espera que chegue o D. Sebastião, que aliás é aquilo que nos caracteriza, sempre à espera que chegue o D. Sebastião.

PP - Não é o caso de José Saramago. Senão, porque continuaria a intervir publicamente, a participar em conferências sobre a Lusofonia, ou a fazer leituras como esta em Frankfurt, quando podia ficar tranquilamente na sua casa a escrever livros?

JS - Eu acredito sempre que há uma possibilidade. E mesmo que eu não acreditasse nessa possibilidade, se calhar continuaria a fazê-lo, porque sinto que é uma obrigação minha. Porque as pessoas conhecem-me, lêem-me. Tenho o prémio Nobel, isso é uma espécie de imagem forte no mundo. Quando me deram o prémio, enfim, eu creio que todos os portugueses no mundo tiveram um momento de alegria, de felicidade, porque se sentiram dignificados, apesar de muitos não me terem sequer lido. Mas isso foi um momento, e se se quer que ele dê frutos, tem que se fazer um trabalho sério, bem programado, com meios suficientes.

PP - Quando recebeu o Prémio Nobel, dedicou-o a todos os falantes de português no mundo. Referia-se, também, aos portugueses emigrados?

JS - Obviamente que sim. Aliás, nos últimos anos já não tanto, mas houve um período em que eu viajei muito pela Alemanha, para apresentar livros e para falar de muitas coisas. Ia muito às associações de portugueses em Dortmund e em outros lugares.

PP - Disse também, um dia, que não era um exilado, mas um emigrante. Porque foi necessário precisar a sua condição de emigrante?

JS - Embora haja que rectificar aí uma coisa: eu nem sequer sou um emigrante, eu sou uma pessoa que tem a sua casa em Lisboa, e que tem também uma casa em Lançarote. É certo que naquele momento, com o acto de censura cometido pelo governo português no ano de 92 (*), eu saí desgostoso, claro está. Nessa época, estava muito aceso o problema do Salman Rushdie (**), que, ele sim, estava exilado. Houve alguns jornais que quiseram meter-me numa situação semelhante, dizendo que eu também me tinha exilado. Eu disse «não, eu não sou um exilado, sou um emigrante». Portanto, não há nenhum motivo para fazer do meu caso um caso tão especial que tenha que ser constantemente falado. Porque, no fundo, estou na mesma situação em que se encontram milhares e milhares de portugueses, que por este ou por aquele motivo trabalham noutro país. De qualquer forma, eu pago os meus impostos em Portugal. Quer dizer, sou suficientemente patriota para, num tempo em que a invasão fiscal é o que é, pagar os meus impostos pontualmente em Portugal.

PP - O escândalo de 1992 a que se referiu não foi o primeiro nem o último que envolveu obras ou afirmações de José Saramago. Recentemente, o livro "Ensaio sobre a Lucidez", causou polémica por ter sido interpretado como um apelo ao voto em branco.

JS - Curiosamente, quando o livro foi apresentado em público, estava comigo o ex-Presidente da República, Mário Soares, que em certa altura da discussão, me disse: «Homem, 15% de votos em branco seria o descalabro da democracia». E eu perguntei-lhe se 50% de abstenções não eram também o descalabro da democracia. Mas, trata-se de uma história, de um romance que põe esta questão: o que é que sucederia se uma percentagem significativa de cidadãos votasse em branco? No livro, o governo quer saber quem são os responsáveis. E como não os encontra, inventa-os. E como os inventa, o livro acaba em tragédia. Digo que aqui se apresenta o problema da democracia.

PP - Que, aliás, afirma não existir, ou, pelo menos, que não a estamos a viver nas sociedades ocidentais, outra declaração que fez correr muita tinta em Portugal.

JS - Creio que tanto direito tem um político, ou um economista, ou um comentador de televisão ou de jornais, como tenho eu, de discutir, de pôr à consideração dos leitores, estas questões: para que serve a democracia e se efectivamente vivemos em democracia?

PP - É correcta a noção de que se trata aqui de apelos para «acordar» as pessoas?

JS - Aquilo que fica para qualquer um de nós é a necessidade de compreender o que se passa. À medida que vamos compreendendo o mundo em que vivemos, as razões porque o mundo se encontra na situação em que se encontra, e as nossas vidas pessoais também, podemos começar a compreender como é que o futuro se nos apresenta, se haverá alguma maneira de orientarmos o mundo numa boa direcção. E isso é uma tarefa de nós todos, é um trabalho que não pode ser deixado nem aos políticos, nem aos governos, e muito menos aos FMIs (Fundo Monetário Internacional - NR), às organizações mundiais de comércio e aos bancos mundiais. É óbvio que é um trabalho dos cidadãos.

PP - Como conseguir a participação activa do cidadão?

JS - Não há nada melhor do que um cidadão com dúvidas. A dúvida é muito mais construtiva do que a certeza. Quando a pessoa tem uma certeza, habitua-se a ela e já não a põe em causa. O melhor é ter sempre dúvidas. Esse seria o meu conselho, as dúvidas acima de tudo, porque as dúvidas são sinais de vida, e as certezas podem ser sinais de, não quer dizer de morte, mas de apatia, de indiferença, que são inimigas mortais da espécie humana.

