Luisa Costa Hölzl

Índice dos Artigos (Inhalt)
Luisa Costa Hölzl
Do novelo da memória
AS CASAS, AS NOSSAS CASAS
Maria Teresa Horta e o 25 de Abril
Convite a Lisboa
Todas as páginas (Alles anzeigen)

José Saramago - Última Viagem

A página da fundação de José Saramago estava negra. Com letras brancas, em português e em espanhol, informava-nos que o escritor havia falecido nesse dia - 18 de Junho de 2010 - no seio da sua família. Uma frase simples, sem arrebiques nem grandes demonstrações de emoção e por isso mesmo, nesse despojamento, fechando em tom saramaguiano uma longa e profícua vida de 87 anos.

O rapazinho ribatejano, nascido em 1922, levado pelos pais, em busca de melhor vida, para a capital , onde viveram em quartos alugados e onde ele cursou a escola comercial por não haver dinheiro para pagar o liceu, onde aprendeu e seguiu o ofício de serralheiro para depois, num árduo caminho, ir subindo até chegar a responsável de produção da editora Estúdios Cor e aprendendo nas letras e na vida até se tornar escritor, sim, esse homem que herdara do pai uma alcunha com nome de planta e dos avós o respeito por todo o ser vivo, chegara ao fim dos seus dias.

Nesse mesmo serão, por acaso, eu tinha sido convidada a fazer uma palestra sobre Lisboa literária, com leituras de poemas e extractos de narrativas. O público alemão já sabia da morte do escritor e eu dediquei-lhe aquela hora literária. Uns dias antes já eu escolhera uma curta passagem do seu romance "História do Cerco de Lisboa" de 1989. O protagonista vai reescrever a história desse cerco dos cristãos aos mouros, corrigindo-a e assim dando espaço àqueles que não entram nunca nos compêndios de história e não são nomeados nem em discursos oficiais nem em lápides, porque são os derrotados e a humanidade só arquiva as vitórias e os nomes dos vitoriosos. Também "Todos os Nomes" de 1997 se centra sobre um arquivo que reduz vidas humanas a números e documentos, mas que a ficção tem o poder de reanimar. Ao dar aos sem-nome existências de papel, Saramago recupera vidas e histórias anónimas e reinventa a História. Saramago contou que foi em Lavre, ao viver alguns meses com a população alentejana, que se descobriu inteiramente e profundamente como escritor e se decidiu a sê-lo exclusivamente; aquele povo levou-o a reconhecer que a História da humanidade é composta das histórias da "arraia-miúda" que têm sido sempre sonegadas e ficaram por narrar. Elas deverão ser reveladas e postas a nu pelo escritor. Por isso no "Memorial do Convento" de 1982 a longa passagem do carregamento da pedra gigante, que constituirá a varanda, desde Pêro Pinheiro até Mafra, incide o foco não sobre o rei que mandou, pela sua vontade e força, construir o convento, mas sobre aqueles que o construíram mesmo, que foram explorados, escravizados e encontraram a morte para o fazer.

As ficções de Saramago cruzam espaços e tempos, inventam situações estranhas como toda uma cidade que cega ou a península ibérica que se desliga da Europa ou a decisão da morte em não agir. O narrador de Saramago conduz-nos pelos meandros e labirintos das histórias e vai opinando, pesando as palavras, comentando os acontecimentos, num jogo de espelhos que enreda o leitor e o encanta. O penúltimo livro, de 2008, conta a viagem do elefante Salomão que o rei português D.João III resolve oferecer ao seu primo Maximiliano em Viena: o pobre do elefante atravessa meia Europa. Um romance em que notamos a quase ingénua alegria de efabular do escritor, ao fim de uma longa vida de empenho social e político: Saramago narra-nos, pelo prazer de narrar, os trâmites dessa viagem insólita, metáfora, quem sabe, da viagem da própria vida, também ela forçada e insólita.

José Saramago também foi poeta, deixo-vos pois esta quadra, muito pessoanamente "ao gosto popular":

Viajo no teu corpo. Só teu corpo?
Mas quão breve seria essa viagem
Se no limite dela a alma nua
Não me desse do corpo a certa imagem.

Uma pequena quadra de "Provavelmente Alegria" de 1970, num tempo em que a escrita ainda não o tinha tomado por completo. Os deuses ou o deus em que ele não acreditava bafejaram-no de imaginação criativa e do potencial maravilhoso da língua portuguesa. Sorte nossa que lhe herdámos a obra! Ao escritor que se cumpriu prestemos homenagem com a leitura do que nos legou.

Luísa Costa Hölzl