Cristina Krippahl

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Cristina Krippahl
A invasão de Agosto
Não voto
Podre por dentro
Guia de bolso dos preconceitos contra os alemães
Emigrantes? Que horror!
Em defesa da boa imagem dos portugueses
Grandes Malandros
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 Foto: DW

 

A minha «fanfarrona bomba de matrícula amarela» e eu
Cristina Krippahl

Causou grande consternação um artigo de opinião recentemente publicado no semanário português «Expresso», que tentou o feito inédito de ofender de uma assentada cinco milhões de portugueses. Digo tentou, porque a meu ver só se ofende quem quer ser ofendido. Mas espanta-me a consternação. É possível que seja novidade para alguém que uma grande parte da população portuguesa continua a achar que os emigrantes são cidadãos de segunda? Depois da forma como nos tratam há anos os sucessivos governos, os políticos que supostamente nos representam, as entidades pagas para nos assistirem, foi preciso um rapazote qualquer debitar meia dúzia de bacoradas num jornal às moscas por causa da «silly season» para nos apercebermos da consideração que nos têm na pátria?
Pessoalmente acho bastante mais assustador e significativo que um licenciado em História Contemporânea tenha tão poucos conhecimentos sobre a História do seu país. Não vou tecer considerações sobre a instituição que o formou. Não sei se é uma daquelas «universidades» que proliferam no Portugal moderníssimo, criadas expressamente para garantir um canudo a troco de muito dinheiro e pouco talento a quem tenha paizinhos em condições financeiras. Se calhar também as universidades portuguesas ditas sérias preferem calar algumas realidades mais incómodas. Por exemplo, a de que os emigrantes, pelo menos os na Europa, pagaram duplamente pela modernização de Portugal nos últimos 50 anos: primeiro através das remessas e segundo através dos impostos e das contribuições nos países que trabalham, que são a base dos fundos estruturais europeus, que, por sua vez, deram a Portugal tantos e tão bonitos estádios e autoestradas vazios. Isto porque os políticos portugueses ligeiramente atrasados em relação ao que se sabe serem as prioridades para um país apostado no desenvolvimento, acham que investir no futebol e nos automóveis para todos faz mais sentido do que construir um sistema de ensino e formação ao nível europeu. Os resultados estão à vista.
Confesso que pertenço ao número de emigrantes que, todos os anos, no Verão, «invade» a pátria, se bem que não «montada» na minha «fanfarrona bomba de matrícula amarela». Primeiro, porque não me parece que isso descreva correctamente o meu VW Golf. Segundo, porque não me apetece levar a viatura para Portugal, país onde a miséria ainda é tanta que qualquer carro com matrícula estrangeira se arrisca a ser assaltado por quem acha que os emigrantes guardam sempre as suas poupanças da vida debaixo do assento do condutor. Prefiro deixar o meu carrinho abandonado durante quatro semanas à porta da casa na Europa, porque não tenho garagem, nem preciso, num país civilizado onde em 30 anos não sofri um único arrombo. E terceiro, porque guiar nas estradas portuguesas é mais ou menos como guiar no Cairo: só para quem procura aventuras de alto risco. O atraso de Portugal em relação à Europa no desenvolvimento do mais rudimentar civismo faz-se notar com particular ferocidade na forma como os portugueses guiam.
Mas não só. A nós os emigrantes de «modos rurais» todos os anos nos choca de novo a dimensão do atraso, que tentamos depois esquecer entre Setembro e Julho: o lixo nas ruas, nas matas e nas praias. Os carros estacionados em cima dos passeios que obrigam mães com filhos pequenos a arriscar a vida quando andam nas cidades. As cuspidelas para o chão. A prepotência da polícia. A corrupção a todos os níveis da sociedade. O colapso total da justiça. As televisões que tratam os espectadores como atrasados mentais. Mas como é o nosso país, encontramos mil desculpas: « … a Democracia não se faz em 20, 25, 30, 35 anos», « … mas tem bacalhau e pastéis de nata», « … as praias são lindas» (e mortíferas por causa dos crimes que se cometem contra a ecologia). E por aí fora. Como é só para as férias, aguenta-se bem. Desde que não nos caia uma falésia em cima. Mas muitas vezes nos perguntamos: como é que «eles» aguentam? «Eles», claro, são os dez milhões que ficaram.
Como é sabido, a esperança é a última a morrer. E assim nós os emigrantes continuamos alegremente a enviar dinheiro, a investir em Portugal, a passar lá as férias e a contribuir para os fundos estruturais, porque estamos convencidos – muito mais do que os que lá vivem - que um belo dia Portugal há-de começar a recuperar deste atraso enorme que leva em relação à Europa onde nós vivemos. Com um bocadinho de sorte, será um processo que até incluirá a imprensa, que poderá então apostar mais na informação feita por profissionais pagos e menos na opinião com que agora enche as páginas porque é de graça, para não dizer gratuita. E quando publicar uma opinião, será de comentaristas com coisas inteligentes para dizer.