(*) Um subsecretário de Estado, do qual não reza a História, decidiu, em 1992, riscar o "Evangelho Segundo Jesus Cristo" da lista de propostas lusas para o Prémio Europeu da Literatura, porque alegadamente feria as susceptibilidades religiosas da Nação.

(**) Autor anglo-indiano ameaçado de morte por fundamentalistas islâmicos após a publicação do seu livro "Os Versos Satânicos".


Saramago e Pilar del Rio encontram-se em esquina da Azinhaga


Pilar del Rio passa hoje a fazer esquina com José Saramago, na rua que a Azinhaga, freguesia natal do Nobel da Literatura, decidiu dedicar à musa espanhola do escritor, adoptando-a também como filha da terra.
Para Saramago, "faz de conta que é outro casamento".
“Se ela vem dali e eu daqui e nos cruzamos, faz de conta que é outro casamento”, disse José Saramago, lembrando que depois do casamento em Lisboa, em 1998, o casal voltou a casar em 2007 em Castril (Granada), terra natal de Pilar del Rio.
O escritor falava na cerimónia em que Pilar del Rio foi nomeada Filha Adoptiva da Azinhaga “pela divulgação que tem feito desta terra em todos os cantos do Mundo” e por ter sido a responsável pela reaproximação de Saramago à sua aldeia natal, como frisou o presidente da junta de freguesia, Vítor Guia.
O seu nome fica escrito na antiga Rua da Estação, que passa frente à junta de freguesia e à Biblioteca José Saramago e que se cruza com a rua que em 1987 recebeu o nome do escritor.
A placa, de azulejos, com orla em tons de amarelo, exibe o nome de Pilar del Rio seguido da citação constante no livro Pequenas Memórias: “A Pilar que ainda não havia nascido e tanto tardou a chegar”.
Pilar, que recebeu uma réplica da placa toponímica, desejou que “todos os enamorados do Mundo se encontrem e dêem um beijo nesta esquina”.
Agradecendo esta “primeira e provavelmente última” distinção, que prometeu jamais esquecer, Pilar deu depois, sempre, a primazia a Saramago, a ponto de este a puxar para si no momento em que cedeu falar em seu nome na inauguração da delegação da Fundação de que ela é presidente, admitindo que o castelhano de Pilar “talvez não chegasse à compreensão de todos”.
A Azinhaga quis repetir hoje as honras com que há um ano festejou com Saramago os seus 84 anos e a povoação saiu à rua para acompanhar as cerimónias que começaram na sede da junta e prosseguiram na Rua Pilar del Rio, no miradouro, na Praça Central e na ceia ao ar livre.
“Gosto cada vez mais da Azinhaga”, deixou escapar Saramago no momento da inauguração do que pediu para não se chamar “pólo” - “faz lembrar os pólos das baterias, pólo Norte, pólo Sul, deixa uma espécie de arrepio" -, mas antes “delegação” ou “sede local” da sua Fundação.
“A terra onde se nasce pode tornar-se indiferente ou alheia, mas tive sorte. Deveu-se também a Pilar”, disse.
Sentado à mesa que ladeia a cama que foi dos seus avós, colocada no andar superior da casa que acolhe a Fundação, Saramago olhou para os excertos do seu discurso na Academia Nobel, colocados na parede, e recordou o episódio que esteve na origem do seu nome.
“Creio que é o único caso na história da Humanidade em que o filho deu o nome ao pai”, disse, recordando que foi o funcionário do registo civil, de nome Silvino, que juntou Saramago a José de Sousa, “erro” que fez com que anos mais tarde o pai tivesse sentido necessidade de adoptar o mesmo apelido que o filho.
De aspecto frágil, mas sempre muito atento e de bom humor, Saramago lembrou que o local que acolhe a sua Fundação foi registo civil e foi prisão, “visitada” pelo seu tio Carlos Melrinho que tinha “uma simpatia especial pelos fios de cobre” e pelos coelhos que roubava à mãe.
“Quero fazer não uma confissão, é uma espécie de pressentimento. Se o meu tio Carlos Melrinho estivesse vivo é possível que esta placa de cobre (com o nome da Fundação) não durasse muito tempo”, gracejou.
Saramago deixou um apelo para que a delegação da sua Fundação na Azinhaga não seja um “santuário”, mas sim um local para os jovens estarem e se encontrarem, um “foco de animação cultural” para a freguesia.
“Em primeiro lugar este lugar destina-se aos jovens da Azinhaga, em recordação do tempo passado, em que os jovens de então não tinham mais que fazer senão pegar no cabo da enxada do pai ou do avô e continuar a sua faina”, disse, pedindo que, feita a recuperação do edifício, este funcione de facto.
Na longa tarde passada na Azinhaga, Saramago foi “brindado” com uma representação teatral e pela leitura de excertos de livros seus por alunos da escola básica da Golegã, tendo ainda feito a apresentação do livro “Memórias da Terra de José Saramago - Azinhaga”, de José Henriques Dias.
O dia foi ainda marcado pela assinatura de um protocolo de geminação entre as três localidades que marcam a geografia da sua vida - Azinhaga, Castril e Tias (Lanzarote).
** Maria de Lurdes Lopes, da agência Lusa **